ENTRE-VISTA COM ANTÔNIO NILZO DUARTE - Manoel Ferreira
A. N.
D. – O que é isto, Manoel – ser escritor nato?
M. F. – Nilzo, para mim é motivo de orgulho e
alegria responder a esta pergunta sua, neste aniversário de segundo ano de
Razão In-versa. Imaginei mesmo seria esta a sua pergunta. Lembra-me no sábado,
26 de janeiro de 2007, dia após haver-lhe doado com uma dedicatória minha
novela Ópera do silêncio, nosso encontro na calçada do Supermercado Paizão,
quando lhe perguntei sobre os dois livros de sua autoria que me havia
prometido, dizendo você: “Não é a mesma coisa do seu, Manoel. São obras
simples, minhas memórias”, respondendo-lhe isto não ser importante, o
importante eram as obras. Fosse a sua casa na segunda-feira apanhar as obras.
Neste primeiro encontro nosso em sua casa, doando-me as obras, referiu-se ao
escritor nato, nestes três anos e meio de nossas relações, você sempre se
refere ao escritor nato que sou. Não podia ser outra a pergunta.
No início de
novembro de 2003, num encontro meu com Ângelo Antônio, no restaurante Habeas
Copus, ele me fizera a seguinte pergunta: “Manoel, o que é isto ser escritor?”,
do jeito dele, direto, inesperadamente. Naquele ano, havia acabado de publicar
minha dissertação em Sartre, estava em Curvelo para ver as possibilidades de
lançamento, o vereador Pimenta é que tornou isto possível, na segunda quinzena
deste mesmo mês, dia 19, lancei-a no Curvelo Clube, no lançamento esteve
presente meu grande amigo Daltinho Canabrava, também representando Maurílio
Guimarães que não pôde estar presente. Senti-me orgulhoso com a presença de
Daltinho, foram eles os primeiros políticos que me valorizaram, acreditam em
mim, depois de Pimenta que tornou possível o lançamento. Olhei-o
estupefato, dei um trago no cigarro, engasguei com a fumaça, não esperava uma
pergunta nesse nível. Em contrapartida: “E o que é ser ator, Ângelo Antônio?”.
Rimos. Respondemos quase ao mesmo tempo: “Quem é que sabe?”. De imediato, ele
me dissera algo que já havia dito várias vezes, mas na ocasião era um conselho
de grande amigo: “Manoel, fama, sucesso são muito fáceis. De um dia para outro,
você pode se tornar famoso. Conservar a fama é que são elas. Conserva-se a fama
só com obras”. Ele sentiu que havia eu começado mesmo a minha carreira,
chegaria o momento em que seria reconhecido, considerado. Em momentos de
desconcentração, respondemos isto e aquilo sobre o que é ser isto ou aquilo,
mas na hora de definir a critério e rigor, torna-se difícil, muito difícil.
Então, quando se diz respeito a definir o que é ser escritor, ator, artista,
não há palavras que possam, o nó górdio na garganta se instala de vez.
Não sei, meu querido, se serei capaz de satisfazer a
sua curiosidade de saber isto de mim. E se fosse eu a lhe perguntar o que é ser
um escritor-memorialista, você saberia me responder? Sentiria dificuldades.
Contudo, nunca fujo da raia quando se trata de desejos e curiosidades de meus
leitores, a vocês todos sou muito grato pela cadeira no Olimpo que me deram
para sentar nela – você sorri, mas é verdade -, são vocês que fizeram, fazem a
minha carreira.
Seria fácil dizer: “Ser escritor nato é nascer com o
dom de escrever”. Para fundamentar, dizer-lhe que, além disso, sou neto de
artistas circenses, a arte corre no meu sangue. Nascer com dom, haver herdado de meus avós a arte, quase nada
significa. É necessário entregar-se por inteiro ao sonho da arte, amá-la, estar
disposto a morrer por ela, realizar a vida com ela. Ser escritor depende de
muitas leituras, sensibilidade, conhecimentos, observações da realidade, ter
conhecimentos, experiências, vivências, “sofrer, sofrer, sofrer”, como disse um
de meus mestres, Dostoiévski, quando um jovem lhe perguntara o que era preciso
para ser escritor. Depende do tempo
histórico, de suas aberturas, de suas possibilidades. Há alguns escritores de
grande potencial que estão esquecidos, pois que o tempo histórico não lhes
abriram as portas e janelas.
