ENTRE-VISTA COM ROBERTO FIGUEIREDO DOS SANTOS - Manoel Ferreira
R. F. S – Quando você iniciou suas
obras literárias?
M. F. – Tudo bem, Robertinho? Para mim, é motivo de
muito orgulho estar sendo entrevistado por você por ocasião do segundo
aniversário de nosso suplemento-caderno literário-filosófico Razão In-versa;
você quem sempre nos incentivou, reconheceu, e está sempre de mãos dadas
conosco deste o início, quando ainda era um sonho este projeto. Sua pergunta
parece muito simples, parece, mas no fundo envolve toda uma história. Aos
quatro anos e meio já sabia ler e escrever, mãe-Dinha me ensinou, a meu pedido
aos três anos e oito meses. O primeiro livro por mim lido foi O alienista, Machado
de Assis, adquirido na livraria A Gurya, Diamantina, 1960. Aos cinco anos e
meio, numa viagem ao Vale do Jequitinhonha, Lavrinhas, em vinte e cinco dias
escrevi um diário de viagem, quatro cadernos de cinqüenta folhas. Não digo que
este diário tenha sido obra literária, mas foi o início de minha carreira de
escritor; antes mesmo de saber ler, se me perguntavam o que queria ser,
respondia “quero ser escritor”. Estes cadernos foram mostrados por minhas mães,
Dinha, Laurentina, Amélia, Maria, vovó Alzira a todos que iam à minha casa,
freguesas de Laurentina, amigos, parentes. As pessoas dizia ser eu muito
precoce, escrevia bem, mas não acentuava
as palavras. Ressenti. Rasguei e queimei os cadernos. Continuei escrevendo, mas
escondido. Lia sempre, comia livros de Cecília Meirelles, Olavo Bilac, José de
Alencar, a minha paixão era Machado de Assis. Meus escritos eram guardados em
caixa de sapato. Com a minha mudança para a casa de minha mãe biológica, meus
livros foram jogados fora, juntamente com os meus escritos. Fui proibido de ler
outros livros, só os que a professora mandava, também escrever, se
desobedecesse, apanharia. Três anos sem escrever única palavra de minha
autoria. Três anos só lendo porcarias, livros infantis, sempre odiei tais
livros. Voltei para casa em 1967. Readquiri os livros que foram jogados fora,
voltei a escrever, mostrava às minhas mães, lia para elas, gostavam,
incentivavam. Houve uma empregada lá em casa, jovem, quem roubou uns cinco
livros meus, juntamente com a caixinha. Quatro livros de Machado de Assis, um
de Érico Veríssimo, Ana Terra. Laurentina conseguiu resgatá-los, ameaçou a
empregada de chamar a polícia, a caixa com meus escritos não. Quando não estava
estudando, fazendo deveres de casa, ouvia músicas e escrevia. Até hoje faço
isto, só escrevo ouvindo músicas. Escrevi várias coisas. Não me lembra o nome
da professora de Língua Portuguesa e Literatura, professora da Escola Normal,
para quem mostrei os meus escritos, entreguei-lhe em mão todos, dissera serem
verdadeiras porcarias, estava preenchendo páginas com “merdas”, não tinham
valor literário algum. Joguei fora.
