MESTRE ZILÚ - Manoel Ferreira
A aranha vive do que tece...
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Era ali na Favela do
Cupim, a mais distante da cidade, a mais miserável, que morava Mestre Zilú.
Desde que entendera por gente, estava ali no Cupim, era o seu lugar de morada,
era o pedaço de chão que lhe cabia. Seus antecedentes familiares eram-lhe de
todo desconhecidos, estranhos – se os queria conhecer, se no íntimo desejava
saber deles, aproximar-se, não o sei, nem creio que alguém o saiba: em verdade,
não se lhes referia em momento algum, nem mesmo pensava nisto, para ele havia
surgido do nada no mundo. Se tinham pais e irmãos, onde estariam, onde
viveriam? por onde andariam? Não pensava nisto. “Muito grande, este buraco
grande chamado mundo! Quem olha lá embaixo nunca vê fim, quem olha lá para
cima, jamais vê início”, dizia Mestre Zilú. Tinha de apoio nesta vida uma
criatura bondosa, quem o amava como a um filho, a quem se dedicara por toda a
vida: a madrinha Fina (Serafina era o seu nome), mas esta, de há muito
desmemoriada, nunca esclarecera o passado do afilhado.
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Quando foi tirar a cuja-dita carteira do Ministério do Trabalho,
Dindinha Fina desembrulhou um papelzinho todo amarrotado, velho, que ela
afirmava ser o “batistério” de Mestre Zilú. Por este documento foi que a
autoridade deduziu os dados de que necessitava (os mínimos dados): “José Maria
de Jesus Almeida, nascido aos 07 de agosto de 1948, em Cordisburgo, Minas
Gerais”. Além do nome (ilegível) que batizara o Zilú, mais nada. Criança de
colo fora com a madrinha residir em Curvelo, na Favela do Cupim.
Crescera sozinho, no morro, dependendo, desde criança, da própria
iniciativa, esforços, para conseguir as migalhas necessárias à sobrevivência.
Índole boa, modos submissos, prestativo, caráter dócil, trabalhador, fez-se
querido e estimado por todos na favela, onde morava, e, na Bela Vista, onde
trabalhava, ainda cumpria mandados. Só estudou até o segundo ano de grupo,
quando teve de começar a trabalhar. Ali, na Bela Vista, lavava carros, podava
grama, fazia faxinas, Nas horas vagas, vendia pipocas, à porta do grupo, nos
dias de semana, e na praça do Fórum, aos domingos. Havendo circo armado nas
proximidades, postava-se-lhe à entrada, com ótimo resultado no investimento
pipoqueiro, contava estorinhas para as crianças, algumas chegaram-lhe se era
palhaço do circo, sempre muito engraçadas, um intróito para quando estivesse
assistindo ao espetáculo do palhaço, os risos tinham de começar antes, enquanto
o milho estralava na panela. Na casa dos patrões, recebia, além do dinheirinho,
comida, roupas e pequenos agrados. Assim, quase não precisava fazer despesas,
senão dar um pouco para Dindinha Fina, e o rendimento, a bem dizer por inteiro,
ia para o pé-de-meia.
O barraco onde morava Mestre Zilú era compartilhado por um companheiro
que atendia pelo nome Neca Pinto. Neca, crioulo malandro, apreciava pouco o
trabalho e vivia só de expedientes: dormia de dia, jogava baralho e trapaceava
à noite. Entretanto, não tinha tido inda qualquer problema com a polícia. Como
Mestre Zilú saía cedo para o serviço, quase não se encontrava com Nequinha
(assim o chamava). Saía um, chegava o outro. O mesmo catre servia ao sono de
ambos. Raramente se viam e, quando tal acontecia, era para atritos, apesar de a
bons modos.
- Ocê, mestre Zilú, vive num sonho. Acorda, home, acorda pra realidade –
repetia sempre o Neca Pinto.
Neca Pinto não concordava, até ria dele pelas costas, com a esperança
que Mestre Zilú nutria, regava, alimentava dentro em si de um dia sair da
miséria e da favela, com o produto do próprio trabalho. Para Neca Pinto a
condição do negro não tinha nenhum futuro. Mestre Zilú não era negro, era
mulato, não tinha nenhum complexo por sê-lo, não sentia preconceitos por parte
das pessoas.
- Eu não trabalho!, insistia Neca Pinto. Trabalho não faz ninguém
melhorar de vida – queria dizer que o trabalho não engrandece o homem – Os
ricos me despreza? Pois que me pague o sustento – queria com isto dizer que, se
a sociedade lhe criava restrições, lhe não permitia privilégios, se lhe tinha
como Neca Ninguém, ela que o indenizasse por isto, sustentando a ociosidade
dele. Dava-lhe, como se gabava, mostrava o nariz, adiantava os ombros, o troco
de dezessete e setecentos, dos vinte que lhe fora entregue em mão, o “troco do
ladino”, usemos uma expressão comum e popular.
