INFINITO DE LUZES DIÁFANAS - Manoel Ferreira
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Se é que se possa definir a vida, nas minhas
experiências vivenciárias e vivenciais, defini-la-ia sendo “sonhar”, “a vida é
sonhar”, sonhar o verbo amar, sonhar o verbo, sonhar o amor, sonhar a
felicidade, sonhar a paz, sonhar sonhos dentro de outros sonhos, dentro de
outros sonhos, sonhar as realizações de nossos desejos, vontades, utopias. O
que seria o homem sem os sonhos? Sonhar é lindo, esplendoroso, belo é ver os
sonhos que alimentamos no per-curso da vida sendo concretizados e estarmos
trilhando os caminhos do campo rumo à plenitude. Aí sim isto se chama viver.
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Quem realmente sonha sabe de antemão a quaisquer
revezes que o caminho da realização é construído de muita luta, esforços os
mais contundentes, persistência, insistência, sofrimentos e dores, nada se
consegue de graça, tudo é difícil. Acreditar que seja possível ver os sonhos
realizados é a raiz, é o húmus, é a essência da vida de um sonhador; acreditar
em nós mesmos, nos dons e talentos que nos foram doados gratuitamente por Deus;
acreditar em nossas capacidades sensíveis, espirituais, culturais; acreditar em
nossa força para vencer todos os obstáculos e dificuldades. Em nosso mundo,
acreditar em tudo isto deixou de ser uma virtude para ser uma obrigação: somos
obrigados a acreditar, se não quisermos ver a vida definhando ao longo de
nossos per-cursos existenciais, se não quisermos a vida ter sido em vão, só
acúmulo de fracassos, frustrações, angústias, tristezas, desesperos.
Conforme as experiências todas que fui re-colhendo e
acolhendo na vida, diria que a “fé” e a “esperança” precedem a realização não
apenas dos sonhos, também da vida. São elas que nos pro-jetam, ilumina-nos para
a caminhada sem fim em busca de nossas realizações, em busca de ver nossos
desejos serem realidades insofismáveis. Fé e esperança são as nossas amigas,
companheiras em toda a jornada de nossas vidas. Acreditarmos mesmo na fé e na
esperança para os sonhos serem verdadeiros é preciso.
Desde tenra infância, o sonho supremo de minha vida
fora entregar-me por inteiro às letras, com elas não apenas contribuir com a
cultura e as artes de minha terra-natal querida, mas ser amigo dos homens, da
humanidade, mostrar-lhes a vida ser possível de realizações, caminhos outros
que nos fazem felizes, alegres, fazem-lhes desejar viver ainda mais, encontrarem
o amor, a felicidade, a alegria, viverem de encontros e satisfações,
acreditarem piamente no “verbo amar”, conhecerem um pouco de si mesmos, serem
sinceros com os seus sentimentos e verdades, serem autênticos consigo mesmos e
com os outros, acreditarem nos sonhos que alimentam em suas vidas. Em momento
algum de minha caminhada em busca de me ver entregue às letras, escrevendo com
sinceridade as minhas verdades, ainda que dolorosas, enganos, erros, equívocos,
jamais me desvirtuei destes princípios que construí em mim dentro, no mais
profundo de meu íntimo, tergiversando-os para a fama, sucesso. Isto para mim
nunca teve qualquer sentido, qualquer valor. O que tem sentido mesmo é o
reconhecimento, e re-conhecerem-me não foi, não é, jamais o será, dar-me a
cadeira do Olimpo para sentar, e sim os leitores encontrarem seus horizontes e
uni-versos a partir de minhas obras, a partir de minhas idéias e pensamentos.
Deus dá o cobertor conforme o frio. Neste sentido,
doou-me a amizade, o carinho, ternura, amor, confiança. Colocou no meu caminho,
de todas as horas, em todas as situações, na vida estaria ao meu lado,
colocou-me dois grandes amigos, sinceros, leais, fiéis, colocou-me dois
artistas, um das letras, outro das artes cênicas, Paulo César e Ângelo Antônio.
Ao longo de vinte e sete anos caminhamos juntos, construímos nossos sonhos
juntos. Digo mesmo, não saberia dizer se não fosse a amizade verdadeira deles
se eu teria continuado na estrada das letras, das artes, da filosofia. Creio
que não. Dentre todas as coisas que me ensinaram, o húmus de minha vida
literária foi, sê-lo-á sempre, a fé e a esperança de os sonhos serem possíveis
de realização, a felicidade ser uma realidade. E isto com amor, amizade,
ternura, carinho. Aprendemos a amar-nos mutuamente, aprendemos a respeitar-nos,
aprendemos a lutar de unhas e garras por nossas vidas de artistas, homens, pais
de família, maridos, amigos, aprendemos a desejar à humanidade a paz e a
felicidade. Cada um de nós é cada um de nós, cada um de nós é autêntico com sua
própria vida, caráter e personalidade próprios, cada um de nós tem a sua
própria identidade, respeitamo-nos, amamo-nos e muito, não só as artes nos
unem, a amizade e o amor nos comungam em todas as veredas de nossos caminhos do
campo. Não foi fácil para nenhum de nós chegarmos ao lugar em que estamos hoje.
