MÚLTIPLOS TENTÁCULOS FLÁCIDOS - Manoel Ferreira
Julguem-me
ilusionista, o que isto importa? - ilusório, um reflexo de nada, até mesmo um
reflexo baço e ilusório de uma cericória, como desejam alguns que seja assim,
por mais absurda seja esta idéia, por mais verdadeira, questionável, merecedora
de uma pequena atenção, sem fervores nem ardores, não merecedora de qualquer
observação, mas, podendo afiançar e asseverar que a ilusão, o nada consomem a
ilusão e o nada, a cericória consome o reflexo baço e ilusório, por mais que o
contra-senso se revele, de imediato, diante de uma afirmação até sem sentido
algum, “a ilusão e o nada consomem a ilusão e o nada”, havendo sim, mas nas
entrelinhas, deixe-me dizer logo; isto querendo significar o caminho sem
margens continua sendo virgem sob os pés, quanto mais ando, tenho de andar mais
ainda, sem andar sou é nada.
Pensem sou o
que desejarem pensar, não me importa um mínimo que seja, deixo de mim o que
faço e fizer, sou o único responsável, disto não tenho qualquer dúvida, ou
indecisão que seja, de que vou deixando a obra a cada passo que dou nesta
estrada em direção ao horizonte, não fora por menos que me definiram como o
viajante da ressurreição.
Andei por
inúmeros lugares exercendo uma profissão que só muito pouco diz respeito à
individualidade, passando por experiências não eram necessárias, sem me sentir
realizado, dando sentido à vida, de que tanto carecia, careço ainda, mas não
havia perpassado o íntimo que a liberdade depende sobremaneira da “terra da
liberdade”, onde com empatia e identidade os sonhos seguem a trajetória, o
itinerário da realização à busca da realidade. Custou a passar o que me estava
reservado, romper o destino que consenti os outros decidiram por mim, mas
surgiu o instante em que pisei os pés na terra da liberdade e as coisas
começaram a ter sentido, legaram o benefício e o privilégio da consciência, de
que poderia encontrar a felicidade a que estou vocacionado.
Atrás da
esperança não há senão a esperança. No silêncio absoluto, as palavras de
outrora estremecem de insanidade, o silêncio estala a minha boca como uma
pedra, estala-me os ossos. Toda essa água que anuncia Deus é isso mesmo – um
anúncio, do que jamais foi, na pálida auréola do ar, das casas silenciosas, da
copa das árvores ao longe, raiadas de pingos de chuva, quando o silêncio é tão
profundo que me ouço ser. Há um instante
em todo esse sentimento em que deve estar todas as coisas nascendo – há um
momento não sei quando.
De novo me
assalta a presença obsecante de mim próprio, esta enorme presença, esta coisa,
isto que mora comigo, que é absurdamente vivo, independente, que desaparece,
que retorna, num jogo de reflexos em que me vejo, perscruto-me, me sinto
“eu”... Escuto por trás das palavras o chiste, o achaque, a ilusão, o espírito
galhofeiro da demência dando risadas a plenos pulmões.
Aliás,
lembrou-me bem nítidas as palavras de um amigo muitíssimo íntimo, não há como
dizer somos isto ou aquilo, por sermos muitas coisas juntas. Dissera-me este
amigo de nada adiantar mudar o fosso de lugar, tinha de mudar a visão deste
fosso. Guardei bem íntimas as suas
palavras, embora não entendesse bem o que estava a dizer, a significar. O tempo
mostraria, com efeito, o sentido que estava nas entrelinhas. Felizmente,
encontrei.
Acrescento que
somente a liberdade não me seria suficiente para prosseguir dando sentido à
vida, é necessário também o amor, aprender a amar os dons e talentos que me
foram doados gratuitamente, amar as capacidades e possibilidades, amar a visão
de mundo que fui estabelecendo ao longo do tempo, ao longo da vida. Seria
necessário, obviamente, para unir a liberdade e o amor nesta “terra de
liberdade e amor”, reconhecer que me era preciso ter consciência de quem
represento. Nada se torna possível sem a liberdade, o amor, a consciência.
Nem de longe,
sinto-me que está aí, vivo-a a todo o momento, a felicidade, há muito solo a
ser trilhado, também assim o desejo, até que me sinta um seu habitante, dizendo
de dentro dela, revelando-a a todos os ventos de entre as montanhas e serras.