- Cê tá errado, Nequinha, discordava Mestre Zilú, olhando-o de esguelha,
pensando em seu caráter desequilibrado, em suas atitudes de não. Um dia te
pegam com a mão na botija e cê vai ganhá borracha no lombo e serviço lá na
cadeia da Joaquim Felício. Ocê, meu amigo é que tem tomá jeito de homem, deixá
de jogar, trapacear na noite, muda de vida.
Em realidade, não passava de um frustrado, uma criatura fracassada, não
acreditava em nada, a vida era apenas a espera da morte, esquecimento de todos,
uma cruz apagada de nome, data de nascimento, de falecimento. Moleque bom dos
pés, aprendera, de menino, a fazer o que queria com a bola, sonhava colocar
Pelé de baixo de sua chuteira. Nas peladas da favela, era o rei e o herói.
Depois, cresceu, entrou a treinar no juvenil do “Curvelo Futebol Clube”,
prometendo maravilhas e importâncias para o time. Sonhou com a glória no
Mineirão, Maracanã, se Deus lhe desse a mão nos grandes estádios do mundo, na Copa
do Mundo.
Teria chegado lá – quem sabe? -, se não fosse o azar, quando caiu de mau
jeito: num lance infeliz, quebrara o fêmur, à altura da bacia. Inutilizado para
o futebol e condenado a coxear de uma perna pelo resto da vida. Agora, queria
esconder sua revolta, frustração, fracasso, naquela máscara de vingador da
raça.
- Branco não presta! branco tem de me sustentar, porque, no passado, os
pretos escravos, trabalharam para o resto da vida dos pretos do Brasil,
sentenciava Maneco Pinto, a rir com sarcasmo, as mãos espalmadas, com os
polegares enterrados na lapela do paletó xadrez.
- Nequinha! Nequinha! Ocê vai se dá mal, aconselhava Mestre Zilú. Ocê
vai se dá mal, muito mal!
Mas cada qual ia levando a vida como queria e achava certo. Mestre Zilú,
sempre dando duro no trabalho e economizando; Neca Pinto, exercitando a boêmia.
Depois de trinta anos, Mestre Zilú tornou-se mestre de obras. Dos mais
competentes e capazes. Pontualidade, assiduidade, responsabilidade, tais dotes
sobravam nele. Franzino, mas de muita resistência. Quando a manhã ainda era
promessa rósea no horizonte, o sol, mal punha o focinho no mundo, já encontrava
Mestre Zilú a caminho da obra. Quem visse aquele operário na rua, àquela hora
tão cedo, no despertar do dia, fim da escuridão, início de outras realidade e
sonhos, não imaginava o que ele havia feito já no dia mal começado.
Despertava-se por volta das quatro horas da manhã, coava o café, ia à padaria
comprar três pães, preparava o almoço, que – podia-se dizer – era feito de meia
confecção, porque alguns preparativos já vinham da noite anterior e só os
complementos ficavam para ser aprontados depois.
Mestre Zilú, feito o almoço, fazia a marmita de levar para o serviço,
barbeava-se com uma navalha de estimação, que alguém lhe dera ainda rapaz,
apanhava a pasta, rumava para o trabalho, passos largos para não chegar um
minuto sequer depois das sete horas. Chegando ao serviço, rendia o vigia, que
era liberado:
- Bom dia, Neófo!
- Bom dia, Mestre Zilú? Como passou de ontem para hoje?
- Do jeito que Deus sempre quis. Tudo em ordem?
- Tudo em ordem, graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, sim, Senhor!
- Deus louvado! agradecia mestre Zilú. E prontamente: Vai, filho, vai
cuidar de dormir.
Depois de vistoriar toda a construção com esmero, começava a preparar as
ferramentas, dispondo-as em ordem, no espaço reservado para isso no
canteiro-de-obras, de modo que pudessem, sem delongas inúteis, ser apanhadas
pelos operários, ajudantes, em verdade. Chegando todos – dava o prazo até oito
horas, considerando que moravam longe, mas se chegasse um apenas atrasado, era
dispensado, o dia seria descontado nos seus ganhos semanais, se atrasava três
vezes era deliberadamente dispensado. Nunca chegou a mandar qualquer ajudante
embora -, já picaretas, pás, colheres, enxadas, marretas, carrinhos, serrotes e
martelos os aguardavam ao alcance das mãos. Trocavam de roupa, calçavam as
botas, punham os capacetes e, ao sinal dado por Mestre Zilú num triângulo de
ferro, iniciava-se a rotina da construção. Eram oito horas pontualmente. Mestre
Zilú, com a sua prática, paciência de Jô, carinho e amizade por seus ajudantes,
com sua intuição de artista, tino administrativo, ordenava e comandava aquele
formigueiro de homens, ferramentas. E a casa crescia a olhos vistos, alterando a
paisagem a cada mês, quando mais uma laje ficava pronta. O engenheiro
responsável pela obra sentia-se seguro e tranqüilo, graças ao seu hábil
lugar-tenente.
