Bons dias!
Todos os anos impreterivelmente, nos últimos quatro, no dia 31 de dezembro, desde as sete da manhã, após o banho e o desjejum, aos cinco minutos antes da meia noite, hora do derradeiro banho, tentar tirar as sujeiras que ficaram impregnadas no corpo durante os trezentos e sessenta e cinco dias, deixar-lhe tranqüilo e sereno para outra jornada, mando o computador mostrar-me em slides as centenas de fotos que tirei nas minhas andanças pela cidade, viagens, as tiradas nestes anos, somando por volta de dez mil – sentado na poltrona fico, ouvindo músicas, assistindo à apresentação que se desenrola lenta, dá-me oportunidade esta lentidão de olhar com olhos de lince toda a foto, seus ângulos e perspectivas.
O que me deixa triste, desconsolado é que me não é possível lembrar-me dos sentimentos e emoções que me perpassaram o íntimo – a intenção fora justamente essa: “deixe-me assistir ao que senti e pensei durante este ano inteiro, saber e conhecer com percuciência os sentimentos meus”; pretendo com isso elencá-los de modo que um a um me vou trans-cendendo, atingindo a profundidade do espírito, sonhando acordado com a re-velação do ser que me habita. Creio que isto devido ao fato de não saber ler fotos, em qualquer dimensão da vida e das situações faz-se mister uma leitura profunda para a con-templação do ser; não tenho a mínima noção de seus ângulos e perspectivas, com efeito todos os sentimentos estão nas fotos, ainda mais nítidos e transparentes.  Dissera-me fotógrafo de minhas relações que a fotografia revela os momentos da vida e não os sentimentos dela, nalgumas fotos vou reconhecer-lhes por terem sido manifestados, estava eu em estado de êxtase, alegria, felicidade, contentamento estavam bem presentes e mim, mas noutras não vou reconhecer-lhes, pois ficaram latentes em mim, satisfizesse-me com esta realidade. Aceitei a explicação dele por ser um fotógrafo de mão cheia, nasceu com o dom da fotografia, um dos melhores que já conheci, mas continuando na esperança de conhecer todos os meus sentimentos nas fotos por mim tiradas.
Até mesmo as que peço alguém para me fotografar, ensaiando estas ou aquelas poses – a vaidade de  me apresentar um galã por um segundo apenas não me abandona, para na velhice, olhando a foto dizer-me que fui galã no passado numa foto, e ela será ad-mirada por todos que com ela entrarem em contato -, não sei ler na minha fisionomia o que sinto e penso, nas posturas físicas o que intenciono mostrar, no olhar o que o brilho intenso re-vela – os olhos são o espelho da alma. Disseram-me que frente a um espelho não vou reconhecer os sentimentos que me habitam profundo, no espelho só vou re-conhecer a imagem projetada, que não sou eu, obviamente. Trata-se apenas de uma foto minha. A quem mostro, esperando tecer uma análise percuciente, só ouço que o fotógrafo, o transeunte anônimo que passara por mim no momento em que me dedicava à arte da fotografia, pedindo-lhe a gentileza, foi muito feliz no ângulo e perspectiva escolhidos, está muito bem tirada. Já me aconselharam a mandar revelar algumas destas fotos, não só as minhas, mas as outras, colocando-as num álbum.
Antes das fotos, tinha o hábito de recortar, à tesoura, figuras, estampas e textos de revistas e jornais velhos, colá-los em um álbum, para num momento de lazer folheá-lo bem devagar, olhar todos eles de modo carinhoso e melancólico, até escolher os de que mais gostava, apreciava. Gastava fortuna com revistas para satisfazer este hobby meu, só para recortar as figuras, estampas e textos. Nunca mostrei este álbum a ninguém, tenho-o como um de meus segredos mais íntimos, a ninguém neste mundo será mostrado, são imagens tão ridículas, textos insossos e desprovidos de letras, que me ruborizo às escondidas, quando folheio as páginas, censurando com prepotência a coragem que tive de manter este hobby por algum tempo, embora a intenção tenha sido de colecionar das revistas e jornais o que de mais ridículo e feio há, já que todos se preocupam com a beleza de seus guardados, mostrarem as pessoas, extasiarem elas com o visto, elogiarem seus bons gostos, até pedirem para tirarem cópia disto ou daquilo, quem sabe colocarem num quadro para dependurar na parede da sala de visita.
Larguei de lado a coleção das coisas recostadas das revistas e jornais, as que tinha eram mais que suficientes para conceituar e definir o mal gosto, a falta de senso estético das pessoas, a ausência de olhos de lince dos editores de nossa modernidade. Guardo os álbuns num baú atrás da estante de livros, de quando em vez re-visito-os para me inteirar mais das porcarias deste mundo – afianço que são em maior número que todas as belezas do mundo, superam-lhes em todos os níveis.
