SUBLIME MORTE SÚBITA - Manoel Ferreira
Bons dias!
Vereador Daytós era do tipo que só fazia promessas, egrégio promesseiro
do poder – promessas simples, difíceis, complicadas, impossíveis; ajudava-lhe a
criatividade, não se sabe de ordem surgiu, com efeito não era dom gratuito
divino; dizem que vendera ao alma ao diabo, este lhe “iluminasse” nas promessas
que lhe garantissem a vitória nas eleições, o diabo não ilumina, o termo é
inadequado, mas servia para mostrar a mofa do povo, é possível que tenha ele
inspirado nas promessas, uma cabeça oca não teria condições de criá-las a
todas, tantas eram. Não cumpria uma sequer. Se alguém miserável lhe procurava
para cobrar o obséquio de que estava precisando, pagar conta de água, de luz, uma
continha de armazém, arrumava de imediato uma esplendorosa justificativa, com
uma fala das mais persuasivas, a pessoa aceitava, até prometia uma oração na
missa do domingo para Deus ajudar-lhe a vencer tantas dificuldades.
Em época de eleições, todos diziam que não votaria em Oliveira Daytós,
jamais fizera qualquer coisa pela cidade, não dava a mínima para ninguém, nem
aos ricos, nem aos pobres, não havia quem tivesse algum valor para ele.
Interessante era que sonhava na noite após a votação estar visitando um
dentista com dor de dente atroz, dizendo-lhe o dentista não entender a razão da
dor já que seus dentes não tinham raízes, sofria de uma anomalia, receitava
remédio, sabendo que não adiantaria, dor de dente só se possui raiz. No sonho,
tinha dores, na vigília jamais teve uma por mínima que fosse, e não usava
prótese, nem superior, nem inferior. Jamais entendeu este sonho, ninguém nunca
lhe explicou; psicólogo a quem procurou para saber a razão deste sonho,
disse-lhe que o único que poderia fazê-lo era Freud, nenhuma seguidor seu seria
capaz desta façanha interpretativa, infelizmente já havia morrido a muitos
anos. Na mesma época, distribuía sorrisos e tapinhas nos ombros das pessoas,
conversa com os eleitores nas calçadas, nas esquinas, nas praças, se em
padarias ou restaurantes estava tomando o seu lanche, pagava a despesa de quem
estava ao seu lado conversando com ele, querendo saber mais claramente de suas
plataformas políticas, beijava a mão das mulheres, se estavam com os maridos,
um gentleman, tratava a todos com uma finesse sem limites, se a madame ou a
mocinha passeava com o cachorrinho de estimação, se de raça, beijava-lhe o
focinho, se vira-lata, afagava a cabecinha do animal.
Não adiantava dizerem que não mais teria único voto, todos votavam no
vereador Oliveira Daytós. Não descascava os pepinos dos candidatos no palanque,
nas entrevistas pelas emissoras de rádio e televisão, mesmo nas conversas
fortuitas com os amigos nos restaurantes, pelas ruas da cidade; por “increça
que parível” falava bem de todos,
indicava-lhes as virtudes, valores, parabenizava estas ou aquelas atitudes,
ações, para ele ninguém era corrupto, ninguém ostentava poder, ninguém tinha
rabo preso, ninguém fazia promessas impossíveis só para vencer nas eleições.
Era, quem sabe, o seu segredo das três vitórias consecutivas. Infelizmente, o
povo não sabe distinguir gato de lebre, e por isto a política jamais perde a
sua. Alguns diziam que ele era a “onça” da política daquela comunidade, isto
porque o gato lhe ensinara a pular para trás. Os candidatos rasgavam os verbos
a respeito de Oliveira Daytós, só lhe não chamavam de santo, só lhe não metiam
a mãe nos discursos, fora ela prostituta – dizem que morrera de por baixo de um
dos coronéis mais bravos de nossa região, a mulher batera na porta, estava com
uma espingarda para matar a vadia, ao marido levaria para casa, lá tomaria as
devidas providências; o coronel era bravo, a mulher ainda mais -, não sabia
quem era o pai, falar de prostituta, de bastardo, em discurso de palanque é
perder votos, a tradição nestas horas conta muito. Se o fizessem, não daria a
mínima, não ligava, não tirava satisfações, não chamava a política por
desrespeito, falta de decoro, invasão de privacidade. Era de uma passividade indescritível,
engolia os sapos secos com uma indiferença absoluta, tomava suas pingas à noite
em seu escritório, para tirar o gosto dos sapos e das securas deles, lendo o
seu poeta mais que preferido, Gregório de Matos, seu filósofo mais que
absolutizado, divinizado, Aristóteles. Pelo prazer de ler, não que entendesse
um ou outro.