Mestre Zilú tinha duas paixões na vida: o violão, a mais antiga, não dia
a dia, mas com freqüência, tocava e cantava algumas músicas, sabidas de cor,
sertanejas, e seu grande amor era O menino da porteira, emocionava-se, quando a
executava, algumas lágrimas furtivas deslizavam-lhe no rosto, e Cacá – Cátia –
como ele a chamava – era uma mulata que conhecera trabalhando de doméstica na
casa do Dr. Camargo. Mocinha de seus vinte
e seis anos, mulher acabada de corpo e alma. O cabelo bom, de um
castanho brilhante, enrolado nas pontas. Os olhos grandes e amendoados, castanho-claros.
As feições eram delicadas. Os dentes alvíssimos. Se não fosse pela cor de
jambo, não se imaginaria que era mestiça. Um portento de mulata!... e no viço
da maturidade! A cintura fina, uma cintura de fio, de gargalo de garrafa. E, de
repente, aquela beleza de quadril, redondinho, rechonchudinho, gingando nervoso
no andar requebrado. Pernas lisinhas, morenas puxando a cor de lombo assado. E
a danada ainda acha de pôr realce nos encantos, sombreando os olhos,
vermelhando os lábios carnudos, borrifando cheiro nas axilas e naquele mundéu
de pescoço e ombros, tudo à mostra, só com a blusinha de malha, decotada,
esticada na frente por dois faroizinhos pontudinhos, de biquinhos em riste.
Mestre Zilú amava cegamente aquele pedaço de mau caminho de mulata. Ao
violão, compunha versos simples e brejeiros, produto de uma fascinação maior do
que ele. Na sua imaginação romântica criara um mundo de felicidades só para os
dois. Trabalharia sempre, nas construções. Quando tivesse juntado um bom cobre,
iria comprar um casebre na Vila São José ou no Alto do Tote. Qualquer cantinho
mais decente para onde pudesse levar a mulatinha amada. Então iria propor a
Cacá casarem-se com o Pe. Rudolfo Mendes – diziam que casal por ele abençoado
vivia muito feliz - e no Juiz. Um
casamento direito; com testemunhas e tudo. Nada de ajuntamento feito a gente lá
no morro. Quem sabe convidasse Dr. Camargo e d. Zizinha para serem os padrinhos
dos dois?
Assim sonhava, assim agia, para este objetivo vivia. Já estava com seus
trinta e dois anos. Sonhava, sonhava,
sonhava em ser feliz, muito feliz com ela. Tanto ele quanto ela eram
carinhosos, ternos, amavam-se. Deus iria lhes ajudar.
O dinheiro que ganhava ia sendo enterrado embaixo da cama, numa caixa de
bateria de automóvel improvisada em cofre. Cuidava de dobrar as notas envoltas
num plástico e ir amealhando montinho sobre montinho. De algum tempo, nem
queria saber de conferir o tanto, porque lhe sobrevinha a tentação angustiante
de agradar a Cacá, comprando-lhe um brinco ou pulseira de madame. Seu Nonô
Fernandes tinha-lhe oferecido uma pulseira de ouro. Uma soberba de coisita
bonita. Iria ficar mais que lindíssimo no braço roliço de Cacá! Mas custava
muito caro.
A sua paixão por Cacá era um amor crescendo, para dentro, uma afeição
sem extroversão. Não havia que não visse nos olhos de Mestre Zilú o interesse
pela moça; todo mundo sabia de tudo, seu grande amor, seus desejos de fazê-la
feliz. Para todos os conhecidos e amigos, ele era o “Zilú da Cacá”. Todos
estavam carecas de saber... menos ela! Tinha-lhe uma afeição mais profunda, não
era amor, tratava-o bem, porque a patroa queria que os empregados que serviam
na mansão fossem bem tratados. Também Mestre Zilú era tão prestativo, fazia-lhe
todas as encomendas com típica devoção de um homem dócil, terno amoroso. Não o
deixava perceber – assim pensava, mas ele sabia, só não entendia o porque de
não se re-velar, quiçá fosse medo de não ser correspondida, sofrer em razão.
Não sabia Cacá que ele a amava, não tinha o dom de ver profundo a alma humana.
Cacá tinha também os seus planos. Só que neles não entrava Mestre Zilú.