Ano depois, a minha querida professora de Literatura,
Vilma Simões, casada com meu primo de segundo grau, Rodolfo Simões, pediu-nos
aos alunos escrevêssemos uma redação. Escrevi. Quando apresentou o resultado,
valia nota, perguntou se fora eu mesmo quem escreveu, e o meu amigo Orlando
Martins do Rego respondeu que eu escrevia daquele jeito mesmo. Uma das melhores
redações da classe. Foi a única professora que me ensinou Literatura, a única
que me incentivou, a única que realmente conhecia e sabia, refiro-me não só aos
curso científico, contabilidade, também na faculdade. Na faculdade, o único
professor que me incentivou foi mestre Jaime França, curvelano, professor de
Literatura, Redação, Língua Portuguesa, Teoria da Literatura, Filologia. A vida
literária propriamente dita começou na universidade. Primeiro dia do curso de
Letras, na Universidade Católica de Minas Gerais, 13 de fevereiro de 1978. Na
hora do intervalo, entre as duas primeiras e duas últimas aulas, fui à
Biblioteca para pesquisar livros de Sartre, queria conhecer a sua obra; à porta
da biblioteca conheci Paulo Ursine Krettli, poeta. Estava no segundo período de
Letras. Tornamo-nos amigos. Sempre conversávamos sobre Literatura, nossos
sonhos de escritor, poeta. Líamos um para o outro nossas obras. Em 1979,
chegando a Belo Horizonte de férias de meio ano, liguei e pedi ao Paulo Ursine
Krettli que nos encontrássemos numa galeria ao lado da Ouvidor, um botequim, lá
conversaríamos sobre publicarmos um livro em parceria. Em 1975, tendo ido a Belo Horizonte para
fazer um curso de Inglês, adquiri A náusea, na Galeria do Ouvidor.
Apaixonei-me. Num botequim, botequim do Hélio, como chamávamos por causa do nome do garçom, na rua dos
Tamoios, frente ao Cine Tamoios, às seis horas da tarde, encontra-me com dois
amigos, Chicão, professor de Língua Portuguesa e Literatura, Zeca, José Carlos,
curvelano, quem dizia ser Curvelo a merda do mundo, estudante de Economia, não
me lembra o nome da cidade em que fazia o curso, sei que tinha de ir todos os dias.
Neste botequim, líamos Hermann Hesse,
Dostoiévski, Dante, Fernando Pessoa, poema dele nosso preferido A Tabacaria,
contos de Luiz Vilela. Certa vez, Chicão desafiou-me a escrever um conto,
inspirado em Domingo, de Luiz Vilela, dera-me o título Pai é mesmo uma coisa
engraçada. Comecei neste botequim. Todos foram embora. Troquei de botequim. Fui
para outro na mesma rua, rua dos Tamoios, esquina de avenida Paraná. Lá
escrevi. Todos gostaram muito. Novo desafio. Escrever outro inspirado também em
Vilela, O buraco, que dera eu o título Caso do Vaso Sanitário, estava estudando
Carlos Drummond de Andrade na faculdade. Escrevi outros três, Caso do Viaduto,
Antigamente não existia metralhadora, hoje existe!... Paulo Ursine apreciara
todos. Conversamos. Publicaríamos, a edição seria dividida pela metade, metade
minha, metade dele. Professor Onofre de Freitas, de Literatura Portuguesa,
fizera o prefácio. 12 de setembro de 1979, no auditório da Escola de Filosofia
lançamos a obra. Os contos de Paulo Ursine foram elogiados pelos professores.
Um deles, Diante do túmulo de homem chamado P.P. Brasil – que fora escrito por
mim, dei-lhe de presente; fez várias modificações nele, publicou como sendo
dele, uma atitude de não da parte dele, que nunca fui capaz de perdoar-lhe,
sendo a causa de nosso afastamento dois anos depois – foi estudado por um dos
professores de Literatura. Meus contos foram criticados por causa da linguagem
popular, como podia alguém ter coragem de publicar tantas porcarias; este mesma
crítica recebi dos professores de Literatura de Curvelo. Continuei escrevendo
algumas coisas, contos, publiquei em jornal alguns textos, poucos. Por vinte e
um sem publicar, mas nunca deixei de escrever, romances, novelas. Em 2000,
consegui publicar a novela Ópera do Silêncio, pela Editora Armazém de Idéias,
de André Carvalho. Alcei vôos. Indo a Diamantina, março de 2001. para uma
palestra no Seminário a convite de Pe. Renato Diniz Magalhães Filho, na época
ainda estudante de teologia, conheci Marize, com quem me casei, a carreira de
