JAMAIS À FACE DO VENTO - Manoel Ferreira



Quem sabe devesse explicar e esclarecer o que é isto de jamais à face do vento, o que mesmo intenciono dizer com esta imagem que se me revelou durante a madrugada, enquanto tentava conciliar o sono. Às vezes, torna-se sim fundamental que haja uma iluminação de um sentido, a fim de se obter informações capazes de tornar inteligível, compreensível, podendo assim haver interpretações profundas, interpretações que suscitem ao espírito caminhos de superação, possibilidades de novos rumos e uma vivência mais humana e em harmonia com a vida.
Se o fizesse, iria de algum modo obstar as inteligências de a contemplar, buscar sentimentos e emoções que, em princípio, indiquem possibilidades de pontos de vista, de visão, uma leitura subjetiva. Iria sim obstar a intuição e percepção de um mergulho no espírito, e este desejar a sua assunção, penetrando em suas experiências do eterno e do imortal, revelando os mistérios. Além do mais, não haveria mais qualquer curiosidade de saber o que sim desejei revelar, manifestar, a leitura seria apenas um deleite, gozo íntimo e suave em estar em contacto com imagens que satisfazem os desejos mais fundos de beleza e encontro do belo, que são os objetivos principais de qualquer experiência, de qualquer leitura.
Há quem pense que não se deve nunca esclarecer os sentidos e significados, pois que os objetivos são mesmo de suscitar mistérios, sem os quais a própria vida se torna algo  sem senso, sem entendimento, não importando mais o que se foi ou o que há de vir. Ademais, numa leitura o esclarecimento desde a imagem inicial, o título, até as imagens que vão aproximando os desejos e sonhos existentes na inicial, vão construindo o arcabouço de  experiências vividas, de sonhos e vontades de a vida ir se realizando ao longo das situações e circunstâncias, ao longo do tempo, vão tecendo os vazios que são obviamente os objetivos de interpretação e de conhecimento, vão reunindo as inúmeras dimensões do homem, mesmo aquelas que não lhe são conscientes, não são de seu conhecimento, tornando-as uma só, ascendendo ao espírito, dando-lhe experiências de um encontro e vivência com o transcendente, com o absoluto, que é sem dúvida a sua mais íntima e profunda aspiração.
Ademais, há uma lição que se aprende desde a mais tenra infância através das experiências dos adultos com quem iniciamos a nossa longa jornada vida adentro. Fora uma de minhas lições: não se deve plantar uma semente para alguém, deve-se sim ensiná-lo a plantar a semente, regá-la. Há outras lições que seguem esta minha linha de pensamento, havendo nelas sinais nítidos de agressividade, por exemplo, quem quer algo bem feito e perfeito não pede alguém que o faça, faz ele mesmo. Mas são lições importantes para a própria busca de perfeição que é feita com o trabalho e a perseverança, a esperança de se poder alcançá-la.
O homem é sim um ser sedento de conhecimento. O conhecimento, dizem os grandes mestres, não é um acúmulo de informações, por mais precisas e objetivas sejam, de experiências, mas a sabedoria de saber contemplar o mundo, as experiências, buscando os caminhos do campo, a ascensão, o encontro com o absoluto. Isto só é possível a partir da liberdade de contemplar, sem interesses, sem ansiedades de o alcançar.
Se eu, então, de imediato, esclarecesse o que é isto de jamais à face do vento, mostrando com nitidez e transparência o que significo, quais são as verdadeiras intenções, o que desejo suscitar no espírito humano, estaria obstando esta busca do conhecimento, o saciar a sede de compreensão e entendimento.
Perpassa-me no espírito uma voz, questionando-me se não esteja eu desejando significar que de modo algum  praticaria certas ações, jamais agiria de modo arbitrário e gratuito frente a alguns valores que julgo serem essenciais nem mesmo à face do vento que de tão efêmera, pois que o vento é sim uma manifestação da natureza de uma velocidade sem limites, e ele, mesmo que tendo memorizado tais atitudes, tais ações, levaria consigo em todo o seu itinerário até ao inefável, até ao inaudito.