Sigo consciente de que a busco com muitos fervores e ardores, e não canso de
continuar a viagem felicidade adentro.
Há quem, tantos
há poucos, que podem isto compreender, entender. Não me refiro às experiências
particulares, singulares, apesar de serem parte constituinte, mas isto somos os
homens todos, sem andar somos é nada, é nossa responsabilidade, é
imprescindível que construamos nossa vida no mundo, deixemos nossos passos e
traços, mostremos os nossos caminhos do campo, o solo que decidimos trilhar.
Não me estou nas tintas para quem assim não pense, sou apenas quem sente e
pensa deste modo, a realidade humana está longe destas idéias e pensamentos.
Roguei, de antemão e revezes, as devidas desculpas. Mesmo assim, trata-se de
quem sou neste mundo, o que nele represento, há muitos mistérios e enigmas de
por baixo deles, pensando que auxiliem e contribuem para o encontro da
realidade humana. (
Por que estaria
eu a responder a esta ou àquela questão a mim apresentada, envolvi-me com esta
ou aquela fala, discurso, opinião, ponto de vista? Deus, o que isto, em
verdade, pode me afetar de algum modo, não o sei, e se houver, peço-Vos que mo
indique, mostre-mo, estou aberto para mudanças e transformações; sei que o
caminho sem margens continua virgem, puramente virgem, e, assim dizendo, quero
sublinhar que assumi o destino que criei para mim, considerando o histórico de
vida, as experiências vividas, caso contrário, estaria sim negligenciando,
denegrindo a imagem do vivido, fugindo das responsabilidades primordiais de
encontro com a Vida a que tanto aspiro. Não mais importa a incompreensão, a rejeição,
o preconceito, tornei-me consciente de quem represento neste mundo, e assim
sigo andando em direção ao encontro. De que? De quem me tornei no mundo com o
que construí.
Não necessito,
em hipótese alguma, a mais remota condição possível e impossível, de responder
a esta visão de mundo, aquele ponto de vista, ainda que tudo tenha sido sem
sentido, algo tive a pachorra e cretinice de construir, só o tempo indicará a
profundidade, mesmo só minha, mas, com certeza, indicará a imagem do rio sem
margens que decidi trilhar, único modo de construir valores e sentidos, a vida
que me fora legada gratuitamente, dei um preço a ela, o debruçar nestas idéias
e interpretar as situações e circunstâncias, traduzir os sonhos.
Por que não
teria a pachorra e empáfia de afirmar que os psicólogos, terapeutas, analistas,
três, em verdade, disseram a mesma coisa: felizmente, isto de ser consciente
dos dons e talentos que recebi de Deus gratuitamente, isto de com eles haver
determinado e estabelecido as trilhas do campo a serem seguidas, ajudaram-me
sobremodo. Não fossem a consciência, a decisão, com efeito, ou estaria
internado em uma clínica, por desequilíbrio mental, ou estaria numa
insofismável indigência neste mundo. A eles respondi com todas as letras
possíveis e impossíveis, pedindo-lhes os verdadeiros compreensões e
entendimentos pelas letras, que também disto estava muitíssimo consciente, o
que me restava ainda aprender é como empreender os sonhos todos que me habitam
a alma, superando assim as dificuldades, necessitava aprofundar-me ainda mais
no interior, arrancando de dentro quem represento.
A necessidade
de me escolher na “movediça fronteira da lembrança e do esquecimento”
identifica-se com a perseguição-perseguida que sou. Estou aqui a tratar de uma
escolha, essa escolha como a faço indica em geral outras escolhas como
possíveis. Vivo-a com o sentimento de injustificabilidade. O valor – até me
sinto muito confortável no mundo, pensando deste modo, mas não o posso
negligenciar, por ser parte constituinte dos sonhos que dentro em mim trago –
encontra-se em toda parte e em parte alguma. Vivo como significado concreto da
carência, da falta, da ausência, que constituem meu ser atual.