Muitas lutas, esforços, dores... Jamais desistimos, sempre acreditamos em
nossos sonhos, sempre tivemos fé e esperança na vida, nas artes. A eles ser-lhes-ei eternamente grato pela
vida que me ensinaram, pelos caminhos que me ajudaram a trilhar.
Reverso do avesso, revista literária paulistana, em
cujas páginas Paulo César escreveu um ensaio sobre Guimarães Rosa, Graciliano
Ramos e Arrebol, enviando-me de presente no final do século passado, iniciou um
outro tempo em minha vida. Surgiu-me um título inspirado no desta revista,
Razão In-versa – não há textos meus com este título. Alguns anos mais tarde,
2007, 25 de janeiro, tive a grande oportunidade de conhecer Antônio Nilzo Duarte, de quem me tornei
amigo, quem com seu carinho, amor, consideração, amizade, reconhecimento, abriu
outras portas e janelas em minha vida. Desde 2001, após a publicação de Ópera do
Silêncio, vinha colaborando com textos nos jornais curvelanos, mas não me
sentia satisfeito de modo algum com as atitudes e posturas dos jornais. Quem
não tem cão, caça com jegue. Difícil entrar em editoras neste país, não se dá
qualquer oportunidade aos inéditos. Teria de me contentar com publicações em
jornais. Fazer o quê?
Nilzo Duarte presenteou-me com duas obras de sua
autoria, obras memorialísticas. Escrevi algumas críticas, publicando-as nos
jornais. Inspirado nestas obras, iniciei um romance, história do jornalista
Nilson Serqueira, fazendeiro, proprietário do tablóide Razão In-versa – dei o
título que me surgira ao receber o presente de Paulo César.
As insatisfações de toda ordem com os jornais
persistiam, já estava mesmo decidido abandonar os jornais, continuar
escrevendo, esperando uma oportunidade de publicar livros. Nisto, Osmair
Calazans doou-me uns cadernos de mensagens, feitos por ele. Pensei comigo:
“posso publicar minhas obras em cadernos, feitos na copiadora de Osmair
Calazans”. Sonhar é lindo, esplendoroso, realizar o sonho é que é difícil,
complicado. Iria precisar de patrocínio, isto é ainda mais complicado. Depois
de conversar com algumas pessoas, pedir-lhes apoio, consegui comprar uma página
do jornal E agora? Patrocinaram Osmair Calazans, Nilzo Duarte, Restaurante
Espaço Livre, César Frutuoso, Vanderlúcio Soares Guimarães, Daltinho Canabrava,
João Alves da Fonseca Filho, Maurílio Soares Guimarães, e outros. Aos 06 de
junho de 2008, no Prédio Pioneiro, da Associação Comercial e Industrial de
Curvelo, deu-se o lançamento de meu suplemento-caderno literário Razão
In-versa. Três edições foram realizadas no jornal E agora? O editor dele estava
se sentindo muito grande, o mais importante, inclusive Razão In-versa ser dele,
eu era apenas um empregado – a página foi comprada com o patrocínio dos amigos
supra citados. Em agosto de 2008, cantei a todos os ventos a minha liberdade.
Não mais escreveria em jornais. Publicaria minhas obras no meu
suplemento-caderno literário-filosófico. Sonhar é lindo, realizar o sonho é
extremamente difícil.
Na minha carreira em jornais, os próprios editores
criaram um mito para me prejudicar, minha obra era difícil de entendimento, as
pessoas não tinham condições de ler, não tinham conhecimentos suficientes para
entendê-la. Verdade: incomodaram-me por muitos anos para eu modificar a minha
linguagem, estilo. Bati o pé, não entrei na exigência deles. Não se pede,
obriga Machado de Assis a ser diferente. Isto se chama autenticidade. A minha
linguagem, estilo são eu próprio, embora todas as influências adquiridas. Mito.
Recentemente, tive oportunidade de perguntar aos leitores se sentiam
dificuldades em entender a minha obra. Disseram-me que não, não tinham qualquer
dificuldade.
Jamais na história de Curvelo houve um suplemento
literário, é inédito. Jamais se viu pelas ruas da cidade um escritor andando
por todos os lados vendendo a sua própria obra, é inédito. Jamais se viu
escritor escrevendo suas obras sentado em botequins. Tudo isso é inédito.
Nestes dois anos de circulação, com muitas preocupações, dificuldades, fui
conquistando leitores. Não leitores que desembolsam uma quantia para ajudar,
contribuir. Leitores que assinam, que compram todos os meses a nova edição. São
agora trinta e uma edições e todos eles têm a obra completa.
Estive pensando em algo sui generis nos últimos tempos,
sendo isto a razão sine qua non de estar aqui escrevendo este artigo
comemorativo de dois anos de circulação de Razão In-versa. Conforme o leitor
pode perceber no Index os meus leitores são advogados, empresários, políticos (vereador,
prefeito, secretário), contabilistas, delegado, isto é, são a elite cultural.
