VÍNCULO DE SIMPATIA MORAL - Manoe Ferreira



Bons dias!

Não me é dado saber, excelentíssimo e digníssimo leitor, se, por ventura, você concordaria com estas palavras minhas, vangloriar-me-ia que sim, enfim fica-lhe o livre arbítrio que é a nossa essência de humanos que somos, mas eu digo, com prepotência, que todos os homens devem ter uma lira no coração, - ou não sejam homens. Sim, para mim, é assim: ou se tem lira no coração ou se não é homem, data vênia a todos que discordarem. Que a lira ressoe a toda hora, nem por qualquer motivo, não o digo eu, seria até piegas – uma coisa é a lira no coração, outra é a pieguice das almas hipócritas, a primeira é uma obrigação, a segunda, deploro-a eu -, e por algumas reminiscências... Saberia você explicar-me de modo verídico e sincero a razão por que lhe pareço poeta, apesar da linguagem cínica e sarcástica – não conheço poemas cínicos e sarcásticos; você, por ventura, conheceria?; se tiver algum, peço-lhe enviar-me na redação, será uma outra inspiração muito estimada, tenho sede e fome de coisas inéditas? Não o saberia. Pois posso lhe dizer, salvo todos os enganos e criações de minha veia. É porque vou pela glória de minha sensibilidade, eivada de sentimentos os mais espirituais, sonhos os mais elevados de virtudes e valores eternos. A “imortalidade” tornou-se  ridícula, farsa, aparência, falsidade, hipocrisia das mais deslavadas, ser imortal em nossa modernidade, atualidade é motivo de vergonha – até ouço algumas personalidades dizerem a plenos pulmões: “Deus me livre da imortalidade. Prefiro o esquecimento absoluto dos homens” -, de chacota, desprezo, asco, náusea, indiferença. Os imortais não têm uma côdea de virtude e valores, são uns verdadeiros imbecis. Imortais sem obras, imagine só! Mas ainda resta a eternidade que não foi ainda deturpada, desvirtuada, adulterada. Que glória ouvir alguém dizer: “Fulano é eterno!”
Todas as caras que passam pelas ruas e avenidas, algumas obras de arte, beleza e maravilhas não lhes faltam, outras chistes da natureza, mas falam-me de outros tempos e realidades, como se fossem as mesmas de outrora; é a lira que ressoa, e a imaginação faz o resto.
Chamava-se Patrícia. Conheci-a de vista, quando estudava na Escola de Letras, uma linda moça com esse nome. Pé rapado mesmo, se estudava em escola particular, se se produzia e muito bem era devido ao recebimento de uma herança milionária de seu padrinho de batismo, um dos mais conceituados economistas das Minas Gerais.  Diziam que era a mais bela da faculdade. Também eu endossava a mesma opinião. Se o leitor for perspicaz, observador, visite uma faculdade de letras, a maioria das alunas são chistes da natureza, solteiras, frustradas, fracassadas, encalhadas, há professoras que as superam, mas a realidade é única: as letras dão-lhes a todas esperanças e fé de que o conhecimento  superará os chistes da natureza com que foram agraciadas, no futuro encontrarão alguém que as amará pelo conhecimento que têm, a feiúra será uma coisa do passado.
Era magra e alta – Olívia “Palito” perto dela era mais ou menos gordinha, cabelos lisos cacheados, que os trazia até o meio das costas, narizinho aquilino, olhos azuis, testa grande, bochechas coradas, seios pequenos, pernas bem torneadas, não usava saias ou vestidos, sempre calças compridas, blusas de grife, produzia-se muito bem, gostos afinadíssimos. Tinha trinta anos. Não os parecia, nem era nenhuma invejosa de sua beleza e produção que lhe dava essa idade, nem influência de Balzac na sua eterna obra a Mulher de Trinta, nem dos anos ´60, quando se dizia não se poder acreditar em alguém depois dos trinta. Ela mesma confessava esta idade e até com afetação. Ao contrário, Vera Lúcia, uma de suas amigas confidentes, afirmava que Patrícia não passava dos vinte e sete; mas como ambas tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si mesma.