Não tenho de
responder a questão alguma, excelente que ma apresentem tão abertas quanto possam,
inspiro-me nelas, construindo outros rios sem margens, rios que só existem na
imaginação, na intuição. Tanto melhor. Se tenho a habilidade, perspicácia de
transformar o que imagino em sonhos e utopias, tomando-os em mãos, buscando
então a realização deles, o que justificaria não assumir estes rios que só
existem na imaginação? Nada justificaria, ademais por sempre me haver
identificado com a água, com os rios, e, seguindo-os, caminho em direção a algo
distante, às vezes distanciando-se na medida em que me aproximo, o que
justifica toda a empreitada. (
A noite se
estende como um sudário, murmurando palavras, sussurrando vozes roucas e
altissonantes, o olho esquerdo de soslaio, o direito de esguelha, contemplando
os horizontes de nada, as fisionomias humanas apagadas, encerradas de ironia,
de cinismo, de sarcasmo, pornéia, a respiração lenta e comedida; estou a conter
as dores todas que se me assolaram a alma neste momento em que investigo com
cuidado as espiras dos espirais seguidos, e busco salvação do modo mais simples
que conheço e reconheço ser eficiente, o do pensamento e das idéias, deitado à
rede, a luz apagada de todo, a não ser a do poste de frente à residência – quem
sabe, bem no íntimo, não esteja desejando todas as luzes da cidade inteira estivessem
apagadas, por alguns momentos, aquando teria de criar uma luz - fumando um
cigarro, já está na guimba. É só espremer no cinzeiro, apagando-o. Não o faço,
contudo; deixo que se apague sozinho. Aliás, só muito poucas vezes pratico isto
de apagar a guimba do cigarro no cinzeiro. Se há palitos de fósforo, exala um
odor muitíssimo desagradável.
Ademais, desde
que pisei nesta terra de liberdade e amor, dois anos, não me lembra de uma
única vez em que estendi a rede no alpendre, deitando-me, lendo um livro. É a
primeira vez que o faço, reconhecendo sim ser uma excelente experiência esta,
abre-me a possibilidade de dar asas ao pensamento, de estabelecer algo que não
esteja sendo visível em outras situações e circunstâncias. Fi-lo até mesmo aconselhado pela terapeuta,
estar na varanda de minha residência, encostado ao corrimão, dando asas a todos
os pensamentos, vivenciar o nada que isto em verdade é.
Há um lugar a
uma certa distância de onde me encontro, a caminho da igreja de São Pedro e São
Paulo, de onde, vista através de uma fresta das folhas e galhas de uma árvore,
uma luz se mostra envolvida em uma nuvem, especialmente aquando durante o dia
chove, com que me identifico sobremodo. Perpassa-me o íntimo ser ela o símbolo,
a metáfora, o signo de que posso vislumbrar a vida, as buscas, até reconhecendo
nelas algumas dimensões que poderei acrescentar nas já absorvidas, nas já
tornadas raízes, seguindo a caminhada.
Andar o único
caminho sem margens para a imortalidade, mesmo que esta, às vezes, mostre apenas
uma ilusão, um reflexo baço e quimérico, fruto de má-fé e fuga, isto receio no
mais fundo do espírito, isto rejeito vez por todas, e talvez todos os
propósitos e interesses sejam de superar e transcender estas ignomínias. Não as
nego – tendo-me tornado consciente delas, esta mesma consciência ensinou-me a
buscar soluções reais e imprescindíveis, e felizmente posso ver e contemplar o
nível em que me encontro nele, o que me mostra obviamente o quanto houve
transformações, e agora o que importa é seguir este caminho.
De que vale
transcendê-los em nível das letras? Valor algum tem. Amaria fazê-lo na vida
mesma, embora para isso tivesse de empreender mudanças as mais radicais,
metamorfoses as mais esquisitas e estranhas, até me desconhecendo, não havendo
qualquer reconhecimento de características anteriores, um outro homem, um outro
indivíduo. Sou qualquer coisa que surge e que se apaga não sem antes haver
esboçado as nervuras de um futuro sempre novo, sempre inusitado, e sempre
recomeçado. A minha capacidade de felicidade depende de um certo equilíbrio
entre o que a infância me recusou e aquilo que ela me legara. Enquanto
reconheço todo o peso das dificuldades e das agressividades, significa um ato
de equilíbrio imensamente difícil sobre um fio de arame, sob o perigo constante
de me precipitar e romper em dois.