escritor se solidificou. Em princípio, no ano de 2001, fiz traduções de Inglês
para estudantes de Odontologia, em todas as áreas dela, para o curso normal,
especializações, mestrado. Em 2002, tive na Rádio Comunitário um programa de
dez minutos, patrocinado pelo amigo Juscelino Brasiliano Roque, presidente da
Associação Comercial e Industrial de Diamantina, lia os meus textos, o programa
se chamava Páginas de um sonho. Depois escrevi uma peça teatral com Rodrigo
Dias, Pedaços de mim, encenada em Diamantina três vezes – foi também encenada
aqui em Curvelo em 2006, no Sindicato dos Trabalhadores. Fiz cinema,
curta-metragem, inspirado em Dom Casmurro de Machado de Assis, fui narrador. Em
2003, fui convidado pelo saudoso amigo Toninho Fernandes, Wander da Conceição,
para ser o orador da publicação do livro La Mezza Notte, sobre a Vesperata, que
aconteceu aos 25 de janeiro. Escrevi para o discurso de abertura do evento de
publicação Caminho de luz nas trevas, enviado para a UNESCO pela Associação
Comercial e Industrial de Diamantina. Neste mesmo ano, patrocinado pelos
empresários de Diamantina, publiquei minha dissertação Alteridade do Outro em
Sartre. Em Curvelo, a partir de 2004, comecei a publicar meus textos nos
jornais E agora?, Centro de Minas. Nunca
estive satisfeito com a imprensa escrita curvelana, mas não tinha outro modo de
publicar meus textos, tinha de aceitar os ridículos da imprensa. Imprensa
escrita, deixo claro. A televisão, a rádio sempre me apoiaram, tenho muito a
lhes agradecer. Conheci Antônio Nilzo Duarte, quem modificou radicalmente os
meus caminhos com os seus reconhecimentos, considerações, incentivos. Escrevi
dois romances inspirado em suas duas obras primeiras memorialísticas, história
de um Jornalista, seu jornalzinho se intitulava Razão In-versa. Daí veio o nome
de meu Suplemento. Publiquei três edições dele no jornal E agora? Em agosto,
rompi com o diretor. Segui sozinho. Dois anos de publicações, trinta e uma
edição. Apoio ilimitado da elite cultural curvelana, meus leitores são
advogados, delegados, contabilistas, vereadores, prefeito, vice-prefeito,
secretários de cultura.
Em resumo, Robertinho, eis como se processou a minha
carreira. Hoje, sinto que estou realizando com distinção a minha carreira. Você
sabe que carreira de artista nunca foi fácil, não só aqui e agora em nossa
modernidade, mas durante toda a história da humanidade e das artes. Só tenho a
agradecer aos amigos e leitores o sucesso de Razão In-versa.
R. F. S. - Você
sempre trilhou este gênero literário?
M. F. – Se estou entendendo bem o nível de sua
pergunta, creio que se refere à Literatura Filosófica. Depois que conheci a
obra de Dostoiévski, Memórias do subterrâneo, 1972, também adquirido na Galeria
do Ouvidor, Sartre, A náusea, apaixonei-me pela filosofia. Para mim, literatura
sem filosofia não existe. Cursei também na universidade Filosofia. Depois do
meu encontro com Paulo César, através de sua novelinha Sonho do verbo amar,
para quem também a literatura exige conhecimento de filosofia. Ele sempre me
incentivou. Dizia ser seguidor de Sartre, existencialista. Paulo Cesar disse-me
certa vez: “Quando você deixar de querer seguir Sartre, será um grande
escritor”. Sempre ouvi Paulo César. Não foi fácil desvencilhar-me do pensamento
de Sartre, exerceu muita influência nas minhas idéias, no meu pensamento.
Passei a ler as obras de outros filósofos, outros escritores, assumi a grande
influência de minha vida não foi Sartre, Dostoiévski, mas Machado de Assis; aos
três considero meus mestres. Apesar de todas as influências sofridas, nada
existe sem influências, especialmente nas artes, posso dizer que sou eu mesmo,
tenho estilo e linguagem próprios. Penso que o sucesso de Razão In-versa está
enraizado na literatura filosófica. Curvelo não conhecia a literatura filosófica,
nos meus termos, com a minha linguagem e estilo, pois que Crônica da casa
assassinada, Lúcio Cardoso, é essencialmente filosófica, senão Paulo César
não há ninguém em Curvelo que a leu ou
lê nesta dimensão. Razão In-versa é um suplemento literário-filosófico.
