EM RE-VERSOS VERSOS DE MELANCOLOGIAS NOSTÁLGICAS - Manoel Ferreira
A sua missiva chegou, estando eu a almoçar – um de meus
pratos preferidos, mamão verde com costelinha de porco, sabe como aprecio estas
comidas típicas de nossa região – tanto você quanto os amigos íntimos chamam-me
a atenção devido ao colesterol, mas ignoro, não sacrifico os meus prazeres,
seja lá como Deus quiser; tem razão, não negligencio, contudo... - quanto às misturas sou eu quem sugere à cozinheira;
tomara um aperitivo, presente de um fazendeiro lá da beirada do rio das velhas,
Jataí, o estômago estava nas costas, fome não me faltava, no desjejum foram
apenas uma xícara de café e pão com manteiga, mas queria comer um pouco mais,
sentir as delícias particulares do aperitivo, os prazeres peculiares do prato
-, e foi bom tê-la lido depois, porque, se a leio antes, não acabava de
almoçar, o cachorro é que iria sentir os prazeres da comida, merecedor é, mas
os restos é que lhe cabem. Mesmo que eu tivesse dinheiro sobrando, não trataria
cachorro como gente, comprando-lhe comidas especiais em lojas especializadas,
cachorro é cachorro, gente é gente. Antigamente o cachorro era o grande amigo
do homem, na modernidade é paliativo da solidão humana.
Assim que a recebi da filha de sua governanta,
perguntando-me até a razão de me não haver telefonado, muito mais prático e
rápido, não lhe gastaria tempo para tomar da pena e escrever, com as
dificuldades de quem a este mister se entrega, mas compreendendo que guarda em
si tradições dos tempos de seus familiares, coloquei-a sobre a mesa da sala de
visitas, prometendo-me lê-la terminado o almoço, tenho aquele hábito de
re-fletir sobre as palavras escritas, o que mesmo no íntimo da pessoa passa
quando escreve, os seus sentimentos e emoções,
o que intenciona dizer em verdade, e isto me tira com extrema facilidade
da realidade das coisas e dos objetos, o tempo passaria, a comida esfriaria nas
panelas, e prato como este é delicioso se comido quente, fervendo, assim que
desligado o fogo já a colher está enfiando na panela, colocando-a no prato. Não
elucubrei qualquer assunto que merecesse missiva já que três dias antes nos encontramos
aqui mesmo em casa, e ficamos a conversar no alpendre, a noite estava com um
céu maravilhoso, coberto de estrelas, lua cheia, própria para duas pessoas tão
apaixonadas como somos nós.
Marieta, curiosa que é, perguntou-me a razão de não
haver aberto o envelope assim que o recebi; isto não é de meus costumes, é ter
envelope em mão, abro, saio lendo. De quem era a missiva? De alguma persona non
grata? Curiosa Marieta é, mas é de seus princípios não ler a subscrição, o
emissor. Disse-lhe ser sua - quem mais iria escrever-me missiva, morando na
mesma cidade, embora longe, você no alto do Hospital Santo Antônio, eu no
bairro Esperança, no mínimo é um bilhete, assim mesmo em ocasiões muito
especiais, na modernidade há o telefone, o celular, este não uso, detesto,
tenho a minha intimidade, preservo-a, respeito-a; mesmo em casa, não atendo
ligações, quem o faz é a Marieta, e atendo se me aprouver; no escritório, é a
Terezinha, secretária, nas mesmas circunstâncias - o que lhe causou espanto.
Quanta vez estive minutos a fio lendo uma missiva sua, às vezes até relendo
outras passadas, recordando de nossas situações. Expliquei-lhe a verdade. Iria
gastar tempo com a leitura já que tenho o costume de refletir sobre as
palavras, costelinha com mamão verde merecem ser comidos assim que saem do
fogo. Tão-somente isso. Não sei se a convenci, mas se deu por satisfeita.
Que história é essa, Camila, e quem lhe meteu isto na
cabeça? Não iria inventar um disparate desse naipe, sua imaginação é fértil,
ciúmes de mim não lhe faltam, mas o caráter sincero e honesto supera isto. Sabe
que estas criações e invenções só prejudicam a relação de um casal, dão tudo a
perder. Sempre há uma primeira vez, mas a conheço para saber não seria capaz,
tem pavor a sofrimentos e dores inúteis. Não sei mesmo quem lhe dissera, não
faço a mínima idéia, mas o propósito fora de atiçar os seus orgulhos,
provocar-lhe reações ad-versas, acabar com suas crenças e confianças de que sou
homem fiel e leal aos meus e aos seus sentimentos, aos de qualquer pessoa de
minhas relações. “Em verdade, soube de alguém que havia sabido de alguém”.
Querida, só por essas palavras sabe-se tratar de fofoca barata, o que até me
deixa estupidificado por você não ser de ouvir disses-que-me-disse. Ainda bem
que tomou da pena, escreveu-me a missiva, pedindo-me explicações devidas,
deixasse-a tranqüila, sincero e sério sou, o que lhe digo acredita piamente.
