CAPITÉIS DE FINITO TEMPO - Manoel Ferreira


Seguro, sossegado, assento-me na poltrona confortável, no quarto de escritório, pequeno, mas tranqüilo, das palavras em que fico, até a consumação dos tempos, até o retorno ao nada. O criador interno movimento, dôo-lhe luz e vida, crio-lhe na alma e espírito pensamentos e idéias, lego-lhe sentimentos e emoções, crio-lhe na alma e espírito pensamentos e idéias, pulso-lhe o coração de quimeras, fantasias, sonhos os mais voluptuosos, a língua fala-lhe sem a minha participação, faço-lhe ser.
O autor das palavras passa – no alto daquela serra, passa boi, passada boiada, passa a minha amada, levando em mão uma taça de nada -, e ele sobrevive, sonha ainda mais, brota-lhe das profundezas novas esperanças de fé, inusitada fé em todas as suas esperanças, acredita noutros novos sonhos, tece novos horizontes e uni-versos, já não quem escreveu aquelas palavras, nos capitéis de finito tempo ergueram-se solenes e perpétuas, já não quem sentiu bem fundo suas fantasias e quimeras, nelas acreditou como a verdade suprema, já não quem desejou o “ser” e a “vida”, já não quem na alma encontrou alegrias e felicidades; chegada a hora, passará também, viver é passar, é atravessar, é realizar a travessia disto que é a contingência para o além, que é outro estado e outra condição, e as palavras ainda que sensíveis e transcendentes, nelas a semente de outras realidades habita, o sentido futuro outro que não o de “aqui”, que não sentem, são sentidas por quem as lê, re-colhe a a-colhe no íntimo o sentimento que se lhe re-velou puro e sublime, faz delas outras vida, faz delas desejos e vontades de felicidades, serão a única resta posta, o único silêncio posto, a única verdade redimensionada, nos capitéis do tempo e infinito.
É ele homem, é ele indivíduo, é ele sofredor e sente dores atrozes, é ele efêmero, é ele quem lutará de unhas e dentes para tornar real sua vida, concretizar seus sonhos e utopias, é ele quem sentirá sua felicidade plena ou seu fracasso absoluto, é ele o autor de sua vida, é ele o autor de sua obra. Ele registra nas linhas das páginas brancas a sua vida sob raios de sol, garatuja nos ínterins de seus desejos e esperanças as águas cristalinas que seguem abrindo seu espaço de passarem lentas e tranqüilas, inscreve  sob partículas ou miríades da sombra ou escuridão seus desejos e vontades, esperanças e fé, amores e ilusões, paixões e quimeras. E deseja, mesmo, o que escreve seja obra imortal, pensamentos, idéias, sonhos, utopias trans-cendam o aqui e agora, seja bússola para outros desejos, novas contemplações da verdade. Deseja a imortalidade. Deseja sua obra seja imoral, ele seja eterno. A obra imortal escede o autor da obra, a obra imortal trans-cende a vida de seu autor, a obra imortal vai além do bem e do mal, das intempestivas vontades do puro e da beleza, re-presentadas nas volúpias do desejo, a obra imortal ensina ao seu autor a suprassumir seus valores, virtudes.
É menos dono dela quem a fez, o dono dela é a vida, os homens que a leram, que re-colheram e a-colheram suas mensagens, a seiva que iluminará os caminhos de trevas, a humanidade que sonhou através dela vivenciar outras realidades e horizontes, do que o tempo em que perdura. Assim os deuses regem a vida mortal e imortal. Assim ele, quem registra nas linhas de páginas brancas, reje sua vida de sonhos e desejos utópicos. Em verdade, os autores morremos a obra viva.