Sustentados nisto é que alguns cretinos para me prejudicar inventaram um mito
de minha obra ser difícil de leitura, entendimento, requer muitos conhecimentos
a priori. Isso exerceu influência nas considerações e reconhecimentos dos
curvelanos. Mas Razão In-versa destruiu este mito. Tive oportunidade de
perguntar alguns leitores sobre esta dificuldade de leitura de minha obra, e
todos em uníssono disseram que não é obra fácil a minha, mas não têm
dificuldade de entendimento, de compreensão. Olha só, Robertinho, só a elite
cultural e intelectual adquire minhas obras. O mais inusitado de tudo, são
advogados, delegados, empresários, políticos; não é comum esta elite gostar de
literatura, especialmente delegado, não por não terem sensibilidade para este
nível de leitura, é que seus interesses são bem outros, primam pela
objetividade. Literatura e filosofia é subjetividade. Tudo que é inédito sofre
dificuldades para se pro-jetar. Com relação a mim, tudo é inédito: nunca houve
suplemento literário em Curvelo, nunca se viu um escritor escrevendo pelos
botequins da cidade, nunca se viu escritor andando o dia inteiro vendendo suas
obras. Criaram mitos mesmo para não deixarem que eu me projetasse. Água mole em
pedra dura tanto bate até que fura. A minha água literária-filosófica,
juntamente com as minhas lutas, persistências, garra, conseguiram furar a pedra
dos preconceitos e discriminações, a pedra da hipocrisia cultural que reina em
Curvelo, membros de academia sem obras, não escrevem nem bilhetes em mesa de
botequim, “oportunistas da imortalidade”. Mas depois de minhas várias críticas,
com textos realmente pesados, Covil de gênios, O anticristo, e outros, não há
quem não olhe para a nossa academia com olhos de desdém. Depois destes textos,
a academia jamais será vista com bons olhos, por isto querem ver o capeta menos
a mim, sou-lhes uma pedra no sapato, os oportunistas da imortalidade
considerados como escritores, responsáveis pela nossa cultura, nossa arte. Que
hipocrisia! Alguém tinha de ter peito e coragem para rasgar os verbos,
encontraram-me pela frente, eu nada temo, não tenho medo de coisa alguma.
Aliás, algumas pessoas já me disseram que estou precisando de andar com um
batedor na frente e dois guarda-costas de lado, as minhas críticas estão deixando
muita gente insatisfeita. Respondi: “se me matarem, a obra está aí! Não vai
adiantar este extremo!”. E você sabe bem, Robertinho, é leitor de minha obra,
tem todas as edições de Razão In-versa, minha novela, publicações em jornais,
sou crítico sem piedade, sem dó, comigo não sobre pedra sobre pedra. Há textos
meus verdadeiramente satíricos. Até Paulo César, diante de Razão In-versa,
também porque a todo momento mudo de nome literário, dissera-me que muitos de
meus textos no futuro serão objetos de desconfiança, pois que ampliei, diversifiquei, sátira, exemplo disso
“Bons dias”, poemas, contos satíricos, crônicas, etc., etc. A filosofia está
sempre presente, estará sempre. Isto foi o que me projetou nas letras. Com esta
literatura-filosófica estou assistindo a minha imortalidade em vida. Com Razão
In-versa sou hoje história em Curvelo – uma lágrima furtiva ameaçou descer-me
na face; muitas lutas, muitos esforços, persistência, insistência em toda a
minha vida, mas estou conseguindo vencer – meu nome jamais será esquecido na
história de nossas artes e cultura. Por sempre, meus interesses serão
engrandecer a nossa cultura e as artes. Por sempre serei um crítico ferrenho da
hipocrisia que está reinando em nossa modernidade, atualidade.
R. F. S. – De
onde vem as inspirações? Do quotidiano observado ou da ficção?
