ORIUNDO DE EXÍLIOS E ANTANHOS - Manoel Ferreira



Se quereis mesmo conhecer o que dis-ponho a vida à busca de não sei o que, quem sabe oriundo de exílios e antanhos, quando não necessitarei de mínima coisa a aprender, embora desconheça tudo, quantas vezes o penso em mim, em profundezas que às vezes penso são quimeras, dis-ponho-me a imaginar a esperança, o orgulho, a verdade!...
Estais percebendo a faca ir destrinçando a carne, tirando-lhe o osso, de uma indagação teci considerações aleatórias, seguindo as imagens que se me apresentam, disse-vos algumas verdades, tenho-as muito íntimas na alma, e só poucas vezes, sei lá o porquê, não me interessa saber também, cansado sei que estou de seguir trilhas estão antigas, coisas de homem que perdeu nalguma esquina ou salão de dança o seu rebolado, nada mais lhe resta senão contemplar o mesmo em todos os sentidos... Imaginai que tomeis café da manhã, não é algo rotineiro, quotidiano, e por todo o sempre será a mesma coisa, embora necessário, caso contrário morreríamos de fome, na plena miséria e sujos, mas, é verdade, acostumamos com o mesmo.
Ai, creio que se não fossem as necessidades urgentes, o que seria da vida, nada, não valendo nem a pena continuar olhando-a, o melhor é sim abaixar a cabeça, encarar a terra de frente, a presença incólume das cinzas, o desejo profundo de nelas se perder. Isto não me diz qualquer respeito, a missão é buscar os sentimentos oriundos de exílios e antanhos, quando poderia compreender e entender vez por outra, outras não mais havendo, que a mim nada mais resta saber e não saber, pouco me importa. Enquanto homem, em esquisita e estranha combinação de paradoxos e absurdos, um cavaleiro em missão quotidiana de seguir a sua estrada, só parando quando necessita de se alimentar e tomar algum banho em águas que correm livres e convictas de seu rumo, abrir estradas para passar.
Quem sabe vós não podeis intuir a profundidade destas palavras que vos dirijo, enquanto dentro de um ônibus, do lado contrário ao motorista, as primeiras cadeiras, sentado à janela, olho o percurso, lá onde passarei daqui a alguns minutos, até onde as vistas conseguem enxergar, e sempre novos caminhos, paisagens, cenas da natureza.
Se algum dia vos disse, creio que não, devido às visões e pontos de vista que venho aprendendo ao longo da existência, de viagens em viagens, residências aqui e ali, agora volto ao lugar onde intuo esta esperança de o cavaleiro da ressurreição algum dia poder se perder nela e nela se encontrar e, como uma lenda, habitar a serra contemplando as estrelas que cobrem o ossuário da terra.
Morte! Vida! Quando o homem intui que morte e vida pouco se lhe dá, entendendo o mundo como a busca de morte e vida, nada mais lhe importa, ele só vê a esperança de subir a montanha, mesmo que tenha de aprender desde o início com especialista a escalar, mas o fará. As esperanças, oriundas de exílios e antanhos, só se revelam nítidas, se compreendemos que primeiro é importante construir estas esperanças, a partir de experiências e vivências, creio que vós não podeis, talvez não tenhais argumentos suficientes para discutir ou avaliar o que estou a dizer-vos, isto é imprescindível, a partir daí podeis estabelecer princípios e experiências para compreender o que estou a dizer-vos.
Compreendeis?!... Ora não! Senhores, não vos importeis com isto de entender ou não o que estou a dizer-vos, carece-lhes bom senso nisto, cumpre seguir a vossa jornada, nalgum momento estas palavras serão vozes que lhes dizem caminhos e rumos outros. Tais palavras soam estranhas ao vosso ouvido, ninguém jamais fora capaz de lhes tocar com palavras que muitas vezes não se sabe o que desejo dizer, e me faltaram as palavras adequadas para vos fazer ouvi-las. Disse-vos através de símbolos, metáforas, enigmas e mistérios, e sei lá mais o que poderia citar em exemplo de que estou apenas a me defender de alguns sentimentos quando lhes digo tudo isso.
São aquelas coisas oriundas de exílios e antanhos que seguem o ritmo e o rebolado das primaveras, invernos, no rabo no tempo visitando e contemplando os vales e rios, florestas, o mar, o horizonte lá na frente, o que vejo daqui de onde estou sentado à cadeira do ônibus, uma música muito interessante, uma balada do artista dos anos `60, quem dissera antes em terras oriundas de antanhos e exílios, e hoje entendo e compreendo sei lá o que. Não podeis.... Como se pode dizer o termo sem dizer o mesmo? Se toco as palavras, sentindo-as profundas e ávidas de vida e sentido, de Vida, tornam-se profundas, não me posso furtar ao direito e  dever de me perder nelas, buscar mais fundo ainda a Vida, esta primavera e inverno de sentimentos e emoções outros que iluminam o proscênio de algum teatro ao longo da estrada, mesmo que à beira, palhaços representando a tristeza com alegrias e diversões.
Quem seja o dom divino e espiritual esteja no fato de que faço graças para as palavras, respondem com risadinhas, como se estivesse a lhes fazer cócega nalgum ponto mais sensível às velhas risadas e risadinhas, de escárnio, galhofa, prazer e felicidade de os pés seguirem a estrada, ir lá ver o que existe na frente, olhando em todos os ângulos, percebendo os horizontes e os crepúsculos, e nada disso importando!
Quem sabe não o seja, nada disso tenha qualquer valor possível de busca de algum sentido muito profundo, são visões mesmas vistas em ângulos diferentes e distantes, dessas coisas oriundas de exílios e antanhos.
Estais a perceber que me aproveito da situação de cada um de vós se esforçar em captar o sentido profundo de toda esta verborréia sem escrúpulos, senso de qualquer coisa, mas o hábito maior está presente em cada letra se pensais bem, e se não acreditais nisso, o que me importa, faço graça para as palavras, ouvem-me, gargalham, até pedem para fazer mais cócegas, querem se perder nas entranhas de não sei lá o que, só as gargalhas podem responder e elas não podem se explicar enquanto se apresentam e se processam. Já experimentais dizer alguma palavra quando estivestes a rir, gargalhar de algo sério ou, quem sabe, de algo mais ou menos risível como a diferença e a mesmidade entre as coisas oriundas de exílios e antanhos?
Difícil compreender, pois em cada vez que disse esta palavra dei-lhe um sentido diferente, e também não me esquecendo que o mesmo esteve presente, ambos não se distanciam, queiram os loucos, a trindade dos loucos. Se percebeis bem estou a referir-me sobre o arcabouço destas idéias onde me fui buscar inspiração, enquanto observando as montanhas ao longe, enquanto o ônibus continua a viagem, abrindo mais estradas à frente até que eu chegue ao meu destino. A imaginação, observando a natureza que me acena com as rosas, capins, árvores, mostra-me num passo de mágica as primaveras de antanhos oriundas de exílios, o que, por vezes, é interessante, mas o desejo é seguir caminho até o próximo inverno.

Será que vós podeis compreender estas palavras, e se não podeis, aconselho-vos a olhar a estrela que vela o ossuário da terra, estamos sob a sua magia, proteção e amparo das angústias e tristezas. É isso aí. Sigo a estrada. Retorno ao passado e me lembro de quando numa manhã tomei o ônibus para uma pequena viagem, apenas um dia, e tudo se tornou a vida oriunda de exílios e antanhos.            

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