Pudera! Para ela, ele não tinha onde cair morto. Se um saco vazio não pára em
pé, imagine dois! Não sabendo Cacá de suas economias enterradas debaixo da
cama, desde criança. Era assim que sempre o via. Uma espécie de bicho manso e
domesticamente útil. Como um cão de guarda ou um pangaré de carga. Como gente,
nunca. Nunca via nele um homem, ser homem não era apenas ser sensível, terno,
amoroso, caráter dócil, tinha de ter dinheiro de sobra, amor não enche barriga,
não satisfaz as vaidades. Os planos de Cacá incluíam estudos – terminara o
grupo, fizera o ginasial -, formar-se no científico, quem sabe chegar à
faculdade, queria ser professora de História, uma profissão digna, que não
fosse aquela horrível de doméstica em casa de rico. Não que os patrões fossem
maus. Quanto a isso, até lhes devia favores e, se havia começado, primeiro ano
do científico no Colégio Liceu Arnoldo devia isso a Dr. Camargo que foi quem
lhe arranjou a bolsa. Depois de formada, quem sabe um casamento com um bom
partido? Então, era hora de provar aos pais, lá em Morro da Garça, quando
decidiu vir para Curvelo, mostrar a todos que os morrenses da garça nasceram só
para jogar boliche com berinjela e dez garrafas de cachaça
Havia já um noivo pintando no seu pedaço: Edgard, fora criado por uma
família de descendência inglesa, muito inteligente, formado em Direito pela
universidade, mas como qualquer princípio de profissão é difícil, pegava umas
oportunidades, mas era como motorista que ganhava sua sobrevivência. Motorista
de d. Zizinha. Com este tipo Mestre Zilú nunca se simpatizara muito, achava-o
muito ciente de si, convencido de sua inteligência, um rapaz que agradava as
mulheres por seus conhecimentos. Doía-lhe o coração como ele o tratava: “seu
Zilú”.
- Seu Zilú é a mãe dele, o pai dele, a família toda que tenha – percebia
que o “seu” era um tratamento depreciativo, um modo de colocar o pobretão no
seu lugar devido; “mestre”, não tinha nada de mestre, mestre é quem tem
sabedoria, quem tem alguma coisa para ensinar; o povão tem um jeito de
tratamento esquisito, mostra bem a ignorância em que vive.
Mestre Zilú amarrava a cara, pensando nas conversas dele com Cacá na
cozinha, tomando o lanche da tarde antes de buscar o patrão em seu escritório
de contabilidade. “Diabo de inglesinho de merda, que tem ele de ficar olhando
Cacá com os olhos brilhando, e ela toda cheia de vaidade?”
Nos últimos tempos, vinha enxergando de esguelha que os dois tinham uma
intimidade crescente. Cacá, depois do lanche, chegava ao alpendre, quando
Edgard ligava o carro, mandando-lhe um beijo através da mão, dizendo-lhe para
tomar cuidado na direção, não corresse, a pressa não é só inimiga da perfeição,
é inimiga da vida.
Ele, mestre Zilú, recebia na mão o prato com pão com presunto, fatias de
queijo e bolo, leite quente, diretamente da vaca, é que o patrão tinha vaca
numa fazendinha na Maria Amália para servir a família, enquanto vistoriava o
serviço dos ajudantes na construção do escritório fora da casa. O
advogadozinho, de certo, comia das travessas à mesa.
- Só porque é inteligente e formado advogado na faculdade.
Mestre Zilú foi este homem responsável, cumpridor de seus deveres, desde
que entendera como trabalhador, e como homem, desde que entendera a necessidade
de ser honrado, responsável, digno, ter valores reais, para a sobrevivência.
Começou a observar com percuciência os dois com o máximo de disfarce.
Atrás das moitas. Por toda parte e pelos caminhos da aula, quando Cacá ia às
dezenove horas à aula e voltava pelas vinte e duas horas e meia. Anteriormente,
pedia-lhe que a seguisse como companhia na hora da volta. Tinha medo
indescritível da noite. Mestre Zilú fazia horas pelas imediações da escola,
andando, conversando com conhecidos na esquina, mesmo sentado no bar, não
bebia, com os fregueses e, no momento em que terminavam as aulas, lá estava de
prontidão, para proteger a sua amada. Agora, porém, o safado do advogado tomara
o lugar dele. Era fazer-se de atoleimado e deitar o braço no “don-juan” de meia
tigela, não era bonito, tinha caro de rato, barrigudo, voz de taquara rachada,
só vestia bem e tinha estudo superior, inteligente. Estudo superior,
inteligência não fazem a felicidade de uma mulher, o que o faz é amor, ternura,
carinho, dedicação, entrega, o imbecil não sabia o que era isso.