M. F. – Com esta, Robertinho, você me pegou pelo
suspensório. Vou tentar responder-lhe. Não é fácil. Em primeira instância, há
quem pense que a inspiração desce, nalguns momentos. Isto é mito. Não há
artista, em qualquer dimensão das artes, que espere a inspiração descer, o
espírito-santo das artes, para criar suas obras. Isto não existe. O artista
está sempre inspirado, a inspiração habita-lhe as pré-fundas da alma e do
espírito, sem esta inspiração contínua, presente e forte a todo momento, não
existiriam artistas. Há momentos que ela
se re-vela mais forte, quando se escreve um texto, digamos, melhor, mais
profundo. Eu não acredito mesmo naquilo que dizem a inspiração ser mínima, o
que há mesmo é transpiração. Isso é ridículo, imbecil mesmo. Artista mesmo é
puramente inspiração. Em segunda instância, estar inspirado é estar vivendo,
estar pensando sobre as coisas do mundo, estar questionando, estar observando a
vida, o quotidiano, estar buscando outros horizontes e uni-versos da vida.
O meu saudoso amigo Toninho Fernandes, a quem
homenageei, in memoriam, na edição passada, por ocasião de seu falecimento,
escrevera em seu texto-discurso por ocasião do lançamento de minha dissertação em Sartre, Alteridade do
outro em Sartre, estas palavras: “De
olhar ligeiro e escrita robusta, o intelectual Manoel Ferreira faz do seu
trabalho intelectual um fim em si mesmo”. Tais palavras são a essência de minha
resposta à sua pergunta. O que mais observo no quotidiano são as atitudes
hipócritas, as aparências, farsas, falsidade, destas observações surgem os meus
textos satíricos, irônicos, sarcásticos, cínicos, com eles enfio o punhal nos
“brios dos homens”, como certa vez me disse a minha querida amiga cordisburguense,
D. Ernestina Barbosa, membro da Academia Cordisburguense de Letras Guimarães
Rosa, que gosto mesmo de mexer com os brios das pessoas. Sou um crítico da
hipocrisia. O meu olhar às hipocrisias é, como dissera Toninho Fernandes,
ligeiro, olho e percebo de cara o reino da hipocrisia no íntimo dos homens, a
escrita é robusta, pois que visa ácidos críticos os mais corrosivos que se
possa imaginar. Meu Deus, eu tenho pavor, náusea, asco, nojo de pessoas
hipócritas, convivi com algumas, felizmente me desvencilhei delas, hoje nas
minhas relações só há pessoas dignas, honrosas. Inspiro-me na hipocrisia,
observando as pessoas. Não observo muito outras dimensões do quotidiano, sou um
homem muito anti-social. Para observar com percuciência outras dimensões, seria
mister conviver com a cuja-dita sociedade, tenho pavor dela, da cuja-dita
society, tenho surtos de náusea. Se você percebe bem, Robertinho, você não vê
meu nome, foto minha em colunas sociais. Isto para mim é pura hipocrisia.