Ah, sim... Nos discursos de candidatura, citava, no meio de suas idéias
ridículas e ideológicas, frases de Aristóteles, escolhidas a dedo sobre a
virtude, e com elas fazia as maiores tropelias, misturando erudição filosófica
com vulgaridade popular; quando citava versos de Gregório de Matos, empolava-se
por inteiro, estremecia todo com os calafrios que lhe perpassavam na medula
espinhal, fazia rimas com suas promessas, misturadas aos seus interesses
medíocres, o povo emocionava-se, algumas pessoas deixavam lágrimas furtivas
descerem-lhes nas faces, os aplausos, seguidos de gritos estridentes, de
assobios eram inevitáveis: “Daytós vereador! Daytós vereador!” Engoliam o
“para”, não era preciso, já estava mais do que sentado em sua cadeira giratória
da câmara municipal. Convencia o povo de ser ele um homem diferente, um
político inusitado, político poeta-filósofo, em toda a história jamais alguém
que lhe chegasse aos pés, tirando-lhe os sapatos, à sola dos mesmos. Unia a gravidade da poética de Gregório de
Matos e a crítica ética do pensamento de Aristóteles, naquela perfeita harmonia
que exprime um caráter sério e bom, sensibilidade incomum e visão aguçada da
vida. Não era dizer que os professores, estudantes, personalidades da cultura e
das artes, do direito lhe contestassem, julgassem-lhe um perfeito imbecil de
galocha, chapéu e bengala. Apoiavam-lhe
em uníssono. Não é cultura que faz perceber o mato atrás do coelho, é a
sensibilidade, e estas tais pessoas não tinham, comprometeram-lhe com os
prazeres materiais e efêmeros. No métier econômico exerceu análoga influência
que tinha no mundo político. A ambos, e a toda a sociedade deixou verdadeira e
grande mágoa. Nem são poucos os que devem sentir palpitar o coração lembrado e
grato.
Na última eleição, pensou bem o que iria prometer, não mais poderia
repetir as mesmas feitas em pleitos anteriores, toda a comunidade sabia que não
as cumpriria de modo algum, servia-se dela para ser eleito. Não faria di-versas
promessas. Tinha de ser única, que sensibilizasse a todos, acabasse de vez com
sua fama de “promesseiro do poder”, mostrasse a todos que havia modificado sua
conduta e postura, estava mesmo interessado em ajudar as pessoas, tornasse-lhes
a vida mais digna. Por dois meses, espremeu os miolos à cata de uma promessa
daquelas, “promessa-pá-bosta”, outra não se lhe iguala, outra não
sensibilizaria tanto. No dia que começava o processo eleitoral, faria seu
primeiro comício no Bairro da Ressurreição, o mais miserável de nossa
comunidade, às três horas da manhã veio-lhe o que tanto esperava, o que lhe fez
quase secar os miolos de tanto espremer, estava lhe preocupando sobremaneira,
sem esta “promessa-pá-bosta” podia dizer adeus à sua eleição, não mais sentaria
na cadeira giratória da câmara dos vereadores, sua carreira de política estaria
terminada, nunca mais. Prometeria todas as despesas funerárias à velhinhos
miseráveis que morressem depois dos setenta e cinco anos, vítimas de problemas
de saúde, câncer, pneumonia, problemas
renais, enfartos. Saltitou pela casa inteira, cantando a plenos pulmões. A
mulher acordou assustada com aquela cantoria toda pela casa. Se aquela é hora
de saltitar e cantar, era madrugada, tempo de dormir, descansar. Explicou à
mulher a promessa de sua campanha eleitoral. Ouvindo-lhe um tanto quanto
sonolenta, percebeu com certo espanto estar ele falando a verdade, estava mesmo
disposto a cumprir com a promessa, não haviam em suas palavras mentira, farsa,
só interesses de vencer nas eleições. O que estaria acontecendo com o marido.