Por muita prudência, ficava atrás de Cacá e do advogado, seguindo os
dois, remoendo suas dores, angústias, seus desejos reprimidos, a cabeça girando
a mil, o coração batendo descompassado. Aquilo só lhe mostrava não ter o mínimo
amor por si, não se valorizava, era marionete nas mãos de Cacá, fazia dele o
que queria, usava-o ao seu bel-prazer. Mesmo que estas reflexões fossem reais e
verdadeiras, se se determinasse numa piscadela poria fim à situação, era homem
de caráter e opinião, aceitava, por assim não se sentir tão sozinho com o seu
sentimento, na vida, ela ser somente trabalho. Não direi que este amor, não
correspondido, em verdade, mesmo que o fosse, impulsionava-lhe a vida,
desse-lhe mais forças e determinações para continuar lutando, seguindo as suas
trilhas, veredas e caminhos, por ser homem que tinha consciência de o trabalho
ser a vida, com o trabalho de mestre-de-obras ficaria no mundo, servira aos
homens, deixara suas obras, suas casas construídas, sentira no mais profundo de
si ver feliz, realizado, contente com a vida, real-izava os seus sonhos,
mínimos que fossem aos olhos dos outros.
- Mestre Zilú, de agora para frente, não precisa mais me buscar no final
das aulas – disse-o de modo ríspido, desconfio que ele estava criando
caraminholas na cabeça por ela, aquela sua gentileza não era natural, vigiava-a
com o namorado, não era seu pai, parente – Obrigado pela companhia feita em
outros tempos!
Mestre Zilú baixou a cabeça, mas se revoltou por dentro:
- Ora... outros tempos! Outros tempos é como agora. E agora é muito
pior, porque ninguém sabe das intenções desse gringo das arraia!
A partir do aviso – em verdade, uma ordem inconteste -, Mestre Zilú não
podia mais aparecer a vigiar os dois! Desaforo! O advogado pegava a mão de
Cacá, seguiam assim enleados um ao outro, segurando ela os livros contra o
peito. Na entrada da casa, demoravam-se ao portão, beijavam-se, abraçavam-se.
De que falavam? Quais planos eram para o futuro deles? Parece que só falavam de
estudos, de leis, de história. De longe, Mestre Zilú não podia ouvi-los.
“Diabo! essa agora de nem poder sabê se o que ele fala é bom pra Cacá. Se a
aconselha sobre isso ou aquilo. Se mostra pra ela o que isto a vida, as
dificuldades, os problemas, como viver bem!”
Edgard contaria, quando muito, vinte e cinco anos. Um guapo rapaz. De
família abastada, saíra pela América Latina, assim que se formou, presente de
formatura, conhecera o Chile, Paraguai, Uruguai, dando vazão ao instinto de
aventura. Chegado ao Brasil, fazia um ano, o dinheiro acabara e teve que
arranjar emprego, pegava bicos na advocacia. Começar carreira não é simples.
Orgulho, não quis pegar causas pequenas à porta da delegacia, que muitos o
fazem, adquirem experiências. A melhor coisa que conseguiu, “pra quebrar o
galho” fora aquela vaga de motorista de
d. Zizinha, a quem tinha sido apresentado por um amigo, Nilson Alvarenga,
ex-colega de colégio. Até gostava do ofício. Trabalho leve, sem muito aperto,
passeios aqui, passeios ali, boa comida e, por último, aquele namoro com Cacá,
moça de condição humilde, mas... “what a beautiful girl!” – dizia, cheio de
gestos, enrolando a língua, sentindo-se mesmo o mais galanteador dos homens por
saber falar Inglês. Prometia a Cacá duas alternativas: primeira, levá-la consigo
na lua de mel para Londres, terra da família de seus pais de criação; segunda,
após a lua de mel, morarem na capital, abrir um escritório de advocacia.
Cacá até estremecia de tanta emoção, uma viagem de lua de mel a Londres.
Um namorado criado por descendentes de ingleses não entrara em seus planos,
porém, um marido de posses, inteligente, culto... este era o seu sonho! “De
miséria, chega!” Com Mestre Zilú iria viver num barraco na favela, viver de
migalhas com os ganhos de seu trabalho como mestre-de-obras. De jeito algum.
Isso não é futuro para uma mulher. E dava asas à imaginação. Edgard, muito
falante, quando voltavam da aula e paravam nos jardins da mansão de Dr. Camargo
e d. Zizinha, começava alisando-lhe os braços, o pescoço... e pronto! Estavam engolindo
um ao outro no mais esfomeado beijo.
Neste instante, Mestre Zilú dera um grito: “Larga!”. Os dois entenderam
que estavam sendo seguidos e vigiados.
- Quem é?
- Mestre Zilú, o mestre de obras.
- Ah, sim. É o seu Zilú!
Riram-se e o incidente passou.
