VISÃO ADENTRO À VIDA - Manoel Ferreira

 

A arte vivencia – mais do que vive nas linhas de suas quimeras e sonhos os desejos e vontades dos homens -, funde o homem a si mesmo – mais do que os comunga às realidades, situações e circunstâncias, mais do que os reúne às esperanças e fé -, corporiza e transmite a vivência absoluta dos instantes de privilégio, de glória. Estando eu de volta, da vida ao nascimento, da luz ao crepúsculo, tendo já construído uma pequena rede para a vida que se inicia na arte de pescar pequenos peixes, colocá-los num aquário de vidro que comprei em minha última viagem à cidade, surge amigo, felicitando-me pelo re-torno, em suas palavras dizendo o quanto havia sentido falta de vasculhar, ponto a ponto, não em busca de um nó mal apertado, uma ponta perdida no ar, até mesmo na atmosfera que se manifesta e esvai num átimo de segundo, mas os muitos sentimentos de sinceridade e seriedade com cada bater do coração. Poderia ficar aqui uma eternidade, se não até a consumação dos tempos, e nunca seria capaz de abarcar todos os sentidos que percebi no vulto triste e comovido sobre a estéril dor da humanidade antiga, de mais perto da origem igual das coisas, até o reflexo da água na lua crescente das estrelas ao redor. Vim saber como a amizade era e soube coisas mágicas e divinas. Porque há só ainda amigos de sentimentos e louvores – intimidades vistas por fora ou por dentro. Como no reflexo da água, simples forma de ver o campo, debaixo da velha oliveira. O que mais me falta, aquilo por que suspiro profundo, eivado dos sentimentos mais transcendentes e puros e à luz do ser que me habita e trans-cende de sonhos, tão melancólica e nostalgicamente, não é saber e compreender o mundo, os homens, as coisas e objetos, mas vida, consciência, movimento e atitude.
Oscilações!... Sorrio bonito com os meus grandes olhos azuis, vazios, mas entre mim e a eternidade parece não haver nada em comum; nada talvez do que para mim fosse fundamental, sagrado e divino poderia sê-lo para mim – somos de lugares antípodas da terra, nossas linguagens não têm palavra alguma em comum.
Nostalgia!... Essa re-versão de minha quimera, só eu sou igual a mim - próprio, esta in-versão de minhas fantasias, sigo o meu destino, rego as minhas flores, amo as rosas que desabrocham no despertar da aurora, o resto é a sombra de árvores alheias, a libertação de minha personalidade não constitui aventura prazerosa e confortável, di-vertida, mas, ao contrário, é com freqüência difícil e complicada e, não raro, quase ininteligível. 
Tudo se realiza e se cumpre de acordo com as leis comuns da consciência requintada e dela flui, embora seja difícil, requer o desejo e a abertura ao novo, inusitado, não somente mudar, mas em geral, re-considerar, re-taliar, re-levar, re-agir, de um modo, mesmo que não seja o adequado, con-veniente, aconselhável. Talvez, para este instante de pureza, do sentimento do puro que alhures me fora a-nunciado com verdades, inestimáveis do coração e do espírito, só seja própria e verossímil uma inocência de criança, que nunca se conhece senão depois de ser ingênua. Se não fossem estas horas de paz, de quando em vez, esta coisa de dentro a calcar, a dizer as de fora. Para este instante de sensibilidade em que os prazeres, felicidades, alegrias, palavras de sabedoria e amor, só seja verdadeiro e espiritual um cântico de graça e louvor à vida, à amizade profunda, ao amor pleno e absoluto, que só se vive depois de sentir presente e real no espírito. A partir do momento em que a realidade da liberdade e do espírito é intuída, não há como não dizer que termino de atravessar a ponte. É seguir esta ponte até atingir o Cruzeiro, com a Cruz Solitária brilhando por todos estes anos, e centenas de outros que não tive a oportunidade de presenciar.
Com os olhos fitos numa orquídea, num vaso, ao lado do Santíssimo Sacramento, o rosto emudece, distende-se-me como um botão que floresce, aparece um sorriso de que não saber o porquê, e talvez não importe saber, apenas sentir; os olhos permanecem fixos e alheios por uns instantes.
Este balançar das asas de uma borboleta é um caminho de atingir o Espírito, o Espírito Santo, Deus de tamanha beleza que o homem se ofusca. Uma dimensão espiritual é uma dimensão espiritual. Não há o que diminuir ou acrescentar. Mas que me importam, meus Deus!, as dimensões do espírito e da matéria, se, de modo ou outro, por uma razão ou outra, estas mesmas dimensões e este “os homens escolhemos a dor entre o nada e a dor”, sempre, não agradam de modo algum. Não poderia eu com um único movimento dar com os tijolos ou pedras no chão? Com a cabeça, com a mão, não importa no momento, se as minhas forças não são suficientes para suportar a dor, para amenizar as lembranças e recordações que se revelam absolutas, para dispersar os sentimentos que me vêm à luz da sensibilidade, do sensível...
Uma certa qualidade de atmosfera nos pelos dos braços, essa leveza do ar própria das noites, quando nada pesa nem resiste e se brinca de arco e flecha com a vida, porque o fundo do ar é amarelado e porque não se tem sono ainda. A fidelidade a mim não aprendi nos léxicos das hipocrisias e farsas. A fidelidade a amigos não a aprendi no encontro de uma conjuntura com a imbecilidade. É tempo de partir... Águia sem destino, coração selvagem, errante, que esvoaça, anuncia a luz da aurora, olha o sol que se esconde numa cabana em meio das sombras de todas as frinchas de folhas que permitem a sua entrada, ao murmúrio talvez de todos os enigmas, mistérios, segredos. Companheiro da noite, que a mocidade vela sonhadora, desce a escada em direção às gargalhadas e vozes altas, um inferninho de prazeres, e a orquestra toca frenética a pela da luz incidindo nas águas cristalinas que dançam ao vento sereno e suave, que o olho num instante olha irônico as paredes negras como o breu, umas lâmpadas deslumbrantes, porque há mais de dois pares bailando à beira do rio.
A verdade singela, pura, inocente, no entanto, tem sempre a aparência ambígua – um assobio, um murmúrio de águas vivas, ruído de fonte ou de cascata.  Conheço a voluptuosidade do vôo e do pairar da água neste lugar nenhum, macio e claro, para onde a alegria me arremessa antes de conhecer o êxtase e o logro do êxtase.

Atrás da esperança não há senão a esperança, senão a esperança atrás da fé nada há, há nada atrás da fé na esperança... No silêncio do absoluto, as palavras de outrora estremecem de insanidade, o silêncio estala a minha boca como uma pedra, estala-me os ossos. Toda essa água que anuncia Deus é isso mesmo – um anúncio, do que jamais foi, na pálida auréola do ar, das casas silenciosas, da copa das árvores ao longe, raiadas de pingos de chuva, quando o silêncio é tão que me ouço ser. 

Comentários