Preocupou-lhe somente as vestes, não iria mais poder comprar nas lojas, galeria
as suas roupas de grife, chics, o dinheiro que ganhava não iria dar para tanto,
pagar despesas de funerais e roupas de grife. Era apenas empolação de início de
campanha, ao longo dela mudaria de opinião, faria outras promessas, no fim das
contas não cumpriria uma sequer, como era de seu costume.
A mulher estava enganada. Não fez outra promessa senão esta de pagar as
despesas funerárias dos velhinhos que morressem vítimas de problemas de saúde,
e não só para os velhinhos dos bairros miseráveis, também dos mais pobres. A
comunidade se sentiu estupidificada com a promessa, isto porque todas as
pessoas perceberam que estava falando a verdade, estava mesmo interessado em
cumpri-la. Saíram comentários de que estava doente, provavelmente de câncer no
pulmão, na garganta, devido ao consumo exagerado de cigarro, fumava três maços
de cigarro por dia, isto quando estava tranqüilo, nervoso, chegavam aos quatro.
Por isto, estava fazendo tal promessa. Esta lhe garantiria a imortalidade.
Alguns de seus opositores, muito poucos, brincavam: “De promesseiro do poder a
oportunista da imortalidade a distãncia não é tão longa assim, apenas umas
poucas léguas”.
Venceu as eleições. Nos seus comícios, quase a comunidade inteira estava
presente, especialmente os velhinhos. Nos dos outros candidatos, gatos
pingados. Caprichou nas citações de frases de Aristóteles e versos de Gregório
de Matos, Passou um ano e meio desde a eleição, nenhum velhinho miserável ou
pobre morreu, estava morrendo mais pessoas entre os quarenta e cinqüenta anos
de câncer, mais de enfarto, miseráveis e pobres, não prometera ajudar ninguém
nesta idade. O que estaria acontecendo? Por que prometera lhes ajudar não
estavam morrendo? Seria por que não queriam ajuda de despesa funerária, não
ajudou na vida, por que na morte? Não tinha sentido. Seria que Deus mesmo havia
decidido não chamar os doentes para lhe mostrar que no fundo havia um interesse
seu, que ninguém percebeu, não teve condições de saber, devido a oratória
poética-filosófica, o interesse era ser imortal? Não conseguiu como promesseiro
do poder, conseguiria como oportunista da imortalidade? Não era possível. Ano e
meio e ninguém morreu! Não soube explicar. Passaram-se dois anos e três, nenhum
velhinho miserável e pobre morria. Continuavam morrendo os entre quarenta e
cinqüenta anos, vitimas de câncer, enfartos.
A morte de Oliveira Daytós, em qualquer circunstância ou situação
analisada e interpretada, foi dolorosa para todos; o repentino dela tornou o
golpe maior. As quatro e meia da tarde de segunda-feira da quaresma, da semana
da Sexta-Feira da Paixão, aprontou-se todo, usou o seu mais novo terno, estava
estreiando-lhe, perfumou-se, tinha um discurso na tribuna, seria muito
importante para a sua carreira. Já que nenhum velhinho miserável ou pobre
estava morrendo, estava pensando em contribuir com sestas básicas para o asilo.
Não era culpa sua que os velhinhos não estavam morrendo, até se sentia feliz
por não estarem, mesmo doentes, muitos sofrimentos e dores, ainda estavam
vivendo, a vida, apesar de tudo, era maravilhosa, um dom de Deus. Às cinco
horas da tarde, de sua casa no Bairro das Oliveiras, bem distante, quarenta e
cinco minutos de caminhada a pé, e ele não gostava de andar de carro, passava
pela praça principal, tranqüilo e conversando com os transeuntes, eleitores na
maioria, alguns amigos, companheiros; várias pessoas o cortejaram, satisfeito
de o ver assim, antes era um homem circunspecto, falava muito pouco, parecia
estar sempre angustiado. Até mesmo lhe perguntaram o que estaria acontecendo
que não estavam morrendo velhinhos na cidade, não apenas os miseráveis e
pobres, também os ricos, de boa condição social, a família presente na vida
deles, ajudando-lhes no que podiam. A que atribuía isto? Justamente quando
prometera ajudar os velhinhos, pagando-lhes as despesas funerárias, deixaram de
morrer? Respondia que ele mesmo não estava entendendo. E era engraçado, apenas
uma exclamação, porque não passava um dia que não morresse um velhinho depois
dos setenta e cinco anos, vítima de problemas de saúde.