O tempo remedeia males e paixões
de algum modo. Dois meses se escoaram. O escritório de Dr. Camargo ficara
pronto. Mestre Zilú acostumou-se a ver Cacá nos braços de Edgard. Apesar de não
haver modificado o tratamento com ele, a patroa exigia que todos que
trabalhassem naquela casa fossem bem tratados, fechou-se bastante para ele, só
conversava o que era necessário. Para ele, o fato de ela haver ficado mais
séria, só de quando em vez sorria, contava uma anedota, sentindo que olhos a
espreitavam, não era o amor que mudara seus comportamentos, estava sofrendo por
alguma razão, talvez houvesse descoberto alguns defeitos no caráter do advogado
ou algum segredo que ela a confiara, segredo este que a incomodava. O defeito
de caráter dele era desprezar as pessoas simples e humildes, olhá-las com
aquele arzinho de “que tipinho mais chinfrim”, orgulhoso de si, de seus
talentos, conhecimentos, ninguém lhe ombreava, senão os que tinha dinheiro e
cultura, dava-lhes atenção até a mais da conta. Quanto a segredos, era fruto de
seus ciúmes. Não estava errado quanto a algo estar acontecendo, algo de muito
sério pois que Cacá estava bem diferente. Era um homem sobremodo sensitivo.
Era tímido demais e humilde demais para enfrentar competição tão
desigual com Edgard. Por fim, deixou de vigiá-los, refugiando-se na própria
solidão. Restava-lhe o violão, companheiro de mágoas e tristezas. Nesta fase,
compôs muitas modinhas na solidão de seu barraco, sentado num tora de árvore à
soleira do casebre, em noites de luar e milhares de estrela, em noites de
chuva. Uma delas de uma noiva morta e de um noivo desesperado. Outra de um
jovem que se entregou à bebida por vários problemas com o pai, morrera numa
praça pública. Sentara-se no banco, curvara-se, deitara a cabeça sobre os
braços, sobre as pernas. Transeunte é que achou aquela posição bem estranha
logo pela manhã, quando lhe tocou, percebeu que estava morto. Quanto às
economias, hábito de anos, prosseguiram normalmente, numa repetição de atos
automatizados: dobrar notas, embrulhá-las em plástico, abrir a caixa, colocar o
precioso guardado, fechar a caixa, camuflar o chão embaixo da cama. Mas,
economizar para quê? Continuar guardando suas economias não tinha mais qualquer
sentido? Seu desejo era poder sair da favela, adquirir uma casa, por mais
humilde que fosse, viver com alguém, fazer o seu amor feliz, ser feliz com ele.
Seu grande sonho estava desfeito.
Cacá... a Cacá era de outro, daquele maldito advogado, que o chamava de
“seu Zilú”, com desdém, desprezo. Talvez até soubesse de seus sentimentos pela
Cacá, quis mostrar-lhe nada ser para ela, os seus sentimentos estavam guardados
para alguém como ele, um homem de futuro, enquanto ele nada tinha, seu destino
estava traçado, viveria sozinho e para o trabalho. Bem que o Nequinha lhe oferecera
para lhe dar uma lição daquelas. Porém, Mestre Zilú, coração grande, inimigo de
qualquer violência, preferia desistir. Pobre, mestre-de-obras, sem família, não
merecia ser feliz com alguém, Deus dá cobertor conforme o frio, o seu frio era
morrer trabalhando, fazer planos impossíveis, desejar coisas além de suas
capacidades, além de sua própria vida. Como tinha planejado, Nequinha fazia o
serviço, sumia-se para São Paulo, pois era mesmo de sua vontade rumar para lá.
Mestre Zilú nem mesmo sabia se Nequinha tinha de fato ido para São
Paulo. Fazia tempo que não se encontravam e, pelo jeito das coisas no casebre,
tinha se mudado. Não havia qualquer coisa dele. Fora melhor. O caráter dele o
incomodava muito – diga-me com que anda, dir-lhe-ei quem é; alguns de seus
conhecidos lhe chamaram atenção, Nequinha ainda iria dar-lhe problema. Não
devia ter-lhe alugado a cama para dormir. Dinheiro sujo, dinheiro de jogo não
vale a pena. Era uma migalha a mais em suas economias. Ademais, não iria cair
na dele, sabia se defender, tinha opinião própria.
Com a aproximação do fim do ano, acabou a construção do escritório de
Dr. Camargo. Edgard foi, repentinamente, para o Rio de Janeiro. Amigo de seu,
ex-colega da faculdade, terminado o curso para lá voltara, o pai que era promotor
ajudou-lhe a abrir um escritório, estava bem de vida, convidou-lhe para
trabalharem juntos. Prometera a Cacá, assim que se instalasse, providenciasse
todo o conforto para levá-la, retornaria a Curvelo, no máximo demoraria uns
quatro meses, escreveria para ela sempre, mandar-lhe-ia algum agrado, pulseira,
brinco, anel, correntinha de ouro, brinco, escolheria o que haveria de melhor.
