CIDADE DE PÉS JUNTOS - Manoel Ferreira



Bons dias!
Aquando a semana passada, quarta-feira, calcava a terra do cemitério de coturno, debaixo de uma chuva fininha, batido do vento que torcia as árvores, lembrou-me outra ocasião, já bem remota, em que ali fui levar um amigo com que trabalhei, na infância, numa oficina de bicicletas, gerente, o proprietário era funcionário do antigo Banco Hipotecário.
Nunca me houve esquecer aquela triste noite, jamais me haverá de esquecê-la. A morte de Paturi, seu apelido, em verdade José Bento de Jesus, foi súbita e inesperada. Odiava ser chamado de Paturi, seu apelido, pato do mato, por causa de seu andado semelhante à ave, mas era assim chamado, ninguém sabia seu nome verdadeiro. Na cruz do cemitério, está escrito (Paturi), entre parênteses, seguido do nome verdadeiro, quando o comum é ao contrário. Prestes a ser transportado para o esquife pareceu a um amigo e médico que o óbito era aparente, um caso possível de catalepsia. Muitas pessoas no passado foram enterradas vivas. Dizem que a nossa cultura da aparência – está para existir no mundo outra cidade cujas pessoas, a grande maioria, só vivem dela, anônimo metido a celebridade, pobre com panca de ricaço, analfabeto arrotando intelectualidade – adveio do óbito aparente das pessoas. Para não serem enterradas vivas, o óbito não ser aparente, cultivavam a aparência em vida, acreditam que sendo a vida aparente, a morte será verdadeira.   Crença ridícula ou verdade, fato é que o número de óbitos aparentes diminui bastante ao longo dos últimos cinqüenta anos.
Não se podia publicar essa esperança débil, em tal ocasião, quando todos estavam ali para conduzir um cadáver; por haver adquirido fama na oficina de bicicletas, conquistado a simpatia de todos os clientes, com seu jeitinho de malandro honesto, sua prosa jocosa, suas crônicas de mendigos e prostitutas varridas de pedra, o velório durou vinte e duas horas. Havendo desconfiança de catalepsia, é preciso esperar vinte e quatro horas, após a morte, para confiar a desconfiança; os lábios de Paturi já estava roxos. Calou-se a suspeita, e o féretro, assim que fechado, lágrimas de amigos e parentes, cabeça baixa de outros, veio trazido ao cemitério por seis pessoas, três de cada lado, uma cem pessoas atrás seguindo, algumas chorando, outras conversando sobre a vida de Paturi, relembrando de suas crônicas, seu jeitinho de malandro honesto, morrera com oitenta e cinco quilos, uma bola por medir apenas um metro e sessenta e dois centímetros.
Não podeis imaginar, leitor, a sensação que dava aos poucos que sabiam da desconfiança de ser um caso de catalepsia, de na caminhada de sua casa nos fundos da Bela Vista ao cemitério, quarenta minutos em passos lentos, ouvirem Gritando: “Não estou morto. Tirem-me daqui”, os acompanhantes correndo em disparada, gritando que Paturi tinha se livrado da morte. Por que as pessoas têm tanto medo de um defunto levantar-se do caixão? Deviam ficar alegres e satisfeitos, enfim o amigo ou parente, companheiro, vai continuar vivo, estar presente na vida delas. Talvez por morto que levanta do caixão não ser quem continuará vivo, ser fantasma. Confesso jamais haver entendido este medo. Explicaram-me certa vez que este medo advém de Lázaro, era leproso, fazia alguns dias estava morto, já fedia, quando foi ressuscitado por Jesus Cristo, as pessoas que o esperavam  de fora da tumba tiveram medo dele, e isso ficou no inconsciente das pessoas pelos séculos a fora, o que achei absurdo. Para mim, foi não haver sido aceite no céu, o céu é para os homens de princípios simples, humildes, condutas humanas, posturas solidárias e compassivas, sofredoras e discriminadas, nada disso fora, deu um jeito de fugir ao encontro com Ferluci, voltando ao mundo. No cemitério, feita reservadamente a encomenda a Deus, com as últimas orações, foi o caixão deixando na responsabilidade dos coveiros: ninguém quis ver a descida do esquife na sepultura, ninguém esteve disposto a encher a mão de terra e jogar sobre o esquife, ninguém quis assistir ao coveiro enfiar a pá na terra e jogar sobre o caixão. Óbvio, parentes e amigos abriram o caixão para a última visão do cadáver de Paturi, a imagem que lhes ficaria por sempre na memória.
O estado  do corpo ainda era o mesmo; os olhos, quando se lhes levantavam as pálpebras, pareciam ver o vazio de tudo, o médico e a irmã de Paturi fizeram isto, não estavam convencidos de que estava morto que era um caso de catalepsia.