Desmentisse-lhe o sabido, era “um pedido muito carinhoso, de quem o ama acima
de todas as coisas desse mundo”.
Eu, namorado de Luzia? Eu, beijando-a no escuro do
cinema? Isto é caçoada de mau gosto,
Camila? Luzia, não sei mesmo o que acontece com ela, bonita, inteligente,
simpática, mas tem o péssimo hábito de dar de cima só de homens comprometidos,
namorados, noivos, casados, com o propósito mesmo de destruir as relações, e
destruídas cai fora como se nada houvesse acontecido. De qualquer modo que se
pensar, sente inveja, ciúme, conseqüências de suas carências. Não poderia ser
de outro modo a sua carência. Agindo deste modo, nunca vai encontrar alguém na
vida. Alguém sincero, honesto, queira se relacionar com dignidade, amar e ser
amado, na primeira oportunidade dela arrumará para a sua cabeça. É verdade que
algumas vezes tomamos cerveja juntos em mesas de restaurantes com seus amigos,
tem lá conversa agradável, mas daí sair com ela sozinho, não ousaria, sei que
daria para cima de mim com o propósito de nos prejudicar em nossas relações,
Camila. Nem diria que somos amigos, conhecemo-nos, conversamos, eis tudo entre
nós.
A última vez que fui ao cinema faz quatro anos, a
última película assistida por mim foi Morangos Silvestres, de Bergman. Depois
vieram as porcarias de filmes de ação. Você sabe disso, disse-lhe algumas vezes
um tanto melancólico e nostálgico por amar o cinema, assistir aos grandes
filmes, de Fassbinder, Antonioni, e de repente sou obrigado a não mais ir ao
cinema, por os tempos serem modernos, a violência no cardápio de todas as
realidades e níveis. Nem alugo filmes nas locadoras, a arte desapareceu das
prateleiras, quando vou à capital compro as obras que são de meus prazeres e
interesses contingentes e espirituais, você e eu assistimos no escuro de minha
sala de visitas, comendo pizza e tomando refrigerante.
Tudo bem que ontem foi apresentado em nosso cinema uma
das grandes obras da humanidade, tendo-a eu assistido várias vezes. Assim
caminha a humanidade, Gregory Peck, James Dean, traz-me lembranças muito queridas de um grande
amigo, quando viajamos do Rio de Janeiro à nossa cidade, ele mais que tenso por
medo de chegar e o filme já estar sendo exibido na televisão, recordações que
enternecem meu coração. Não fui ao cinema. Estava muito ocupado, Camila. Você
conhece e bem minhas neuroses de perfeição, tinha de terminar a planta da casa
de Manfredo. Pensei ir, tomei banho, passei perfume, produzi-me, no último
momento desisti. Tinha ainda três dias para entregar, não me levaria dia e
meio, mas não fui. Ainda que houvesse ido, sabendo que você estaria no
instituto aplicando exame para os alunos, iria sozinho, não convidaria ninguém
para me acompanhar, nem mesmo Amélia, nossa amiga, uma das mulheres mais
sinceras e honestas que conheço e conheci na vida, em termos de amizade.
Se alguém lhe dissera tal, teve intenção de magoá-la,
de envergonhar-me diante das pessoas, colocar em xeque minha dignidade, a minha
fama de homem radical em meus princípios. Há amigos íntimos que caçoam de mim,
dizendo que fidelidade e lealdade são do tempo da pedra lascada, e eu lhes
respondo que prefiro sê-lo a ver as pessoas ressentidas e magoadas, respeitar
os sentimentos das pessoas não é uma
virtude, é uma obrigação dos homens. Se você conhecesse Luíza de perto, não era
necessário este seu protesto. Aliás, não a conhece, tem sérios problemas
emocionais. Já lhe disse as boas qualidades dela, mas os seus defeitos são para
mim superiores às qualidades, você bem sabe como sou, para mim a menor nódoa
destrói a maior alvura.
Ah, Camila, a mulher que Ferluci pode me destinar para
ser infiel e desleal com você ainda não veio, não virá nunca, sou de família de
adúlteros, os irmãos todos divorciados, devido ao adultério, filhos, problemas
que não terminam, não sou desta família em termos algum. Sei que ainda não veio porque ainda não senti
dentro em mim dúvidas de meus sentimentos, aquele estremecimento simpático que
indica a desarmonia de duas almas, a desestrutura de duas psiques. Quando ela
vier, fique certa de que será a primeira a quem confiarei tudo, sabendo que
tudo entre nós acabará, seus sentimentos de amor se tornarão de mágoa, ressentimento,
tristeza, ódio por haver entre a mim o que de mais sensível e verdadeiro
habita-lhe a alma e o espírito. Amor verdadeiro e sincero não se encontra
dependurado em todas as árvores, espalhado pelos campos e colinas, é difícil
encontrar; quando se o encontra, é mister valorizar e dar graças a Deus por
existir, render-lhe tributos e graças pela existência. Na adolescência, trocava
de namoradas como se troca de vestes, todos os dias, deixei muitas ressentidas
comigo, mas eu tinha medo de amar, ser o outro de mim, até que alguém me
dissera, me não lembra se Marlene, uma de minhas amigas do colégio, se
Pedrinho, também colega de colégio, mas confidente meu, que pensasse nestas
atitudes, um dia poderia amar alguém e ela me trocar por outro, como iria me sentir?