Além destas
observâncias minhas da hipocrisia, observo outras coisas. Observo a alma humana
a partir da minha – influência que recebi de meu mestre Dostoiévski, É na alma
humana que encontro viva a minha inspiração, os desejos de liberdade, os
desejos de outros horizontes e uni-versos, os sonhos de outra vida, superações
dos problemas, conflitos, dores, sofrimentos, seus pecados e erros. Sou um
sonhador, sonho com os homens vivendo felizes consigo mesmos, livres de algemas
e correntes, vontade de se espiritualizarem, alcançarem a redenção de seus
erros, enganos, arbitrariedades, gratuidades. Sou escritor-filosófo, a
filosofia é isso, o questionamento da vida. Inspiro-me também nas idéias e
pensamentos de outros escritores, filósofos. Nos últimos tempos, tenho me
inspirado muito nas idéias de Machado de Assis. No Brasil, ele é o mestre da
sátira, da crítica, da ironia, do cinismo, do sarcasmo, crítico ferrenho da
hipocrisia. Quero deixar bem claro que houve influência de Machado nisto de ser
crítico da hipocrisia humana, mas em mim mesmo esta crítica à hipocrisia, aos
hipócritas, sempre existiu. Poderá você perguntar: “Mas você leu Machado de
Assis na tenra infância, quatro anos e meio. Nesta idade, a influência é
preponderante”. Sim, é verdade. Mas desde criança sempre fui uma pessoa muito
direta, dizia o que pensava e sentia. Fui expulso do Grupo Escolar Monsenhor
Rolim por rasgar os verbos na cara da professora. Fui suspenso duas semanas do
Colégio Padre Curvelo por responder à altura a uma professora. Já me puxaram um
revólver por rasgar o verbo na cara de uma pessoa. Faço críticas ferrenhas a
tudo e a todos, como já disse, nada temo neste mundo, nem a morte. Uma pessoa
direta como eu jamais iria aceitar a hipocrisia, a hipocrisia de modo algum lhe
habita o íntimo. Machado de Assis contribuiu para que esta crítica à hipocrisia
fosse revelada. E revelou a critério e rigor.
São algumas
características de minha inspiração. Agora, tudo me serve de inspiração.
Observo tudo. Nesta edição mesma, numa conversa com você, quando lhe pedi as
perguntas para entrevista comigo, por esta ocasião de segundo aniversário de
Razão In-versa, inspirei-me em sua rouquidão para escrever um texto. Sou um
escritor inspirado. Digo mesmo, nalguns textos não é apenas inspiração, sou
iluminado mesmo.
Espero que
tenha res-pondido a esta pergunta sua. Não é fácil responder a isto de
inspiração. Pode ou não acreditar, mas
se você fizer perguntas sobre um texto meu, perguntas mais profundas, vou
precisar ler, estudar o texto, para responder. Daí você pode avaliar que minha
obra inteira é pura inspiração, intuição, percepção. Paulo César diz, eu assino
embaixo, sou essencialmente intuitivo. No início de minha carreira, refiro-me
ao primeiro livro de contos, eu desejava muito ler uma crítica de professores,
especialistas sobre minha obra. Deixei isso de lado: hoje, para mim, a melhor
crítica é feita pelos leitores, porque eles não se fundamentam em teorias
literárias, do conhecimento, em clichês filosóficos, literários, eles lêem a
obra subjetivamente, a partir de suas emoções, sentimentos. Minha carreira é
feita por vocês leitores, vocês são a razão de minha vida literária. Amo de
paixão a sensibilidade de meus leitores, odeio de paixão a objetividade de
críticos literários. Também sou crítico literário. Você já leu muitas de minhas
críticas. Observa com nitidez que tenho um estilo e linguagem próprios, exploro
em minha crítica a subjetividade das obras por mim lidas e comentadas.
R. F. S.- Quem é Manoel Ferreira?
M. F. - Robertinho, você resolveu mesmo me pegar pelo
suspensório. Lembra-me de quando você me ditou as perguntas pelo celular
dizer-me que eram perguntas chinfrins, apenas para não deixar de participar, de
atender ao meu pedido. Se isto é pergunta chinfrim, o que seria uma pergunta
séria, profunda? Isto é pergunta que se faça: quem sou eu? Desculpe-me o termo,
não há outro, “puta-que-pariu”! Vou ter de rebolar para respondê-la como você e
os leitores merecem ler e saber. Mergulhando profundo em suas perguntas, compreendo que,
em verdade, foram elaboradas de modo a apresentar-me aos leitores, à história
da cultura e das artes curvelanas, a Curvelo. Uma pergunta dessas é complicada,
conhecer-me é busca de toda a vida, é desejo, é vontade de identidade. Sou
homem vivido, sofrimentos, dores, preconceitos, discriminações. A literatura e
filosofia me ajudaram bastante nos caminhos do campo, das veredas vivenciárias
e vivenciais, superar tudo isto, suprassumir valores, conhecer-me um pouco.