Referi-me aos
profissionais da psique, da inconsciência, com quem tive o prazer e alegria de
mergulhar cada vez mais no íntimo à busca da coincidência comigo. Também são
unânimes em dizer que aprendi a amar os talentos e os dons, mas não aprendera
ainda a amar-me, sem dúvida, as
agressividades vividas na infância contribuíram muito para esconder as emoções,
os sentimentos. Torna-se necessário trazê-las à superfície. A natureza não dá
saltos, estou realmente disso convencido. Ao longo do tempo e das experiências
tudo isto virá à superfície. Não crio ansiedades e expectativas. Deixo
acontecer com espontaneidade.
Criança é
mistério humano vestido de ternura. É o grandioso escondido no pequeno. O
consistente abrigado na fragilidade. O longo amanhã encolhido no hoje. O
original ainda não visto, ainda não dito, ainda não encontrado. O humano com
mais interrogações do que respostas. O núcleo de vida que vale mais do que todo
o universo físico.
A criança
condensa a essencialidade humana. Não é apenas promessa de homem. O que lhe
falta é desenvolver-se, é amadurecer. Toda a densidade do homem está pulsando
na criança. E, ontologicamente, ser pessoa. Não bastam visão psicológica e
percepção moral para compreender a criança. É precisa vê-la como "clareira
do ser". Há que reconhecê-la como pólo do mundo, centro da história. Não
pode ser reduzida a elemento cósmico, a filamento social, a objeto lúdico. É
"Parousia" antropológica. É a manifestação do ser que está chegando,
no ser que já chegou.
Se soubesse eu
o significado e sentido do amor!... Nem seriam somente lembranças e
recordações, instantes felizes e alegres, fontes de água límpida, momentos de
inteira realização. Seria a luz que brilha, trazendo na retina o horizonte de
além, na íris a metáfora da fonte originária. (
O orvalho cai
sobre a erva no momento de maior silêncio da noite. Tudo é silencioso. Até onde
se elevam os meus píncaros?! Há uma volúpia no deserto. Afigura-se-me há um
gosto suave no calar-me. Encho a boca de um gosto de mel e de deliciosa
amargura. A solidão, nesta varanda do paraíso, é um bálsamo para o meu coração
sempre fremente, que transborda ao frio exuberante do inverno.
O que estou
pensando é exigente – a mesma exigência como se estivesse escrevendo. É a
maneira precisa como capto os pensamentos, as palavras, no correr da atividade
criativa que faz deles o que são; são potencialidades, são dons, são talentos
que precisam com urgência ser realizados. Simplesmente sinto a tração que
exercem, sinto a exigência objetivamente. Vejo-os realizando-se a si mesmos e,
ao mesmo tempo, exigindo mais sonho, mais utopia, mais realização. A exigência
dos pensamentos, das idéias, das palavras que vou traçando, vou estabelecendo
nas linhas, estão de imediato presentes, densas e palpáveis. Impulsionam e
dirigem os desejos, as vontades, as intuições, percepções, a mão.
Aliás, tão logo
me levantei pela manhã, comentei com a minha senhora haver sonhado que estava
atravessando de um prédio a outro numa altura bem elevada num fio de arame.
Tive muitos medos, mas soube controlá-los, o mais importante nesta aventura é
não olhar para baixo. Não se assustou ela um pouco sequer. Enfim, o sangue
circense corre nas veias, descendente direto de circenses. Indagou-me se atravessei
de todo ou se acordei antes de concluir a aventura. Respondi que atravessei, e
também não me podia conter de tanta felicidade e alegria, ria a todos os
ventos.
Dizia Homero
que à “beira do mundo” é que mora a felicidade.
De acordo com o
sonho dito, a felicidade se encontra nas alturas, sendo elas um símbolo, um
arquétipo, uma metáfora do espírito, dos desejos e sonhos que o habitam, são
dele parte constituinte. Não há dúvida de que também significam estas alturas
as espiras caminhadas em direção à vida, o espírito que vai atingindo outras
dimensões.