Paturi fora homem honesto, digno, cumpridor de suas responsabilidades, fiel e leal às suas verdades, homem de fé e esperanças verdadeiras, odiava a hipocrisia, revelava a todos, em suas relações, pensamentos e sentimentos verdadeiros. Podia ser que, devido à sua integridade humana, a morte lhe fosse aparente. Os sinais definitivos da morte seriam revelados mais tarde.
Saí do velório antes deles. Eram certo de oito horas da noite, morrera às onze horas da manhã, quando montara na bicicleta para mostrar ao cliente que os nós da corrente haviam sido trocados, podia pedalar à vontade, não soltaria, fora apertada a critério. Dera duas pedaladas, caíra duro. Não havia chuva como semana passada, nem lua, mas a noite era clara, e as casas brancas da necrópole deixavam-se ver muito bem, com seus ciprestes ao lado. Descendo por aqueles renques de sepulturas, cuidava na entrada da esperança em lugar onde as suas asas nunca tocaram o pó íntimo e último. Cuidei também naqueles que porventura houvessem sido, em má hora, transferidos ao derradeiro leito sem ter pegado no sono e sem aquela final vigília.
Paturi não deixara esperanças dessas. “Talvez ao chegarem estas linhas minhas, em homenagem e dedicação, o Paturi já não exista na memória das bicicletas em nossa cidade, hoje o que existe são os carros, as carroças de burros e jegues”. Na memória das pessoas que foram suas amigas, clientes, muito pouco haverá; os anos passam, as lembranças diminuem, nalguns morrem também. Na minha memória, ficou isto que agora lhes digo. Nem me lembra mais se a questão da catalepsia fora comentada por algum tempo, o porquê de ela haver sido levantada, o que ocasionara a desconfiança, se era ele cataléptico. Talvez tenha sido desejo e vontade do médico de ele levantar do esquife, continuar vivendo por longos anos ainda, pois que foram muito amigos, em verdade unha e carne. Todos os dias, por volta de oito, nove horas, ia à oficina de bicicleta para trocar uns dedos de prosa com Paturi, antes de ir para o consultório atender aos pacientes durante o resto do dia. De quando em vez, passava o médico na oficina, convidava Paturi para tomarem uma cerveja no botequim do Cristóvão, e lá ficavam até por volta das nove horas, conversando, contando casos, rindo, brincando, sem deixarem as piadas picantes de lado. Com a morte de Paturi, tudo isto tinha acabado. Iria ao consultório, trabalharia o dia inteiro, à noite voltaria para casa. Não era casado, vivia sozinho. Paturi era o único amigo de suas relações pessoais.
Passaram-se muitos anos. Andei por alguns minutos pelo cemitério, procurando a sepultura de Paturi, sem ter conseguido encontrá-la. Talvez a cruz tenha apodrecido com o tempo, fora enterrado numa sepultura simples. Perguntei ao coveiro. Olhou no livro. Encontrou o nome, o lugar da sepultura. Levou-me ao local. Não havia mais a cruz, o local estava liso, como se ninguém houvesse ali sido enterrado.
Não havia ido ao cemitério para visitar a sepultura de Paturi. Meu objetivo era visitar a sepultura de minha família, havia muitos anos que lá não ia. Conversei um pouco com a imagem de mamãe, lembrando-me de alguns momentos de nossas vidas. Sou eu o último da família, vi meus pais, tios, tias, meu único irmão morrerem. A princípio, isto me desorientou, deixou-me atordoado, não me casei, não tive filhos, minha herança fora a casa, em que nela moro até hoje, minha vida desde então fora entregue ao trabalho, à sobrevivência, só me restaram lembranças de todos. Estou com sessenta e seis anos, a vida de um homem nesta idade sozinho não é nada fácil, difícil, para dizer a verdade. Amigos tenho, relaciono-me bem com eles, digo mesmo que me ajudaram e ajudam muito, mas não é a mesma coisa, família é família.
Saí do cemitério, sentindo-me emocionalmente um pouco melhor. Vim embora para casa, não voltei à mercearia de minha propriedade, à tardinha, meu funcionário veio entregar-me a chave. Sentei-me na varanda, no banquinho de mármore, pondo-me a lembrar-me de toda a minha vida, situações, circunstâncias, instantes de felicidades, alegrias, momentos de angústias, dificuldades, os sonhos que alimentei, alguns realizados, outros não. Algo conservei muito presente em mim que foi a fé em Deus, o único tesouro de toda a vida, todo o resto me parece hoje fútil, efêmero. Não fosse a fé não sei o que teria sido de mim, quando me vi sozinho no mundo, tendo de prosseguir a minha jornada, tendo de continuar vivendo.  




Comentários