No Rio de Janeiro, casar-se-iam, seria felizes juntos. Confiasse nele. Daquele
dia em diante, Cacá começou a entristecer-se de modo esquisito, muito
esquisito. Passaram-se quatro meses, nenhuma carta, nenhum agrado. Chorava de
ter os olhos sempre vermelhos. Certa fez desmaiou-se no jardim e foi D. Zizinha
quem a amparou e ajudou a caminhar até o quarto de doméstica, o quarto dela
mesma. Podia-se ligar a sua tristeza e o desmaio com a nova vida que lhe
palpitava nas entranhas, e já começava a engrossar aquela cinturinha de gargalo
de garrafa.
De qualquer Edgard, qualquer notícia. Sumira-se de vez, escafedera-se.
Envergonhada, passando cada dia pior, sem dis-posição para o trabalho, Cacá
resolver abandonar o emprego na mansão. Dr. Camargo foi contra, era uma
excelente governanta, considerava-a da família, ajudá-la-ia em tudo que
pudesse, gostava de criança, seu sonho, seu grande sonho era ser pai, não pôde
por Zizinha ser estéril, ser mãe não era vergonha. Para onde iria, grávida, não
podia voltar para casa. Iria ficar na rua? Iria, respondeu-lhe, atrás de Edgard
no Rio de Janeiro. Tinha o seu endereço. Mais loucura ainda. Não tinha garantia
alguma de o endereço ser verdadeiro. Não sabia ela o que era o Rio de Janeiro,
não tinha a mínima noção do que é cidade grande, violência em todos os níveis,
ninguém ajuda ninguém, cada um vive por si mesmo. Não podia ser. Isso ele, Dr.
Camargo, não podia admitir, não iria consentir que cometesse este desatino,
estava desesperada.
Não adiantou a tentativa de Dr. Camargo. Ainda tentou ele convencê-la
com os estudos, sonhava ser professora de História, estava indo tão bem, com
mais dois anos terminaria o científico, prestaria exame de vestibular,
ingressaria na faculdade. Não jogasse um futuro promissor, era inteligente,
capaz, por causa de uma gravidez “inesperada”. Nada. Dr. Camargo ainda tentou a
única chance que tinha em mão. Pedir Mestre Zilú, com que ela tinha relações
amigáveis, conversavam à hora do café da tarde, nas horas vagas estava sendo
rondando a construção, considerava-lhe amigo. Fora ao seu casebre na favela do
Cupim, pedira-lhe que conversasse com ela, dissuadisse-lhe não ir embora, não
cometer desatinos, gravidez sem casamento não é problema, podia continuar
estudando, formar-se, ingressar-se na universidade, realizar o sonho de
professora de História. Mestre Zilú, apesar de saber que a sua interferência
não daria resultados, dis-ponibilizou-se a conversar com ela.
Por minutos, aquiesceu-se com os argumentos de Mestre Zilú, sorrindo.
Sorriso chocho, melancólico. Ainda era sorriso de grande beleza, mesmo triste.
Mestre Zilú sentiu um estremecimento dentro do peito. Despeito e ciúme, certos,
causava-lhe ainda revolta crescente. Enfim, o tempo de mostrar que Cacá
brincara com fogo. O que ela passava era castigo merecido. Porém, agora, era
definitivo. Ela se ia embora e talvez nunca mais a visse. Penso no velho sonho,
suspirou, no dinheiro guardado, refletiu, pensou em Nequinha em São Paulo. Se
Cacá topasse, pegava o que tinha, ia com ela para onde desejasse, até mesmo
para a “infernidade dos quintos do mundo”, isto lhe veio à mente
espontaneamente.
- Lá ninguém conhece a gente, chegamos como marido e mulher, um filho
que vai nascê, algumas economias... Tudo se arranja. Ocê topa, Cacá?
Pela primeira vez, Cacá via no Mestre Zilú um ser humano, solidário,
amigo, compreensivo, terno, carinhoso, capaz de sentir e de praticar um gesto
nobre. Observando bem – ah, como detestava, odiava, tinha nojo e asco deste
veste, era o que Edgard usava sempre, ela usava “reparar”, que ele dizia ser
verbo do povão, cheio de preconceito e inveja – dava para notar que ele nem era
preto: era roxo, e o cabelo, cortado a escovinha, também não era crespo. Quiça
pela bondade que irradiava dos olhos, tinha um semblante bonito.