Nada de ironias, leitor; a ironia não faz boa cama com a saudade. Aqui, estou recordando de meus tempos de aluno de letras, só eu de homem na sala. Não julgue que era disputado por elas, pois que sou um dos chistes da natureza em termos de homem, mesmo as mulheres feias não gostam de homens feios, vice-versa, a vaidade neste sentido deve existir impreterivelmente; ademais, seria o cúmulo da feiúra um casal de chistes da natureza. Conforme os princípios, uma mulher linda deve desfilar um homem feio, uma garantia de outra não o desejar, de acordo com as oportunidades, roubar-lhe, vice-versa.
A saudade, leitor, o que é ela senão uma ironia do tempo e da fortuna? Veja lá; começo a ficar sentencioso, mas naquela época de aluno um de meus mais preferidos costumes era inventar frases de efeito, hoje, odeio isso, sinto-me o mais piegas dos homens, desejava a todo custo encontrar a mais linda de todas, isto para compensar a minha feiúra, os meus complexos mais que profundos de homem que não tinha namorada, devido ser feio demais, as mulheres corriam de mim às léguas, apesar de que em termos de conhecimento era invejado, mas para elas conhecimento não supera a feiúra do homem, antes um homem lindo e burro, assim têm maiores oportunidades de dominá-los, incutir-lhes seus princípios e valores, lavar-lhes as mentes com ácido crítico.
Trinta anos. Em verdade não os parecia. Lembrou-me que era magra e alta, pele e osso; tinha os olhos azuis, esqueceu-me dizer que pareciam cortados da capa da última noite, mas apesar de noturnos, sem mistérios nem abismos. Isso me deixava intrigado mesmo. E por quê? Uma mulher sem mistérios e abismos – se são os mistérios e abismos que definem a mulher, como poderia ser mulher? Homem não era, pois neles não são os mistérios e abismos que lhes habitam as pré-fundas; neles, são os enigmas e crateras. Achava eu interessante, apesar de tudo, pois que aquela indagação que é peculiar aos homens desde os primórdios da humanidade não lhe cabia de modo algum: “quem é capaz de entender as mulheres”. O não-entendimento se dá justamente pelos seus mistérios e abismos. A voz era brandíssima, um tanto cariocada, puxava os “s” com determinação, e achava isto lindo, o seu charme – eu particularmente acho isso horrível -, a boca larga, lábios finos, e os dentes, quando simplesmente falava, davam-lhe à boca um ar de riso de deboche. Ria também, e foram os risos dela, de parceria com os olhos azuis, que me doeram muito durante certo tempo.
Se os olhos não tinham mistérios, como poderia eu sentir-me muito doido durante certo tempo? Tanto não os tinha que, verdade mesmo, leitor, cheguei ao ponto de supor que eram as portas abertas do paraíso celestial, e o riso, as liras angelicais que chamavam os homens para uma apresentação musical das mais lindas. Já a conhecíamos, eu e o meu companheiro de classe literária, o Patrício Orsini, íntimos como ninguém dos colegas o foram por três anos, era ele um rapaz dos mais galhofeiros que já conheci na face da terra, fazia pilhéria de tudo, as mulheres lindas e maravilhosas eram a sua preferência, mulher linda para ele era ícone da pilhéria sentimental. Nunca pensamos em namorá-la, se Patrício Orsini quisesse, conseguiria com facilidade, além de rapaz bonito, era poeta, e fazia versos lindos; quando os declamava para as colegas, algumas deixavam lágrimas descerem-lhe as faces, os olhos brilhavam de felicidade e alegria.
