DE MANEIRA NÍTIDA O LIBERTINO E O SANTO
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Sinto que o coração se enche diante da ventura de
poder dar, por fim, curso livre e tumultuoso aos meus desejos de comunicação.
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Ah, sim, antes de prosseguir, é
intenção das mais profundas dizer que os desejos todos se encontravam
estagnados no tempo, na alegria de ser estimado e demonstrar valor aos olhos de
alguém mais velho que eu, os mais novos não compreendem bem o que é isto de
estagnar os desejos no peito, para eles se o fizer um poucochinho mais irão
escancarar, e isto é muito prejudicial, há coisas que se vivem e não se dizem.
O mundo arde em cores novas – estou
vestido com um ponche azul, branco e preto, é inverno e um dos mais rigorosos
de Atenas Atéia nestes últimos dez anos, assim me disseram, sou cá um
estrangeiro, e a estrangeirice é que me sustenta. As idéias se me ocorrem de
mil atrevidas fontes ignoradas, o engenho e o fogo chamejam em mim dentro.
Tudo isso soa certamente ou a uma
pilhéria de valores e costumes ou a um sarcasmo de hábitos e vícios que os
humanos sabemos mui bién apreciar e admirar por eles sustentarem a vida, não
deixar que criemos raízes no mundo, aliás, seria até cômico dizer que as pedras
têm raízes muito profundas. Em suma, a uma sátira deslavada das idiotices e
mediocridades humana, a sátira dos olhares e das faces. Tudo o que em minha vida interior sinto,
penso que sinto, sinto que penso, e toda essa parafernália sem senso e medidas,
construo ou imagino, crio ou recrio, jaz ardendo dentro de mim, mas nem o vinho
é suficientemente poderoso para trazer-me à tona e tornar-me comunicável.
Ganhara por ocasião da data natalícia,
há um mês e meio, uma garrafa de vinho muitíssimo especial, fabricado em Caxias
do Sul, com certeza de uvas frescas. À noite, convidara a senhora para tomarmos
juntos e ainda festejar o aniversário. O amigo, devido a razões particulares,
não pode estar presente, mas mandara no outro dia por intermédio de um
conhecido que por meu bairro iria passar de carro me entregar em mão, já que
não recebo com as duas de uma vez, ambas estendidas esperando ter a garrafa, a
não ser que fosse preciso carregar um engradado – não apenas por ser muito
estranho receber um engradado, não sou tão merecedor assim de um presente deste
nível, um engradado de vinho especial por ocasião do aniversário, vinho vindo
de Caxias do Sul, e também por o amigo ter tido a intenção de me dar prazer e
alegria por degustar um bom vinho, não de me embriagar vez por todas.
Ah, sim, há momentos que desgraço a
fazer pilhérias com as coisas, só um espírito muito compassivo e solidário para
não me mandar às favas, enfim, não estou ironizando a mim próprio, embora
pareça, mas o que tem de mais libertino e santo no interior do homem, e não
haja quem não consiga identificar alguma mazela e achaque em si dentro. Só esse
espírito para me compreender ou perdoar. Caso contrário, as favas são o meu
destino imprescindível, aliás, já estava passando dos limites não ter ainda
ido.
Tudo isso soa certamente um tanto falso
e tem um sabor mais baixo e mesquinho, cotidiano e medíocre, do que, em meu
entender, deviam ter as coisas da vida.
Bem, convidei a senhora para bebermos
juntos o vinho que o amigo me presenteara, e por ser do Rio Grande do Sul devia
ser muito delicioso. Tomamos o vinho juntos e durante todo o tempo não trocamos
uma palavra sequer; por ela, sei que estivera a degustar intimamente o vinho,
saber-lhe o sabor e a delícia, ambos com espírito de prazer e alegria; por mim
é que não sabia o que dizer, as palavras todas saíram de minha língua, esta
ficou inerte no solo da boca, no chão da boca – sei lá qual o termo usar, mas
isso não é relevante.