Digo-lhe que em verdade não cometo disparates e inconseqüências com alguns valores que julgo essenciais, penso não ser mais digno de qualquer autoconsideração, não teria mais qualquer senso de dignidade. Pode até ser que esteja isto suscitando com esta imagem de jamais à face do vento, mas em nenhum momento de estar aqui escrevendo houve um pensamento disto. Sendo sincero. Poderia lançar dados a esmo, dizendo que, antes de iniciar, por diversas vezes repeti a imagem em voz alta, servindo-me de muitas impostações de voz, de tonalidade, a fim de que a entronizasse, de ela disponibilizar a uma viagem , a um mergulho no desejo do espírito de alcançar o absoluto, viver suas experiências divinas; embora tenha sim desejado a liberdade do espírito de viver suas próprias experiências frente a esta imagem que me surgiu pela madrugada, enquanto estive buscando conciliar o sono, seria forçado dizer que jamais seria capaz de colocar meus valores expostos a circunstâncias e situações que de todos os modos possíveis estariam sujeitos a prejuízos inestimáveis, seria eu o único responsável, o único culpado. Não pensei nisto.
Sente-se a voz satisfeita com a minha resposta, fazendo-me reverência, silenciando-se, distanciando-se. Posso continuar a expressar-me a respeito de não esclarecer o que mesmo entendo por isto de jamais à face do vento.
Descrevo uma situação acontecida antes de iniciar o antepenúltimo parágrafo. Senti sede. Levantei-me da cadeira de sofá, dirigindo-me ao banheiro, encontrando-se sobre a pia um copo, acima da pia, embutido na parede, existe um espelho. Imaginei-me “jamais”. Jamais refletido no espelho, a sua imagem nítida. Imaginava-me jamais refletido na superfície lisa do espelho. Mas em verdade era o meu rosto ali refletido. Não me foi possível ir além do meu próprio rosto refletido, não pude ver o jamais refletido na superfície do espelho.
Retornando-me à cadeira de sofá, imaginei “jamais” à face do vento, ou seja, a face do vento sendo o espelho em que “jamais” se reflete. Uma imaginação. Refletido, seria a imagem a de “sempre”, pois que o espelho reflete o inverso do que está sendo refletido. Se eu tentasse desenvolver estas situações que experienciei enquanto dou continuidade à criação da imagem que se me apresentou pela madrugada, aquando  buscava até com insistência conciliar o sono, pois que estava quase convicto de haver perdido o sono, o resto da madrugada passaria em branco, olhando a escuridão, talvez com muitos pensamentos e idéias na mente, o espírito atento e perspicaz a todas as manifestações e revelações do silêncio, como as descreveria, como daria vida a elas, pois que são sobremodo abstratas, tão abstratas que não me foi possível ir além de meu rosto no espelho, apenas me imaginei sendo “jamais”?
Com efeito, seria sim possível pensar que escolhi escrever esta imagem que se me revelou  discutindo o porquê penso e sinto que não deveria esclarecer o que é isto de jamais à face do vento, pois eu mesmo não consigo ainda contemplar um sentido, um significado para ela. Partindo então desta discussão, de descrever o que me surge ao espírito com  a não vislumbração de um entendimento, seria um modo de ir tecendo no espírito, através da intuição, percepção, linguagem, sensibilidade, um sentido para esta imagem, para isto de jamais à face do vento.
Seria até o caso de alguém questionar como se é possível criar algo a partir de algo que não é conhecido por mim, não tenho a mínima noção do que possa significar, seria o mesmo que criar algo a partir do nada, e do nada nada se cria. Seria o nada, se não houvesse nem a imagem, aí não seria mesmo possível criar.
Mesmo que tais palavras, desde o início até ao final, sejam palavras destituídas de qualquer senso, de qualquer inteligibilidade, palavras lançadas ao léu, esperando por alguma compreensão dos homens, e mesmo do vento, sei que nas entrelinhas há algo que as torna grávidas de algum sentido, embora exposto a muitas interrogações, questionamentos, apesar de sujeito a inúmeras interpretações e pontos de vista, das adversidades de opiniões.
Se eu houvesse apresentado um sentido, um significado para isto de jamais à face do vento, não suscitaria qualquer curiosidade de uma investigação, de uma busca de compreensão e entendimento.              

  






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