Um dia, no auditório da universidade, numa apresentação de peça de teatro de um grupo, nascido e formado na faculdade, entre um  ato e outro de Os imbecis, estando eu no corredor, conversando com Emmanuel Felipe a respeito do tema da obra, a atuação dos atores, na minha concepção ótimos, tinham sim grandes talentos, se o sonho persistisse, tornar-se-iam grandes atores profissionais, ouvi um grupo de moços que falavam de Patrícia, como de uma castelo de pedras. Dois confessaram haver tentado alguma coisa com ela, mas sem fruto, julgava-se linda, maravilhosa, tinha dinheiro, o comum dos mortais não lhe interessava; e os dois se pasmavam do celibato da moça que lhes parecia sem explicação. Uma mulher linda, inteligente, sensível, aos trinta anos continuava solteira, não tinha nem namorado, nem paquerava. Como isto era possível? Talvez até no íntimo houvesse um grande amor que não foi correspondido. Chalaceavam a plenos pulmões: um dizia que era promessa até ver se engordava primeiro; outro que estava esperando o príncipe da magreza, da magreza encantada, a cama não chiaria na hora do “pega-pra-capar”; outro que possivelmente encomendara algum querubim ao porteiro do céu, esperava ser enviado; outro que esperava ela encontrar um poeta que lhe escrevesse versos sobre a sua beleza e inteligência; trivialidades que me aborreceram muito, e da parte dos que confessavam tê-la cortejado ou amado, achei que era uma grosseria sem nome. Enfim, a mulher tem o seu livre arbítrio, pode não querer viver a vida emocional, pode escolher a solteirice pela vida, dedicar-se às letras. Letras não frustram, sensibilizam; homens frustram, magoam. No que eles estavam todos de acordo é que Patrícia era extraordinariamente bela, uma beleza incomum; aí foram entusiastas e sinceros.  
No dia seguinte à peça, num horário vago, a professora havia faltado, razão não inusitada, no primeiro dia de menstruação acamava-se com fortes cólicas, contei ao Patrício Orsini a conversação do grupo a respeito de Patrícia, até chalaceando com o título da peça, encarnaram as personagens com primor, perfeitos imbecis. Patrício Orsini riu-se das considerações feitas, e depois de dar alguns passos, vindo e voltando, sua característica de pensador, parou diante de mim, olhando, calado.
- Aposto que você puxa um caminhão por ela? – perguntei-lhe sério, sem quaisquer intenções de mofa. Era Patrícia passar no corredor, sozinha, seus olhos derramavam-se, suspirava. Apreciava mulher magra, era sua preferência. Eu, ao contrário, apreciava uma gordinha, quando mais carne melhor.
- Não, disse ele... Quem me dera, se tivesse a inteligência dela, ser elogiado por todos os professores de todos os períodos do curso. Se meus olhos se derramam, suspiro, é pura inveja, tenho de admitir isto. Vamos tentar o assalto ao castelo de pedras? Que perdermos com isso? Nada, ou ela nos escorraça, não somos para o seu bico, e já de antemão podemos esperá-lo, ou aceita um de nós, e tanto melhor para o outro que verá o amigo alegre e saltitante.
- Está falando sério?
- Muito sério.
Patrício Orsini acrescentou que não era só a beleza dela que a fazia atraente. Observe-se que ele tinha a presunção de ser espírito prático, mas era além do além do bem e do mal um sonhador que vivia lendo, se ficasse sem ler único dia a enxaqueca era inevitável, e construindo mansardas literárias e filosóficas. Segundo ele, os tais rapazes do grupo evitavam falar dos bens de Patrícia, que eram os seus feitiços, e uma das causas prováveis da desconsolação de uns e dos sarcasmos de todos, por serem da espécie e laia dos homens, não admitem uma mulher ser bonita e inteligente, sensível e intelectual.