Mas, de todo modo, é uma realidade, é a
vida e a aventura; a minha incomunicabilidade é algo de esplendoroso, talvez
por desde que me entendera por alguém no mundo dizer a mim que a comunicação
com as coisas é impossível porque elas não tem subjetividade e a comunicação
com as pessoas é impossível por elas terem subjetividade, e entre as coisas e
as pessoas me perdi tanto que hoje se me torna realmente incompreensível
discernir as coisas em mim dentro, só sei dizer que sou homem em absoluto
incomunicável, aliás, a senhora sempre diz que só falo asneira, besteira,
idiotice, nada há que se possa aproveitar em minha fala, e o que lhe causa
pasmice é o fato de ser uma inteligência, como o amigo escrevera em seu cartão
que recebera junto com o vinho lá de Caxias do Sul, sou homem dotado de
“brilhante inteligência e sentimentos humanísticos”. Se assim digo asneira, imaginasse só algum
destituído desses valores? Intragável.
Deveria confessar, mas, ao contrário,
prefiro dizer francamente, que esse estado em que me encontro, seja espiritual
ou de alma, não me é agradável um poucochinho, pode ferir aos espíritos
inseguros e frágeis, e isso está fora de qualquer cogitação, apesar de nas
entrelinhas um espírito perspicaz e engenhoso pode nele descobrir exatamente
esta agressividade com os homens que se sentem sozinhos e isolados no mundo,
exilado em suas palavras que não se revelam, e tudo dentro é um nó górdio sem
fronteiras.
Ao contrário, esse estado é muito penoso, e ,
contudo, também tem algo mais, um certo encanto, uma singular doçura: é a
rebelião e a orgia, o libertino e o santo que me habitam desde tempos
imemoriais, e que às vezes se me encontro aqui recostado ao parapeito de minha
sacada de residência de três andares, ouso de todos os modos e estilos a
deixarem se anunciar com pureza, inocência, ingenuidade.
Tudo isso é luminoso, tudo aparece
aureolado por suave resplandecência, o brilho de um diamante, tudo é
maravilhoso, esplendoroso, divino e puro, e tudo, tudo isso me pertence,
recuso-me e me olho com desdém, indiferença. Tudo isso jaz aos meus pés, enquanto
observo as serras ao longe, e sendo inverno, haver chovido a noite passada, a
neblina cobrir as serras, e se a seguir saberei tratar-se de um rio que passa,
as águas seguindo em direção ao seu único e exclusivo objetivo perder-se e
encontrar nas águas do oceano, dos mares de toda a terra.
Tanto é esse sentimento que me toma por
inteiro... – aliás, antes de tomarmos a garrafa de vinho inteira, minha senhora
e eu, disse-lhe de uma estilo muito estranho e esquisito de dizer, uma
expressão de nós do interior de Minas Gerais, ao menos se encontrando na
entrada do sertão, na cidade de onde venho, dizemos: “Oh eu que gosto de
fulano... Oh eu que gosto de um bom vinho em presença de minha esposa e
amigos”.
Tanto é esse sentimento que me toma por
inteiro que todas as puras delícias que desde as mais longínquas horas... Se me
viessem prender alguns empregados menores dos tribunais e me arrastassem para a
forca, condenando-me por ser um homem incomunicável, não haver palavras que
pronuncie, que diga o que me vai dentro, as dores e sofrimentos que me assolam
árduos e peremptórios, eu não oporia com um único gesto, uma única atitude, até
mesmo aquela clássica e tradicional: “Deixe-me então fazer o último pedido. E
espero que seja atendido por esses homens que assistem ao meu enforcamento”.
Seguiria prazeroso ao cadafalso, considerando justa e cabível a sentença:
afinal o que um homem incomunicável está fazendo no mundo quando todos os
aparelhos de comunicação são perfeitos.

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