Hoje, já mais experiente, estando a realizar o que
sempre sonhei, tenho com certeza um modo de dizer sobre isto de ser escritor
nato. Sê-lo é ter uma missão no mundo, uma missão que Deus me incumbira de
realizar em Seu nome. Ter uma missão no mundo significa realizar algo para os
homens, a humanidade, algo que lhes sirva por todos os séculos, milênios. Eu
penso e sinto que a minha missão é mostrar através de minhas obras que existem
outros horizontes, universos da vida, a felicidade é possível, o amor é
possível, a fé é necessária, a esperança é necessária, os homens podem
encontrar a si mesmos no mundo, os problemas podem ser superados; estamos
vivendo num mundo muito errado, corrupções de toda ordem, violência sem
limites, o poder está ditando tudo, os bens materiais são os mais importantes,
os valores e virtudes que elevam a vida foram esquecidos em detrimento dos
valores materiais, do dinheiro, mas isto pode muito bem ser superado. A missão
do escritor nato é justamente esta: levar aos homens a esperança e a fé de outra
realidade que não esta que estamos todos vivendo em nossa modernidade. Em
verdade, a obra que responde por este sentimento, pensamento que fui
descobrindo ao longo de minha vida, é SENDEIRO DA LUZ ETERNA, que está
publicada em Razão In-versa, em dezembro de 2008. Não a escrevi com o propósito
de esclarecer este sentimento e pensamento, escrevi para sentir de perto a vida
e o sonho que em mim trago dentro. Consciente disso, é que a minha carreira foi
se desenvolvendo. Você sabe que tive já sete enfartos, cinco anginas. Algumas
pessoas brincam comigo, dizendo que sou um gato, gato é que tem sete vidas. Em
verdade, não morri num destes enfartos porque a minha missão de escritor não
foi ainda realizada, quando o for, será a minha hora. Creio até que tantos enfartos
e anginas foram para eu ter consciência de minha missão no mundo como escritor.
Imagine isto: em nossa modernidade, a maior dificuldade
que um escritor inédito encontra em sua vida é ser aceite por uma editora. O
métier editorial hoje é uma coisa de louco. Ninguém dá oportunidade ao escritor
inédito, não se tem garantia de lucros, são os lucros que importam. E mesmo que
se consiga, com apadrinhamentos, o escritor só recebe, nalgumas editoras, só
dez por cento do preço de capa, noutras, apenas sete, o restante são dos
editores. Há centenas de porcarias nas livrarias, livros inúteis, nada há neles
que indique serem obras literárias, mas vendem a rodo. Então, os tais de best-sellers
são publicados quase todos os dias, os lucros são imensos. Em meus termos,
então, seria muito difícil conseguir editoras, pois que minha obra é clássica,
erudita, uma obra de cunho filosófico, ninguém iria dar-me oportunidade. Publiquei uma antologia de contos em 1979, só
voltei a publicar em 2000. Enviei algumas obras a editoras, quando não
responderam coisa alguma, enviaram-me de volta, dizendo não estavam
interessados.
Tive uma oportunidade de publicar meus textos em
jornais, deram-me uma chance de ser conhecido, mas não fariam a minha carreira
de modo algum, quase me intimaram a mudar de estilo e linguagem, escrevesse
porcarias, idiotices, recusei-me a isto, fora ter de rogar, implorar, ajoelhar
diante dos diretores para publicarem
meus textos. Foram os diretores de jornais um dos responsáveis por criarem o
mito de minha obra ser inacessível, difícil de compreensão. Minha carreira
comecei no ano de 1979, trinta e um anos de estrada, só há dez anos estou
conseguindo aos poucos, lentamente, realizar o que sempre sonhei, muitas
dificuldades.