Em verdade, não
me lembra se, em algum outro momento de minha existência, tenha sido eu tão
estranho e esquisito quanto nas últimas três semanas. Talvez o sonho tido por
mim, datado de após o aniversário, segunda metade de julho, se não me engano há
oito meses, não me preocupo com contar nos dedos a precisão exata, tenha
exercido uma forte influência nos meus estados de espírito. Dizendo respeito a
meses do ano, se necessito de avaliar os meses entre o presente e a situação
devida, sempre o faço com os dedos. Um hábito que tenho desde tempos
imemoriais, não me deixando esquecer deles, de modo algum, os amigos ficam
admirados com esta habilidade de guardar datas disto e daquilo, até mesmo de
coisas não se lembram eles. Há quem não saiba aquando se casou no civil. Sei
desta data, estive presente na comemoração.
A memória
apresenta-me o ser que sou, acompanhado de uma plenitude de ser que me confere
uma espécie de poesia.
Há uma
dificuldade nunca conseguida contornar. Pergunto-me todos os dias que dia do
mês é, esperando responder de uma única vez, coincidindo com o dia exato, e
isto é extremamente difícil. Quando não respondo a data de dia anterior, bem
anterior, respondo a data de dia ainda longe de o ser. Irrita-me estar
questionando isto sempre. Creio que só terá fim quando o fizer exatamente
várias vezes, não apenas poucas.
Em direção ao
infinito, águas re-colhem de nossas vidas o húmus de recordações, lembranças,
simples, que preenchera os vazios esplendorosos do olhar ensimesmado e triste
por cima dos acontecimentos inenarráveis, indescritíveis. Rumo ao eterno, águas
acolhem de nossos prazeres a alegria de instantes, a paz de entregas e mortes,
desejando a felicidade que afagamos no íntimo. Resta olhar o acinzentado do dia
de chuva, a certeza, quem sabe, de erguer uma taça ao som de silêncios e vozes
que percorrem o espírito, desejando o paladar da alegria e realização.
Não é absoluto
preciso, nem mesmo imaginável e desejável, tomar partido de meus interesses e
achaques: ao contrário, uma dose de curiosidade e bestialidade, como diante de
um oponente frágil e taciturno, com uma resistência irônica de não assinar ou
endossar a nota promissória que me apresenta, parecer-me-ia um comportamento e
postura incomparavelmente mais sutil e inteligente em relação a mim.
Diziam-me na
infância de alguém que sabia quantas cabeças de gado havia num curral por
apenas contar as suas patas. Ao final, dividia por quatro esta quantia. Quantas
cabeças. Infernizei a mamãe por algum tempo, no sentido de ela me explicar como
isto era possível, e se ele repetisse as patas de alguns bois, não confundisse
ser de outra, tendo já contado aquela em específico. Não obtive respostas.
Imaginei então que me era possível lembrar de circunstâncias e situações,
guardando as datas. Contudo, tive de esforçar um pouco para também memorizar as
situações, circunstâncias, os estados de espírito e de alma, angustiado,
triste, alegre, feliz, coisas neste gênero.
Sonhara que uma
mulher, de estatura um pouco acima da mediana, vestido longo, olhos grandes e
azuis, caminhava em minha direção. Fixei-me nestes olhos grandes e azuis, a
beleza deles deixou-me extasiado e exultante. Antes de passar por mim, quase
estando ombro a ombro, olhou-me dizendo: “Existência”. De modo irônico,
respondi-lhe que sim, se não fosse a existência, iria naquele momento pegá-la.
Passou por mim, dizendo o mesmo: “Existência”. Não repeti o que havia dito.
Virei-me. Fiquei a olhá-la distanciando-se, distanciando-se. Não me lembra o
que estive a sentir neste tempo em que se distanciava. Se houvesse um espelho
em que refletir a imagem, tenho a certeza de que iria deparar-me com um brilho
intenso nos olhos.
Talvez tenha
aquela convicção de todos os homens de que é necessário viver para a morte ser
em sua plenitude, é necessário morrer para que a vida seja em sua sublimidade,
de que isto leva a sofrimentos e dores ainda maiores, talvez a desarmonias e
proscrições. Talvez – disse-o bem. Disto não tenho quaisquer convicção,
certeza. A intenção é de esclarecer, elucidar, para mim quem amanheceu de todo
perdido, pensando: “Hoje, ainda sou nada. Fui ontem ou anteontem”. Como a isto
denominar: angústia, depressão? Quem sabe nada disto, depressão ou angústia,
mas a vida em sua expressão mais profunda, estar buscando coincidir com quem
sou. Os projetos particulares que viso à realização, no mundo, de um fim
particular, estão reunidos no projeto global que sou. E a existência, sim!...