Há o que não entendo de modo algum, mesmo que as razões me sejam explicadas por um sábio. Quem, numa visita a amigos e conhecidos, não tenha deparado com uma biblioteca na sala de visitas? Não há quem. Nelas, encontram-se escritores como Shakespeare, Hermann Hesse, Edgard Allan Poe, Dostoiévski, Dante Alighieri, Proust, vários outros, filósofos como Nietzsche, Kant, Hegel, Sartre, Heidegger, e vários outros, uma biblioteca de alto nível, o visitante se sente até incomodado, sapo fora do brejo, inferiorizado com o nível de conhecimento da família visitada, mas se ele tiver a curiosidade de ter uma destas obras, ou várias, em mão, folheá-la, perceberá com nitidez que nem foi aberta, saíram da livraria e foram parar na estante, e do lugar nunca saíram, não foram lidas. Sente-se nítido que as pessoas não têm a menor condição de ler, por exemplo, Kant, intelectuais renomados têm dificuldades de compreender Kant, um dos filósofos mais complexos da história. Estão ali para enfeite, arrebique, ornamento, chamar atenção das pessoas, são objetos de aparência intelectual e cultural. Isto não é visto somente em uma ou duas residências, a maioria das pessoas tem estes objetos de admiração na sala de visita. Já me deparei várias vezes com este espetáculo, senti ímpeto de trocar dedos de prosa com a família a respeito das obras, dos autores, não o fiz por um sentimento de pena delas, com efeito se sentiriam ridículas e imbecis, nunca leram, algumas nunca ouviram dizer dos autores, acharam o nome deles lindo, maravilhoso, excêntrico, motivo mais que plausível para ter as obras na estante de casa. Apenas exclamei: “Grandes obras vocês têm aqui”, os olhares  mútuos de soslaio logo se fizeram presentes, um pedido no brilho deles, não comentar qualquer coisa a respeito, não têm conhecimento algum.
Pois na minha biblioteca não acontece o mesmo. São centenas de obras, todas lidas. Se alguém que me visita me olha com desconfiança, não acredita que tenha lido tanto, convido-lhe de imediato a abrir a que quiser, se não estiver toda riscada, escritas dos lados da página, pode levá-la, é um presente que lhe ofereço com muito carinho, com a devida dedicatória bem sensível. Ninguém nunca levou uma sequer.  Para que tanta ostentação? Para que viver de aparência? Mesmo que lessem, isto não quer dizer que com a leitura se tornam pessoas cultas, intelectuais, isto requer outras coisas bem mais elevadas e transcendentes.  
Passei a fotografar tudo o que aos meus olhos é digno e honroso de considerar e reconhecer de inusitado, excêntrica beleza, para levantar o meu moral que se encontrava bem baixo, não acreditava mais haver beleza no mundo, haver pessoa que a identificasse, o mundo não era senão o feio, o horrível, o ridículo, e a vida, senão a tristeza e o desconsolo. Dei-me de cara com o sentimento e realidade de não saber os sentimentos e emoções que me habitavam a cada foto tirada. Para que ter tantas fotos se não me re-conheço nelas? Re-conhecer-me nelas não significa que não as considero de beleza inusitada, não apresentem características do belo, não mereçam ser ad-miradas, colecionadas, especialmente as de cunho histórico, como de igrejas históricas, de exposições de arte; re-conhecer-me nelas significa os sentimentos que me habitavam no momento que as vi, con-templei-as. Sinto-me na mesma condição de quem tem obras importantes da literatura e filosofia universais, nunca tiveram condições de lê-las, jamais as leram. Se mostrasse a alguém estas fotos, decidisse ele trocar alguns dedos de prosa sobre o que senti quando as tirei, não saberia responder, sentir-me-ia mais que ridículo, um imbecil mesmo.
Afinal, eis o que acabo de me perguntar, faltando exatamente três horas para o ano terminar: para que possuir álbuns ou colecionar fotos na pasta de um computador se depois de minha morte hão de cair nas mãos de herdeiros ignaros e irreverentes, jamais tiveram noção da beleza simples, da beleza estética, nunca souberam que a beleza é o húmus puro dos alimentos da alma e espírito, incentiva, atiça, tudo o mais que se queira acrescentar para a idéia de outra vida e novas esperanças, é a con-templação das sedes e fomes de conhecimento e felicidade; venderão por atacado ou as relegarão para a ignomínia dos porões escuros, ensombrecidos,  quase nem reconhecidos como tais, onde ficarão “mofando como trastes”... essas queridas coisas para sempre impregnadas da nossa alma e do nosso carinho.
Este será o último ano que me dedico, neste dia 31 de dezembro, a assistir aos slides de minhas fotos. Isto não significa que deixarei de tirar fotos, é coisa que gosto muito, ajuda-me a espairecer as idéias, divertir-me. É o único divertimento que tenho. Todo o tempo de minha vida passo trabalhando, preocupado com as edições de meu jornal, entregar em mão do leitor uma edição bem trabalhada, textos que revelem profundidades, ajude-lhe a encontrar outros horizontes e uni-versos da vida, sejam outros, encontrem meios de realizar seus sonhos e utopias. Posso afiançar com toda a categoria: os sentimentos que estão aqui revelados nas linhas e entre-linhas sinto-os bem presentes e fortes em mim, reconheço-lhes, não vou dizer que os conheço em suas profundidades, seria empáfia de minha parte, isto não faz parte de minha índole.  
       





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