Observa-se com facilidade a maioria deles é advogado. O que há de por trás
disso? Qual é o símbolo do Direito? Nada mais que a justiça.
João Alves da Fonseca Filho diz-me sempre uma frase que
é uma metáfora, na minha concepção, da reflexão que fiz pelo sucesso,
aceitação, reconhecimento, consideração dos leitores por minha pessoa, por
minha obra: “os artistas vão, a cultura fica”. Curvelo, apesar de haver já
sofrido modificações, nunca dera a mínima atenção para a cultura, para as
artes, muito pouco se lê, nunca reconhecera as suas personalidades em todos os
ângulos da cultura, do conhecimento, das artes. Existe até uma fala: “Curvelo
não bate palmas para ninguém”. Verdade. Sabemos da hipocrisia que reina no
métier da cultura e das artes: uma academia sem escritores, só politiqueiros e
politiquentos, um acinte à nossa dignidade curvelana, temos grandes
personalidades em todos os níveis, em todos os lugares do pais, homens que
honram a nossa cultura e nossa arte.
Não faço parte de academia. Para mim, sucesso e fama
não têm o menor sentido, a minha função é escrever, é contribuir como posso
para a cultura e as artes. Não faço carreira em colunas sociais. Escrevo. Sou
homem direto e reto com o que penso e sinto, não tenho medo de pensar e sentir.
Não faço das letras vaidades e orgulhos ridículos. Quem é assim, só encontra
dificuldades e obstáculos nos caminhos do campo, tenho muitos inimigos nas
letras, mas digo sempre: “antes sozinho do que mal acompanhado”. Jamais fui um
homem compreendido, desde a mais tenra infância fui discriminado, em todos os
níveis, nas escolas por parte de professores, alunos sofri vários preconceitos,
nunca me deram a mínima oportunidade até Razão In-versa. Inveja, então, nem se
fala, o que para mim é a explicação real de todos os preconceitos e
discriminações.
E o que aconteceu? O que está acontecendo? Apesar de
todos os meus defeitos, erros, arbitrariedades, gratuidades, enganos, de minha
personalidade e caráter intransigentes, e diante da conjuntura cultural que
vivemos em nossa atualidade, orgulhos e vaidades de escritores sem obras, sem
noção de cultura e intelectualidade, sem conhecimento de arte, viram a olhos
nus que estavam diante de alguém diferente, alguém que realmente nasceu com o
dom, na vida fez talento de artista, de escritor, de alguém que entregou a vida
às artes, à missão de contribuir com os homens e a humanidade, de alguém que
escreve mesmo, de alguém que tem projetos, utopias, está disposto a morrer por
eles, de alguém que faz o que ama e ama o que faz, sem interesses medíocres e
mesquinhos. Tinham de reconhecer, de
incentivar, de apoiar. “É preciso reconhecer os nossos talentos”, palavras de
Dr. Antônio Fernandes Drumond. “Não há como não gostar do que você escreve; com
você aprendemos muitas coisas da vida”, palavras de Dr. Antônio Carlos da
Silva. “Você é um escritor nato. Um dos escritores mais importantes de Curvelo,
senão o único em nossa atualidade”, palavras de Antônio Nilzo Duarte. “Você é o
nosso orgulho, Manoel Ferreira”, palavras do delegado Dr. André Luiz Nonato da
Silva...
Sinto-me orgulhoso, vaidoso com tais palavras, com o
reconhecimento que recebo de todos os leitores, tendo até notícias de inimigos
estarem considerando e reconhecendo a minha carreira de escritor. Sinto-me sim,
e não há como negar, negligenciar. Mas isto não sobe a minha cabeça, não ando
de saltinho alto de quinze centímetros, não rebolo pelas ruas da cidade. Não,
de modo algum. Sei o que sofri e as dores que senti na minha vida para chegar a
este nível de minha carreira, não vou jogá-la fora com mediocridades e
mesquinharias. Hoje mesmo, 26 de maio,
às cinco horas da manhã, levantando-me para dar prosseguimento a esta
edição, disse à minha Marize: “Quanto mais famoso se torna um artista, mais
responsabilidade ele tem com a vida, com os homens, com as artes”.
A justiça foi feita. Discriminado, carregando
preconceitos nas costas de todos os níveis, mas a minha arte e os meus sonhos e
utopias, minha sinceridade e seriedade com o que penso, sinto e faço, dons e
talentos que Deus me doara gratuidade, o reconhecimento veio.
Agradeço mesmo de coração a todos os meus leitores,
amigos, íntimos, conhecidos todo o reconhecimento, consideração, carinho que
tiveram por mim nestes dois anos de circulação de Razão In-versa, dizendo a
todos que custe o que custar a minha missão é engrandecer a nossa cultura e
artes curvelanas, isto realizarei. Assim, a minha vida terá sido o que sempre
desejei fosse.
Um grande abraço a todos. Muito obrigado mesmo por
tudo!

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