Em verdade, vangloriava-me dos olhos azuis, estatura um pouco acima da média,
rosto angelical, inteligência, cultura, atributos que normalmente as mulheres
adoram e gostam de desfilar por todas as ruas e recantos da cidade, sentirem-se
poderosas, causarem inveja nas amigas. Nunca mais cometi esta arbitrariedade.
Já sou um quarentão, ainda solteiro, sei de minha sensibilidade, o quanto sou
capaz de amar, e só encontrei você que também conhece o seu amor, entrega-mo a
mim com sinceridade. É um tesouro que recebi das mãos divinas.
Deus que me fez assim, contrário a todas as canalhices
e safadices de minha família, e me deu esta percepção íntima para conhecer e
amar a superioridade, mostrou-me o caminho de você para re-velar a dignidade de
mim, ser quem sou, o “verbo amar” por
que fui concebido por Ele só com você seria real, verdadeiro, absoluto, não
será com uma mulher como Luíza, linda, inteligente. Ferluci tem seus truques e
tramóias, mas insuficientes para me instigar a trocar as mãos pelos pés, não será
com mulher burra e feia também.
Desde que senti a oportunidade em mim de ser quem sou
nos interstícios de mim, nas pré-fundas da alma e espírito, percebi que se
houvesse qualquer deslize de minha parte, outra não mais teria, minha vida
acabaria, viveria pelas sarjetas do mundo, tive oportunidade e joguei fora,
como é comum à maioria dos homens, prometi a Deus que não o desapontaria, o meu
ofício seria amar e desejar, viver e realizar meus sonhos mais profundos.
Dir-me-á, Camila, que, se assim sou tão fatalista,
dizendo ser você quem saberia de minhas canalhices e safadices em primeira
instância, sabendo irei perder tudo o que poderia ser maravilhoso, esplendido e
belo, devo admitir a possibilidade de uma mulher sem todas as condições que
exijo, para haverem equilíbrio, harmonia, as duas faces da moeda. A minha
moeda, meu querido e inestimável amor, tem duas faces: a da contingência,
sujeita a todas as situações e circunstâncias humanas, a cara, a da
transcendência, a coroa, a que eu desejo através de meus sentimentos, em tensão
e harmonia, atingir e realizar com engenhosidade e arrebiques.
Equívoco. Ledo engano, minha querida.
Contingência e transcendência são as minhas verdades,
vividas e vivenciadas de verdade em todos os instantes de minha estada neste
mundo.
Agora que me expliquei em todos os níveis de que tenho
consciência, deixe-me ralhar-lhe poucochito. Por que motivo deu tão facilmente
ouvidos a uma calúnia deste naipe contra mim? Você que já me conhece há seis anos, tem tanto
orgulho de dizer que é feliz ao meu lado, sente-se a mulher mais privilegiada
do mundo por ser tão amada e querida, deveria ser a primeira a pôr de
quarentena esses ditos sem senso comum. Por que o não fez, desde que soube? Em
verdade, fê-lo com dignidade e honra, escrevendo-me a missiva, pedindo as
devidas explicações, o que agradeço e muito, mostrando isto que só eu posso
responder por minhas atitudes e ações, quem melhor que eu para me conhecer,
quem melhor que eu para saber o que faço e deixei de fazer, mas não era preciso
qualquer missiva, nem mesmo qualquer comentário verbal – repito, sinto-me
orgulhoso por me escrever, agradeço-lhe cordialmente a atitude, e compreendo se
sentiu insegura, era mister recuperar a segurança que sempre sentiu ao meu
lado. Gastou você duas páginas para expressar as mariquinhas das pessoas. Não a
acuso; deploro-a de cabo a rabo. Pode ser que algum dia venha a saber de modo
real e verdadeiro de uma trapaça da namorada ou namorado, marido ou mulher,
noivo ou noiva, sabendo o que é isto de calúnias e hipocrisias, sentirá na pele
os resultados. Digo-lhe, e jamais vai confirmar, mas isto é mais próprio de
homens do que propriamente de mulheres, os homens adoram fofocas de casais
Sou um homem solteiro, cheio de caraminholas, sonhos,
ambições e poesia; você é uma mulher sensível, vaidosa, inteligente, culta,
namorada tranqüila e feliz, em breve estará casada, será mãe de família.
A cidade está hoje muito alegre; na praça principal
houve pela manhã uma apresentação de Seresta pelos músicos, aniversário de
nascimento do fundador do Grupo de Seresta. Naturalmente, sairemos hoje, à
noite, não leciona; não tem saudades do centro da cidade?
Até mais tarde, querida. Apanho-lhe em casa às oito
horas para mais uma apresentação da banda de Seresta, e depois podemos jantar
na Casa Grande, sei que adora churrasco de picanha bem gordurosa.
Lembranças aos seus.
Henrique
Fortunato.

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