Cacá estava confusa, perdidamente sem rumo. Voltar para casa em Morro
Garça era coisa fora de cogitação, morrense só vivia para jogar boliche com
garrafa de cachaça e uma berinjela. O pai a mataria de pancadas, era a sua
especialidade de homem, sentia-se orgulhoso de não ter sentimentos alguns, o
pai nada valia, era trabalhador para não mostrar o canalha que era, enfim é o
trabalho que mostra a dignidade do homem. E a vergonha – isto era o que pesava
em si. Aonde buscar forças para suportar tanta humilhação? Seria motivo de
chacota de todos, caiu na lábia de um advogado, foi ingênua, inocente. Confiar
em homem dá é nisto. Sofreria preconceitos de todos.
Acabou concordando:
- Vou, Zilú! Topo ir com você para São Paulo!
Fora a primeira vez que não usou o “mestre”. Chamou-lhe pelo cognome.
Não por simular intimidade – isto não, não era mulher de fingimento, de
hipocrisia, o que sentia, sentia, o que pensava, pensava, não dizia as coisas,
mas as sentia verdadeiramente. O uso do cognome significou apenas que
descobrira estar amparada, protegida com ele, era o seu modo de agradecer-lhe
tanto amor, carinho, ternura, amizade.
- Então, vamos até a praça, onde ocê me espera, tá? É só o tempo de ir
no meu barraco buscar as coisas e a grana que eu tenho lá.
Dr. Camargo e d. Zizinha se sentiram aliviados. Sabiam do amor que
Mestre Zilú alimentava pela moça. Homem bom, honesto, digno, iria sim cuidar
dela com esmero, fazê-la feliz, ela merecia isto. Dr. Camargo ofereceu-se para
levar Mestre Zilú até seu casebre para apanhar as suas coisas. Fez o advogado
inúmeros pedidos a Mestre Zilú, cuidasse de Cacá, não a deixasse passar falta
de nada, fosse o pai de seu filho, nem era preciso dizer a verdadeira
paternidade, o passado deles ficaria em Curvelo, em São Paulo vivessem outra
vida. Mestre Zilú ouvira todos os pedidos de Dr. Camargo, pensando mesmo que
tudo seria realizado, não apenas por ela, também por ele que gostava tanto da
governanta, ajudou-lhe no que pôde por todos os anos que naquela mansão
trabalhara, se estava estudando era por apoio dele.
Apanharam as coisas de Mestre Zilú. Voltaram à mansão. Dr. Camargo
chamou Mestre Zilú em seu casebre. Abriu o cofre. Tirou uma boa quantia,
dizendo-lhe aquele dinheiro era para ela continuar estudando. Quanto a
transferência dela para outra escola em São Paulo, ele mesmo cuidaria disso.
Claro, isto só poderia acontecer depois que tivesse a criança.
Despediram-se com pedidos, desta vez, de D. Zizinha.
Cacá e Mestre Zilú chegaram á praça. Ela sentou-se num banco, com a mala
ao colo. Ele partiu apressado para o morro. Não era longe. Meia hora ou no mais
tardar quarenta e cinco minutos e estaria de volta. Deixava com alguém um
recado para a Dindinha. Quando pudesse, mandava buscar a velha. Num relâmpago,
chegou ao casebre. Havia esquecido o violão que se encontrava sobre o tanque de
lavar roupas.
Instantaneamente lembrou-se Nequinha. A imagem do malandro delineou-se
diante dos olhos arregalados de Mestre Zilú, a quem pareceu ouvir a gargalhada
sarcástica do companheiro desleal. Instintivamente, Mestre Zilú, a quem pareceu
ouvir a gargalhada sarcástica do companheiro desleal. Instintivamente, Mestre
Zilú levou as mãos aos ouvidos como a impedir que um som horrível os ferisse.
Nesta situação, as mãos comprimindo os ouvidos, as feições crispadas como se
sentisse um punhal a cravar-se-lhe.
Saíra correndo com as coisas. Não podia dar atenção ao que estivesse por
acontecer, Cacá estava lhe esperando na rodoviária. Já estava mais ou menos
distante do barraco, ouviu um tiro. Imaginou que fosse o Nequinha que se
suicidara. O corpo caiu no fundo do precipício.
Mestre Zilú chegara à rodoviária. Cacá estava um pouco preocupada. Imaginara
que ele faria qualquer coisa com ela, deixá-la plantada na rodoviária. Não o
fez. Tomaram um lanche no restaurante da rodoviária. Estava na hora da viagem.
Desceram os degraus da escada.
Colocaram as coisas no bagageiro. Entraram no ônibus. Partiram para São
Paulo.
[1] Por vinte e sete anos, sonhei
mesmo escrever um conto inspirado em Sonho do Verbo Amar, do compadre Paulo
César. Na vida tudo depende do tempo de as coisas acontecerem. Enfim,
aconteceu. Este conto é inspirado nesta obra. Quê alegria! Mais uma vez fica o
meu cordial agradecimento por tudo, querido compadre!

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