Dissera-me:
- Ouve só, nem divinizar a beleza, nem absolutizar a inteligência, nem também bani-las, ambas são necessárias; não vamos crer que ambas dão tudo, mas re-conheçamos como rapazes sensíveis que somos e redemos graças e tributos aos valores eternos e universais, que dão alguma coisa e até muita coisa. Veja este relógio! Lindo, não?! Fora um presente de uma amiga brasileira residente na Alemanha, vivera lá por dois anos. Combatamos pela nossa Patrícia, minha ou tua, mas provavelmente minha, porque sou bonito, embora não tão inteligente quanto você – cá entre nós, vocês dois são os únicos que nunca tiram menos de nove em todas as disciplinas; há uma diferença, motivo por que os professores não o elogiam, desconversam até se alguém comenta a seu respeito, por ser você rebelde, você só reconhece a arte se feita por quem é agraciado com os talentos divinos.
- Está sugerindo uma aposta entre nós?
- Sim.
- Se for eu a conquistá-la, ganho o seu relógio. Mas eu não tenho outro objeto de tanto valor,
- Não é preciso. Se a conquistar é seu, caso contrário, apenas se sinta feliz por mim.
O homem põe, a espécie dis-põe. Era uma paquera estouvada, quase um passatempo de crianças para brincar com as meninas de outras classes sociais; nas escolas públicas são mais comuns os alunos de famílias mais privilegiadas, que as crianças pobres e miseráveis.
Nosso primeiro objetivo era nos aproximar de Patrícia, o único modo de o fazer não era reconhecer os méritos de José de Alencar, escritor a quem ela muito apreciava, mas viver a sua poética dos lábios de mel. Não comecei por essa personagem, por sentir nas pré-fundas de mim que a melidade dos lábios não beijam as contingências dos olhos negros e videntes da realidade da vida. Comecei por em nossa primeira conversa, sentados na escadaria da faculdade, tecer um comentário sobre uma frase da obra Cinco minutos, em verdade uma missiva da personagem: “Sinto-me com coragem de sacrificar o meu amor à sua felicidade; mas ao menos deixe-me o consolo de amá-lo...”,  que apreciou bastante, dizendo-se ser eu um rapaz sensível, sobremodo perceptivo, intuitivo, o que dissera no comentário era bem profundo, ainda não ouvira ninguém tecer outro com tantos fundamentos. Se era eu também apreciador da obra de José de Alencar, fora a sua pergunta, respondendo-lhe que não, apenas lera, estudara com o professor de Literatura Brasileira A, pesquisara em alguns ensaios de outros autores, formei a minha visão. Só isto.
Algumas vezes passamos a tarde juntos na biblioteca, estudando; outras sentados debaixo de alguma árvore do campus, conversando.  Patrício Orsini se limitava a conversar com ela durante o intervalo; não me aproximava. Não sei qual o assunto que tratava com ela. Conversávamos sobre muitas coisas, inclusive de Literatura, sobre as obras lidas, os autores. Dissera-me Patrícia que apreciava muito os nossos encontros, tinha um bom papo, educado, sensível, muito inteligente, gostava de rapazes assim.
Não sei o que dera em Patrício Orsini, se fora impulsionado pelo ciúme, inveja, o que acho mesmo ser improvável. Por que teria inveja de  rapaz feio, sendo ele um bonito? Fato é que sabia de coisas bem particulares minhas, íntimas mesmo, tendo-lhe dito por confiar nele, coisas que não dizia a ninguém, e num encontro que tiveram numa tarde de sábado, havia eu viajado para visitar minha família, dera com a língua nos dentes. Patrícia não gostou nada do que ficara sabendo. Chegando de viagem, chamou-me para uma conversa séria. Contou-me tudo o que soubera; tinha outra imagem minha, julgava-me um rapaz consciente, equilibrado emocionalmente, tudo o que soubera desmentia a sua imagem. Era melhor nos afastarmos.
Em verdade, nenhum de nós a conquistou. No que concerne a mim, devido aos muitos problemas e conflitos familiares; no que concerne a Patrício Orsini por não se poder confiar nele, não sabia guardar segredos que lhe eram confiados de modo particular. Nós também nos afastamos por esta razão. Não mais trocamos única palavra.   





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