Dois quarteirões depois da praça principal, um para chegar à câmara
municipal, tivera um enfarto. O corpo de bombeiro teve certa dificuldade de
abrir caminho na multidão que se formou ao redor dele. Não fora um enfarto
fulminante. Aquele culto e fino espírito, que os jornais, que a palestra, e
alguma vez a tribuna, viram sempre empolado com seus discursos poético-filosóficos,
mistura dia-bólica de interesses e vulgaridades, recolhera-se nos últimos dias,
flagelado pelo terrível problema de coração. Não perdera o riso, nem o gosto,
nem o prazer de ler a obra de Gregório de Matos e Aristóteles, tinha apenas a
natural melancolia de um velho de setenta e dois anos, a preocupação de que não
seria imortal na história de nossa comunidade, só fizera promessas, nada
cumprira, seria esquecido, se lembrado, como “promesseiro do poder”.
Amigos iam passar com ele algumas horas, para ouvi-lo somente, ou para
recordar de sua carreira política, de seus discursos empolados na tribuna, nos
palanques de comícios. Os rapazes que só tinham vinte anos não conheceram esse
político de promessas impossíveis, difíceis, complicadas, simples, que foi o
mais elegante político de seu tempo, não descascava os pepinos de seus
correligionários, dos opositores, não lhes chamava de corruptos, interesseiros,
ao contrário, falava bem de todos, identificava-lhes as virtudes e valores,
engolia todos os sapos secos, devido às suas condutas de prometer coisas que
não iria cumprir, só para ser votado, ganhar as eleições, o que ganhava como
vereador era para satisfazer as vaidades da esposa, as suas luxúrias.
A casa do velho Oliveira Daytós vivia cheia de pessoas que o visitavam.
As horas da noite eram passadas, entre os seus livros, falando de coisas do
espírito, poesia, filosofia, história, ou da vida da nossa terra, anedotas
políticas, e recordações pessoais. Na
mesmo escritório estava a esposa, ainda muitíssimo elegante, a despeito dos
anos, sessenta e seis, espartilhada e toucada, com muito esmero, singeleza de
quase uma primeira dama. Tinha ela também de recordar os tempos da mocidade
vitoriosa, quando o marido era guarda-livros, quando os salões a contavam entre
as mulheres mais belas da comunidade. O sorriso com que ouvia não era constante
nem largo, mas a expressão do rosto não precisa dele para atrair a D. Xalipa as
simpatias de todos.
Seis meses em casa. Ninguém morreu neste espaço de tempo, nenhum velhinho
miserável ou pobre; morreram vários entre os quarenta e cinqüenta anos, vítimas
de enfartos e câncer. Estava bem. Ia à câmara todos os dias, participava de
todas as reuniões, tornou-se mais alegre e comunicativo, o enfarto mudou-lhe
bastante. Numa segunda-feira, iria apresentar um projeto de lei para ajudar os
velhinhos do asilo. Estava lendo o discurso. Sentiu sono. Deitou-se na
poltrona. Tirou um cochilo. Morreu dormindo no seu gabinete. Exatamente no dia
que estava fazendo três anos que fora eleito pela quarta vez consecutiva como
vereador. Teve um funeral dos mais suntuosos. A comunidade inteira visitou seu
cadáver exposto no saguão da câmara. Prefeito, Presidente da Câmara fizeram
discursos no enterro. D. Xalipa ficou, mas faleceu ano depois, exatamente no
dia que terminava a sua gestão. Morreu e enterrou-se segunda-feira.
Aí, começaram a morrer os velhinhos pobres e miseráveis, três, quatro
por dia. Nenhum outro dos vereadores que foram votados na eleição depois de
Oliveira Daytós fez promessa de pagar as despesas funerárias dos velhinhos
miseráveis e pobres depois dos setenta e cinco anos. Assim vão umas e outras
crônicas de vereadores enquanto este século se fecha e o outro se abre, e a
juventude renasce e continua. Isso que aqui fica é vulgar, mas é daquele vulgar
que há se sempre parecer novo como as belas tardes e as claras noites. É a
regra também das folhas que caem...

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