#AFORISMO 620/PURA LIBERDADE SEM PUREZA# - GRAÇA FONTIS: PINTURA(TÍTULO: #INNER LIVRE#)//ARTE ILUSTRATIVA//Manoel Ferreira Neto: AFORISMO



Pedra de toque
Vazio me faço
Vazio me projeto
Vazio me sou
Vazio me abro
Vazio me completo
Vazio me preencho
Vazio me complemento


Palavras me faltam no lavrar caminhos bíblicos
Genesis, cânticos, apocalipse
Cataventos de história, dialéticas da existência
Redemoinhos de conjunturas, contradições de contingências
Felicidades enroscadas de sofrimentos, dores
Alegrias embrulhadas em hipocrisias, farsas
Fortes e indigestos amores de maculadas carnes
E o verbo tornou-se cinzas
Cinzas elevaram de seduções o pó de dogmas, preceitos
Outroras de res e pectivas, o gozo algemado,
O clímax acorrentado
De linguagens, vazios, signos
Nadas de estilos, símbolos
Nonadas de linguísticas, metáforas
Ideais em chamas da melancolia, nostalgia, saudade
Primavera em jogos da felicidade, instante de ser feliz
Artífice das palavras, inverso das arribas espirituais


Sou a Maria Fumaça que corta os trilhos de ferro
"manteiga-não-café-com-pão
manteiga-não-café-com-pão..."
Os dormentes de aqui e agora
Em direção ao que há de perecer
De amanhãs rego as nostalgias primevas da criação
Sinos tocam à revelia de agonias, solidão
Encantos
Magias
Verbos versados, versos verbais, estrofes in-fin-itivas,
Por que dividir em sílabas condenadas in-fin-itivas
Rimas e métricas?
Luzes da ribalta seduzindo o silêncio de cenas
Trapezistas des-afiam nas alturas o espetáculo
Do equilíbrio entre a arte do corpo, medo da morte.


Pedra angular
Perquiridor me litteriso
Indagador me literalizo
Questionador me intertextualizo
Filósofo me idealizo
De literato me fantasio
Nada me projeto
Nada me lanço
Nada me jogo
Nada me sou o que é.


Cúpulas de prata sob pilares de ouro
Longínquos pensamentos à mercê de sons do silêncio,
Distantes idéias às cavalitas de ritmos da algazarra,
Amor, carinho, afeição, ternura
Atrás do espelho da alma, remorsos, culpas
À margem da imagem refletida no tempo, ressentimentos,
Ensimesmou-se a imagem do póstumo
Nos ângulos convexos, côncavos da solidão,
Hesitância do advir
Aliso a barba branca, visualizo a velhice
Passo a passo, lembranças, recordações.


O passado vira das páginas escritas de contingências
Entregas, doações, instantes de prazer, felicidade
O presente lê nas linhas do presente, desolação
O ato falho do amor, o manque-d´être da verdade
O passado an-alisa, inter-preta das situações, medo
Caminho entre sombras, pervago entre trevas
O fim é inevitável.
Às náuseas da velhice saúdo o clímax do amor
Que diferença há entre o vazio de hoje
E o nada da velhice?
O amor não deixa aos mortais
Nem glória nem virtude.


No ínterim, as trilhas de angústias, tristezas
A vida revelou-se plena de felicidade, alegria
O verbo do não-ser efemerizou o verso da posteridade
Nada sou
Desejei o nada de ser
Quis o não-ser da alma
Sonhei o Vedas de vazios
O Mantra de nonada
O Krishna da solidão
Mergulhei profundo no tabernáculo da liberdade
Sem genesis, princípios, dogmas
Sem essência, sem eidos, sem núcleo
A pura liberdade sem pureza.


Pedra de toque
Em silêncio teço os sons dos verbos frasais
Dos volos de quimeras lúdicas,
Na solidão dos ventos assobio a canção do eterno,
A in-finita melodia que leva para os auspícios da colina
- é outra etern-idade
Sons sustenidos, graves, sentidos
Este momento arrasta consigo todas as coisas vindouras,
Os eternos sibilos levam para trás,
Às minhas costas há uma outra eternidade,
O tempo é um círculo.


(#RIO DE JANEIRO#, 10 DE MARÇO DE 2018


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