Terei, sem
dúvida, se o desejo é de andar o caminho sem margens, de trilhar as sendas em
direção aos horizontes mais distantes, e, nalgum lugar, olhando para o lugar de
onde saí, nada mais reconhecer, de multiplicar as ambigüidades, dubiedades,
multiplicidades, complicar mais os mistérios da morte eterna, enigmas da vida
imortal. Que sou senão o paraíso perdido: uma sorte insana, imerecida, oferta
gratuita, transformo-me, após a queda, em adversidade, despovôo o mundo,
desencanto-o antecipadamente.
Resta-me
fazer-me até o fim, qual o acontecimento me tem feito. Buscar a idade de ouro.
A minha arcaica ingenuidade forjando a partir daí os meus mitos e aquilo a que
poderia chamar mais tarde o meu “estilo de vida”. Espanto-me, tudo
antecipadamente jogado, e, no entanto, continuo. Por que levar uma vida desqualificada por ausências?
E que é afinal viver?
Apresenta-se-me
de novo a questão de, em hipótese alguma, a morte me incomodar, deixar-me
angustiado. Convivo muito bem com ela. É parte constituinte da vida, não uma
questão natural. O que me incomodava sobremaneira era morrer sem haver
realizado um único sonho dos inúmeros que habitavam a alma, o espírito. Atribuo
este incômodo ao fato insofismável de, desde que me entendo por homem, ouvir as
pessoas dizerem sobre pessoas que passam a vida em brancas nuvens, nada realizaram
no mundo, isto ser inconcebível, é preciso dar um preço a ela, preço que
ninguém esteja disposto a pagar.
Com a mão
direita, deixando o livro sobre o peito, toco a parede, dando impulso à rede,
balança de um lado para outro. Fecho os olhos. Dou margens ao espírito de se
abrir por inteiro, habitado de imagens, fantasias, emoções, sentimentos,
quimeras, solidões, e tudo o mais que se possa em sã consciência dizer como
seguimento.
Talvez tenha
aquela convicção de todos os homens de que é fundamental que exista a
imortalidade da alma para que a vida encontre a sua redenção, a sua
ressurreição, enfim atinja o Reino de Deus, vez por todas. Terei de recolher no
presente os instantes de sonhos e ideais que estendem os braços em sintonia com
as pernas, buscando encontrar o torvelinho de inocências, de ingenuidades, de
purezas. Terei de recolher no futuro a vida inteira dos desejos abertos e
dilatados, para chegar, quem sabe, a morrer todas as mortes.
“Quem sabe” é
até um modo muito ruim de falar. A meta está de fato dada nos desejos abertos e
dilatados, e não seria eu assim tão estúpido de continuar para sempre abrindo e
dilatando os desejos apenas para morrer todas as mortes. Rio-me do que acabo de
pensar. Interessante, mas sem sentido algum com as idéias que venho expondo.
Quem sabe tenha sentido, mas no instante não o posso contemplar, vislumbrar.
Ainda é necessário trilhar algumas veredas até que a isto possa responder.
Desponta,
através da vidraça, a manhã - toda a serena, nítida e sorridente sabedoria de
que é dotada, embalada pelo vento, destino cuja simples intensidade seria a
experiência de júbilo. Aqui estou eu diante da singela escolha entre um
espírito leve e uma saudação amigável.
Em verdade,
pouco falta para que chegue a estes grandes píncaros. Como hei de
atravessá-los, salvando a luz e o fogo que me habitam? Como deveria agir para a
luz não se extinguir nalguma melancolia, nalguma nostalgia, enfim ela só pode
continuar a sua caminhada se houverem sombras à frente. Deve ser esta luz de
mundos afastados a iluminar as noites, madrugadas, dias mais remotos.
Se em todas as
transformações, no derradeiro instante de consciência, o bastante próximo para
saborear, ao compasso de música antiga – o grito antigo indubitavelmente cai no
abismo, e dele não se terá qualquer lembrança, - brilha um momento e se esvai,
para a continuidade deste caminho que me conduz cada vez mais à busca de união
de todos os ideais e sonhos.