Mas se assim é, é assim. Há duvidar disso? Não res-pondo. O que leva desta vida inútil tanto vale se é a glória, a fama, o amor, a ciência, a vida, como se fosse apenas a memória de um jogo bem realizado, a mão do jogador que espalha as cartas sobre a mesa, e procura o ás para a sua trinca. A glória pesa como um saco de batatas às costas, subindo a íngreme montanha, desejando colocá-lo no topo dela, e descansar olhando o infinito de nuvens brancas e azuis. A fama arde como a febre, e todo o corpo se lhe entrega frágil. O amor cansa, porque é a sério e busca preencher a carência que o tempo finito de todos os desejos e esperanças foi acumulando no íntimo. A ciência nunca encontra o objeto de suas teorias. A vida passa e dói sobremaneira porque conhece a verdade de tudo isso, e não há tempo para no inverso dela atingir o verso verdadeiro do perpétuo e perene.
Logo que a vida não lhe canse, extasie, deixa que a vida por ele passe, logo que o mesmo lhe fique nas entranhas e interstícios. Tudo lhe é nada. Não sabe que os seus passos vão cobrindo o que podia ser, a mão estendida ao infinito nada pode atingir, não sabe que as suas palavras vão tecendo outras realidades e sentimentos que não os que em si trazia dentro. Se a vida fosse sempre a vida, quem sabe ele pudesse no in-verso pudesse alcançar a verdade essencial.
Aquele agudo interno movimento, que doou ao autor das palavras que foram sendo registradas ao passar dos segundos e minutos,  primeiro passa, e ele, outro já do que era, do que sentiu, do que pensou e desejou, outro de si mesmo, segundo é substituído pela postumidade de suas palavras. Chegada a hora, também será muito menos que as palavras permanentes, que os sentidos outros que vão se aflorando ao longo dos tempos e das conjunturas do finito nas bordas dos versos que, porventura, deixou serem elaborados nos ínterins de cada sentimento exposto e das ilusões elevadas aos horizontes das palavras. O papel em que as palavras foram sendo registradas tem mais vida que a mente que as criou, que as vontades e desejos que as inspirou, que as esperanças e fé que as con-templou, que a vida, a partir das experiências, vivências, fê-las verdadeiras.
Se pudesse colocar o pensamento, as idéias com exata visão e percepção adentro à vida, que haveriam de ser as palavras onde se esquece o duro e triste lapso curto dos dias, a antiga liberdade de ser e escrever que talvez nunca houve.
Só o passado, a ele e nós comum, será indício, a-núncio, de que a nossa alma persiste, insiste, e como antiga ama, escreve  as suas memórias. É na oposição ao que ele deseja, ao invés de que, em princípio, se lhe anunciou nos interstícios da alma, ao in-verso de suas ilusões, ao re-verso das tormentas que lhe afligem, que sente real a natureza, os raios de sol, sem querer, incidem no tempo esvaído de sentimentos, que sente presente a vida, o seu movimento que culminará noutras realidades, quando o amor será verbo, quando o verbo da fé será espírito, sente que existe e seus olhos vêem, no infinito de nuvens escuras e claras, passando e inertes, e ele é pequeno e, nesta consciência de sê-lo, torna grande os sentimentos a lhe perpassarem, à porta da alma, que aberta revela as imagens do horizonte dançando à mercê dos ventos, do uni-verso bailando ao ritmo do efêmero, a identificarem-lhe com os sois verdadeiros e reais que, a toda manhã nascem, toda tarde morrem, e pro-jetam na noite a esperança e fé de outros, subseqüentes aos movimentos da vida, às atitudes dos desejos sempre abertas a novas querências.

Quer ele palavras, quer ele sentido nas profundezas delas, ainda que só o espírito as sinta verdadeiras, nada havendo que as torne conscientes, mas no per-curso e decurso das águas que fluem límpidas de suas fontes inundam de esperanças o desejo do ser, quer ele versos que sejam diamantes que risquem o éter, para que, no porvir extenso, a morte espreite a luz onde a alma nasce   perdida antes de a ter nítida diante dos olhos, diante das retinas que re-colhem e a-colhem as perspectivas e ângulos das sombras postas ao longe, da mortal sorte às condições perdidas das coisas e de si. 

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