Na época de minha novela Ópera do Silêncio, saía de
casa às sete e meia, oito horas, andava em Curvelo por todos os lados, tive
bolhas dágua nos pés de tanto andar oferecendo meu livro. Fui considerado na
época o escritor que mais vendeu livros nos últimos tempos. Aí é que consegui
divulgar a obra, divulgar-me, ser conhecido. Isto de andar vendendo minhas
obras foi uma influência do filósofo Sartre, ele, com sessenta e tantos anos,
não mais precisava disto, era famoso no mundo inteiro, saía pelas ruas de Paris
vendendo de mão em mão o seu jornal Causa do Povo. Faria eu o mesmo. Quando
lancei a dissertação, três anos depois, andava em Diamantina por todos os lados,
subindo e descendo verdadeiras ladeiras. Agora, nestes dois anos de Razão
In-versa, venho a Curvelo todos os meses para divulgar as novas edições, tenho
meus leitores já assíduos, é só entregar a edição. Mas ando por todos os
lugares, oferecendo a esta ou aquela pessoa.
Se eu não tivesse tido a inspiração do
suplemento-literário, você acha que teria o reconhecimento que tenho hoje em
nossa comunidade? Não. As publicações nos jornais não me dariam este
reconhecimento. Hoje, digo-lhe mesmo não me importo mais com isto de editora,
de livros. Não é do seu conhecimento, mas o filósofo, o único caso que conheço,
jamais pôs os pés em editoras, não teve editores, ele próprio publicava suas
obras com o dinheiro que recebia como professor de universidade. Foi um
filósofo realmente livre. Suas obras são imortais, universais. Hoje, as
editoras mundiais ganham fortunas com suas obras. Ele é que me inspirou neste
sentido de lutar eu próprio pela minha carreira.
Com Razão In-versa, estou conhecendo de perto o que é
isto estar contribuindo com a minha obra para a nossa cultura, artes. Os
leitores me apóiam mesmo. Não compram uma ou outra, todos têm as trinta e uma
edições. Ninguém compraria trinta e uma edição para colocar na estante da sala
de visita como ornamento, arrebique, para impressionar as visitas. Todos eles
lêem as obras. E todos me elogiam, reconhecem a importância de minha obra. No
início tive patrocinadores. O vereador José Rafael todos os meses patrocina-me
cinco cópias. No início, João Alves da Fonseca Filho, Maurílio Soares
Guimarães, Daltinho Canabrava disseram-me mesmo: “Não vamos apoiar você como
políticos que somos, vamos apoiar como nosso amigo, como um grande escritor que
é, ser um orgulho para nós os curvelanos termos um escritor como você”. João
sempre que entramos no assunto de cultura, ele diz: “É preciso que os políticos
dêem uma chance à arte, os políticos vão, a arte, a cultura ficam”. Eu penso
comigo mesmo: “È preciso ser responsável com a cultura, eu vou, a minha obra
pode não ficar”.
A sua pergunta, Nilzo, é muito oportuna nesta
conjuntura de nossa atualidade. A definição mesma, real, de escritor, o que ser
escritor foi sendo perdida, para mim, nos últimos cinqüenta anos. É mister hoje
tentar resgatar, recuperar o sentido, o significado, o “ser” do escritor.
Publica-se um livro, sai-se arrotando importâncias, dizendo ser escritor. Ser
escritor não é escrever livros. Sê-lo vai muito além disso. Está cheio disto
aí, pessoas dizendo serem escritores por haverem publicado livros. Há um
critério a ser analisado nas obras para serem literárias, para dizer se o autor
é mesmo escritor, se apenas escreveu um livro. Isto deixou de ser analisado. Nos
pequenos ensaios que escrevi sobre quem penso ser realmente escritores, Paulo
César Carneiro Lopes, Marcos Antônio Alvarenga, você mesmo, Antônio Nilzo
Duarte, deixei bem claro o “ser” de vocês como escritores. Responda-me
sinceramente: José Sarney por acaso é escritor? Não é. No entanto, está lá
sentado na Academia Brasileira de Letras. Não sei se você sabe, mas Martinho da
Vila está sendo indicado para a Academia Brasileira de Letras – merecido, suas
líricas são verdadeiramente poéticas, têm valores mesmo, mas, neste sentido,
por que Chico Buarque de Holanda não é membro, por que Caetano Veloso não é
membro? Ali, a política corre solta. Maitê Proença por acaso é escritora? Ela é
atriz. Na mídia é considerada atriz e escritora. Paulo Coelho é escritor? Não,
é um imbecilóide.