Nos locais em
que os vales são mais estreitos e elevados – muito embora, às vezes, o clima da
tarde não esteja sereno aos olhos que clamam a com-preensão e entendimento,
creio que nunca, por mais dispersos, ou sofredores, ou reduzidos à face da
terra que estejam, foram menos belos do que hoje, aos olhos dos homens. Ando
entre os homens, os indivíduos, como pelos vales e prados que me levam aos
píncaros, estes píncaros que o olhar contempla e vislumbra, os pensamentos e os
ideais, as idéias e os sonhos unem em uma só visão e desejo o que é mistério,
enigma e espantoso êxtase.
Nos locais em
que os vales são mais estreitos e elevados, abrigam-se casas de arquitetura
simples, janelas de guilhotina, por vezes sombreados pelos coqueiros, belos
carvalhos verdes, um pé de flamboyant. Como haveria eu de ser poeta, de clamar
ao gelo de meus píncaros as velas acesas de por trás da janela, olhando-me e
investigando ao longo do tempo de modo lento e vagaroso, sem pressas e sem
ansiedades, as mesmas velas acesas no castiçal sobre a mesa de trabalho,
perscrutando-me os mais profundos desejos de redenção e ressurreição, de
liberdade, [por que não também de sublimidade?]?
Para os olhos
de ambas as velas acesas, tanto as que clamam ao gelo de meus píncaros as velas
acesas de por trás da janela, como as que perscrutam os mais profundos desejos
de redenção e ressurreição, a beleza e o resplendor são a vista deles unidos ao
crepúsculo divino de todas as ilusões e quimeras, sonhos e fantasias,
imaginações e utopias, são a vista deles unidos às alturas e às profundezas do
abismo.
Justo sóis Vós
e pleno de compaixão, misericordioso sois Vós e absoluto em Vossa
solidariedade. Da morte, libertaste-me a vida, protegeste-me os olhos contra o
brilho desesperançado. Fazei-me entender que as dores e dúvidas são gestos de
amor pelos quais a firmeza da fé e a constância da esperança proclamam a
verdade.
Esperava
servir-me de Vosso êxito para Vos demonstrar – seguindo os imensos parques que acompanham o percurso do rio, tudo isso
nos deve elevar o pensamento ao céu, de modo tal que teremos mais forças e ânimo para preencher a nossa vida - a vocação que se dirige a todos os que
estamos em Comunhão com a fé e a esperança, a proteção e a harmonia. É glorioso para o amor ver cair as folhas à
medida que amarelecem. A rocha, sobremaneira nivelada pela erosão e coberta de
espesso leito, forma vastas pradarias inundadas, sobre as quais se estendem,
quase sempre, reduzidas ondulações.
Ainda tenho
tempo. É bem verdade que não sei quanto, mas o fato de existirem segundos,
minutos, horas, dias e até mesmo anos esperando sua vez de nascer para que nos
encontremos com eles, coloca-me na posição de possibilidade. Algo ainda pode
ser feito, construído, o rumo da vida pode ser alterado, posso superar o meu
destino, e sou-Vos grato por isto. O que faço do tempo que ainda me resta
definirá minha existência! A estes instantes, não tão efêmeros quanto possam
sugerir e até serem, que seguram meus olhos a estas palavras, chamo-o de
encontro, que é uma das expressões da possibilidade. Unindo o que penso, posso
ver a vida como o tempo e o lugar do encontro. Grande ou pequeno, fugaz ou não,
será sempre o resultado daquilo que houver feito ou o que deixei que fizessem
de mim.
A sagrada face
é a do outro. É a passagem da solidão para a comunhão, a companhia... Não é
suficiente um jardim para fazer o homem feliz. Ele precisa de alguém para
dividir o olhar, o sentimento, a afeição, suas alegrias e preocupações. Como é
importante a presença do outro na vida.” Não menos importante é perdoar as
presenças que não nos fizeram bem, que desarrumaram nosso lar, abrindo feridas
em nossas emoções... E por certo, Senhor, convém lembrar com esmerado carinho
das pessoas que há muito tempo estão do nosso lado, preenchendo nossos vazios,
ajudando-nos a superar solidões e carências. São pessoas que merecem de nós
muito mais que só cobranças, merecem nossa misericórdia e compaixão.