Ajudaram-me a construir minha identidade, personalidade, caráter,
autenticidade, originalidade. As minhas obras sou eu, o que é meu é a minha
história, será pensado, questionado, estudado nela. Há uma idéia de Heidegger,
filósofo alemão, que tomei como húmus de minha vida como homem e artista: “A
obra é a origem do artista. O artista é a origem da obra”. Nela, inspiro-me
sempre.
A sua pergunta, Robertinho, é: “Quem é Manoel Lacerda
Lemos?”. A colocação da segunda pessoa, não quem sou eu, mas quem é Manoel
Lacerda Lemos, facilita a resposta, vejo-me de fora, falo de um outro de mim,
quem sou eu para mim, interpreto minha imagem vista por mim no espelho, o homem
falando do artista, o artista falando do homem. Sou homem-artista, sou
artista-homem. Não há como separar um e outro, porque homem-artista,
privilegiado por Deus e Maria Santíssima, com dons e talentos de escritor;
ademais sou neto de circenses, meu avô, palhaço, avó, trapezista, por parte de
minha mãe biológica, minha missão no mundo é viver e escrever, contribuir com
minhas idéias e pensamentos com a cultura e artes de nossa Curvelo, amar
verdadeiramente os homens e a humanidade, dar-lhes a oportunidade de com as
minhas obras encontrarem outros horizontes e universos em suas vidas.
Sabe, Robertinho, sua pergunta lega-me uma abertura
imensa, negativa, obviamente. Perguntando-me quem é Manoel Lacerda Lemos, posso
mentir, simular, dissimular, inventar coisas a meu respeito, criar farsas e
aparências, dar uma imagem dis-torcida e tergi-versada de quem sou. Quanto se é
personalidade, acha-se que criar imagens é ser o “cara”. Sou avesso a estas
hipocrisias. Não crio imagens, não minto, não faço lendas e mitos, digo a minha
verdade, por mais sujeita que seja a críticas e dúvidas. A vida, experiências e
vivências, os cursos de letras e filosofia universitários que fiz, sempre em
contato com homens que marcaram o mundo, a cultura, as artes com seus caráter e
personalidade incomuns contribuíram com a minha postura e conduta no métier
delas.
Meu querido e compadre Paulo César dissera-me no início
de mossa amizade: “Manoel, você não é senão a sua própria vida. Pense nisto!”.
A minha vida são as minhas verdades, e delas me orgulho. Sou homem sincero e
sério. Antônio Nilzo Duarte sempre tece seus reconhecimentos e considerações
neste sentido: “Você é um homem muito sincero, fiel às suas verdades. Isto é
que o faz um grande escritor de nossa atualidade, de nossos tempos”, o que
agradeço espiritualmente mesmo. Os leitores em geral fazem estes comentários,
tecem estas considerações a meu respeito, a respeito de minha carreira. Sinto-me
orgulhoso, obviamente. Contudo, não é ser grande ou pequeno, o importante é
escrever obras que possam mostrar outros universos e horizontes da vida, da
cultura, das artes.
Não vou ver-me de fora, Robertinho. Seria a hipocrisia
de minha vida. Vou-lhe res-ponder de dentro de mim, sem me olhar no espelho,
sem analisar, comentar, interpretar, sem mentiras, invenções, farsas,
falsidades, aparências, sem rebolar e sorrir aos transeuntes por ser
personalidade da cultura. Sem espelhos, eu diante de mim mesmo.
Sou sonhador. Você pode dizer, plagiando meu maior
ídolo John Lennon, não sou no único. Sonho em continuidade com outros na
Literatura, Filosofia, Música, Artes Plásticas com a felicidade dos homens, com
a solidariedade, com a paz entre os povos, entre as raças, os credos, com a
vida sem hipocrisias, farsas, aparências, falsidades, a vida real, verdadeira.
Vida não é só sentir o seu sentido no mundo com as obras e as responsabilidade,
vida é viver a busca do seu “verbo amar”. Isto foi o que me ensinou Sonho do
verbo amar, de Paulo Cesar, a sua amizade.
Sou um sonhador, eis porque sou escritor e artista.

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