Apesar de já haver sofrido transformações, você sabe
que os curvelanos não são de ler, não se dá valor à cultura. Pergunte para se
certificar de minha afirmação a alguém o que é ser escritor, ninguém vai ser
capaz de responder a isto. Isto de o sentido, o significado, o “ser” do
escritor nos últimos cinqüenta anos estar sendo perdido, abriu margem aos
despautérios que estão acontecendo em nossa comunidade. Refiro-me à Academia
Curvelana de Letras. Imortal quem não é escritor, isto é absurdo, despautério
sem limites. Escritor quem escreveu livro(s) para satisfazer suas vaidades,
isto é hipocrisia. Por que isto foi sendo possível ao longo de vinte e dois
anos? Por que o curvelano não tem noção do que é isto ser escritor, por não dar
valor à cultura, às artes. Numa conversa com Dr. Oídes Rodrigues da Silva
Júnior dissera-me algo bem relevante: “isto é falta de cultura”. Se os
curvelanos dessem valor à cultura, às artes, estas ervas daninhas não teriam
nascido, não teriam espalhado pelos terrenos baldios da cultura. Não teriam
permitido que estes homens estivessem numa academia. Aliás, quando o secretário
de cultura recusou a doação de minha obra, na conversa disse-lhe que escrever
um livro não é ser escritor, isto porque me citou nomes de quem havia
publicado. Perguntou-me: “Mas em Curvelo existe este escritor que você está
dizendo?”. Dei-lhe quatro nomes, incluso o meu, e nenhum de nós é membro de
academia. As razões deles não importa dizê-las. A minha é esta, sou radicalmente
contra este acinte à nossa cultura. Agora, tornou-se extremamente complicado
capinar estas ervas daninhas, limpar o terreno baldio. É possível sim acabar
com esta sem-vergonhice, é preciso muita luta. De minha parte, estou com os pés
no chão, rasgo os verbos, denuncio mesmo, mostro o lugar deles não é em
academia, encontrem o que lhes cabe. Estão montados na imortalidade de Lúcio
Cardoso, citam o nome dele a todo momento. Onde estão os estudos, análises,
interpretações de suas idéias, pensamento, de sua importância em nossa cultura.
Isto é obrigação de uma academia, membros divulgarem através de trabalhos
percucientes as obras dos imortais. Suplemento-literário é também
responsabilidade de uma Academia. D. Ernestina em Cordisburgo publica textos de
escritores no jornal E agora? Divulga de modo sério e real. Na Academia de
Cordisburgo, há grandes trabalhos sobre Guimarães Rosa escritos por seus
membros. Os membros da academia curvelana não têm condições, não têm cultura
para isto, não têm sensibilidade artística, intelectual para escreverem sobre o
pensamento de Lúcio Cardoso. Ali, a politicagem, politiquice, politiqueiros,
politiquentos imperam em todas as escalas. Quando escrevem sobre alguém, é puro
ufanismo, endeusar a obra, vangloriar o autor, satisfazer suas vaidades, puxar saco mesmo, amizade apenas,
subjetivismo deslavado. A Academia Curvelana de Letras nada é para nossa
cultura, nossas artes. Os escritores natos mesmo estão de fora. Sabem o que é
isto ser escritor, sabem a responsabilidade de um escritor. Sinto-me realmente
orgulhoso deles. Não são imortais, imortalidade é para quem é membro de
academia. Mas são eternos, a eternidade é para os escritores natos, que é muito
mais importante.
Creio, Nilzo, que, com estas palavras, tenha respondido
um pouco a sua pergunta. Gostaria aqui cordial e espiritualmente os seus
apoios, reconhecimentos, considerações, sua amizade, carinho e amor que sempre
me dedicou nas nossas relações, nestes dois de Razão. Digo-lhe, terminando:
minha vida mesma é esta entrega absoluta à busca de contribuir com a nossa
cultura e artes curvelanas. É a minha missão como escritor nato. Obrigado por
tudo.

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