Nos locais em
que os vales são mais estreitos e elevados - muito embora, às vezes, o clima da
tarde não esteja sereno aos olhos que clamam a com-preensão e entendimento,
creio que nunca, por mais dispersos, ou sofredores, ou reduzidos à face da
terra que estejam, foram menos belos do que hoje, aos Vossos olhos. Nos locais
em que os vales são mais estreitos e elevados, abrigam-se casas de arquitetura
simples, por vezes sombreadas pelos coqueiros, belos carvalhos verdes, um pé de
flamboyant.
Situado na
parte alta do sul da cidade, num ponto arborizado sobremaneira bonito de onde
se avista a distância suficiente para parecer pitoresca. Fico pensando num
mundo resplendoroso, cheio de graça. Sonho com ele, não como um visionário, mas
como quem nele mesmo acredita. Como quem sabe e dá a acontecer que diante de
Jesus, Vosso Filho e Nosso Senhor, não há quem possa viver indiferente. Pois
sois Vós quem coloca em ordem nosso lar e nossa espiritualidade, nossa natureza.
Tendes o poder de tirar nossas doenças, de erradicar toda a forma de mal,
estabelecendo uma feliz harmonia em nossas vidas.
Esse amor é
travessia serena – quem pode ofertar estrelas ou fazer de si mesmo
oferenda?!... Sem ele, abominaria o verbo que se faz carne, e ainda que o resto
do caminho até o ocaso fosse inteiramente desfigurado, o cerne desta vida é
nobre, tem feição e estirpe, gira em torno das estrelas.
Resignado, tomo
meu copo de vinho, olho fixamente para as mãos, vejo Moisés subindo ao Monte
Sinai, um herói adusto numa adusta confusão de enredos, e vejo como Jeová lhe
foi transmitindo entre trovões e relâmpagos os dez mandamentos, ao passo que
seu indigno povo erigia o bezerro de ouro aos pés da montanha e se entregava a
regozijos sobremaneira desnorteados.
Ensinai-me a
responder pela vida, com vida e na vida. Amém.
O sonho
liberta: que há de desejar o próprio sonho para se ver livre de todas as
aflições, ansiedades, interesses e zombar da sombra do carvalho que o cobria
desde toda a eternidade. Situado na parte alta do sul da cidade, num ponto
arborizado sobremaneira bonito de onde se avista a distância suficiente para
parecerem pitorescos os píncaros, os abismos, os vales. A lua lá no alto. Nos
últimos cinqüenta metros da subida, o vento não consegue desprender um único
grão de areia branca, pois a caminhada é sobre sólida rocha. Abaixo de mim há
uma descida íngreme, coberta por uma névoa banhada pelo lugar. Do outro lado a
montanha se ergue bruscamente, os dentes irregulares do espinhaço recortados
contra o céu. Lá no fundo, é escuro, com uma vegetação densa. O esforço não
significa em hipótese alguma nem santidade nem canalhice, o absoluto me é
intragável, quero certamente servir a Deus, mas também me entregar à volúpia,
ao clímax, ao êxtase, quero ser virtuoso, igualmente usufruir o conforto, a
comodidade sobre a terra.
Realizar em mim
toda a síntese da humanidade, de todos os relógios de tempos, num só segundo
múltiplo, ambíguo, perdido, profuso, completo e distante, seja um sonho de
criação que me deixa a sentir tudo de todos os modos e meios possíveis,
conquistar aquela parte de minha afeição que confino com a melancolia, a
nostalgia, a saudade, o encontro e o desencontro, a realização e a
impossibilidade...
Aqui nestes
píncaros, onde o espírito se reflete, só há três fontes, dentro de cada uma
destas fontes, há uma outra fonte. Há novos rios, há novas águas límpidas, há
outros dias tranqüilos e calmos, singelos e deliciosos. Bebo o vinho num cálice
sem coisa alguma escrever com a língua, ouvir com os lábios, beijar com os
olhos. O entendimento não é um acúmulo de razões e motivos, de conhecimento. A
consciência tem sonhos, utopias, ideais. Creio, ó meu Deus – e talvez só Vós
podeis dizer com que sinceridade penso nisto -, a vida serem desejos e sonhos,
utopias e quimeras, a verdadeira realidade não tem desejos e vontades, a vida
sejam desejos e vontades.
Não preciso de
raciocínio onde tenho pés a sentir as rochas e pedras.

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