Bons dias!
Dizer a inspiração me faltava é declarar-me hipócrita por estar ela presente em todos os momentos, seja escrevendo ou não,  observando o quotidiano, as coisas da vida; a falta dela não me impediria de fazê-lo, as experiências e vivências são di-versas, saberia enrolar o tempo até ir manifestando-se, a-nunciando-se aos poucos. Não me faltou. Na última semana, escrevi só tolices na minha agenda, nunca assisti a tantos despautérios e ridículos da pena; de alguns textos pude recuperar algumas idéias, embora o produto final não tenha satisfeito as minhas exigências e intransigências, ficaram bons, passaram apertados pelo crivo. A obrigação de preencher o vazio se intensificou em mim.
Preocupei-me. Conforme o andamento dessa fase, que é bem natural, a edição do jornal seria completada só de textos antigos, o que me não agradaria nem um pouco, seria uma oportunidade de os digníssimos leitores conhecerem das minhas velharias, quem sabe agradassem, gosto de mesclar os atuais e os velhos, assim se aprofundam nas idéias e na sensibilidade, o que é nalgumas perspectivas a arte para mim, em consonância com a linguagem e estilo, em harmonia e sintonia com o desejo do belo e da estética. 
Nada se me a-nunciava que pudesse, merecesse ser escrito, publicado, ser lido pelos leitores. Andava irritado, nervoso nessa semana, não sairia a edição, só na próxima, primeira vez na história, só quinze dias depois a nova, receberia ligações de todos querendo saber a razão de não haverem encontrado o jornal na banca, levantaram e não encontraram no alpendre, na caixa do correio, na rampa da casa a edição, o que teria acontecido, o sabor do sábado não puderam sentir bem íntimo, não riram à beça, fora um sábado sorumbático. Responderia sinceramente: “o que escrevi não merecia ser publicado, seria desrespeitar a consideração e reconhecimento de todos vocês; só criei porcarias esta semana, ficam na agenda. Na próxima semana, receberão a edição ainda mais aprimorada, tudo neste mundo são compensações”. Sabendo que todos diriam o mesmo: “não há como não gostar do que você escreve, não é você quem decide se gostamos ou não de suas obras”. Sentir-me sobremodo lisonjeado com estas palavras: isto é que ter crédito, posso escrever imbecilidades que todos vão gostar, bater palmas, o que nunca acontece com o nosso povo, penso que eles não querem sobrecarregar as mãos de tarefas.
Uma ligação mudou tudo, a veia de “Bons dias” me foi restituída, saltitei pela rua de tanta alegria e felicidade, depois da ligação – tive de sair para comprar uma caneta na papelaria da praça principal -, com discrição, obviamente, os transeuntes que nunca ouviram falar de mim sairiam dizendo mais um ficara louco, varrido, os que me conhecem tive sim um surto de alegria e felicidade, largou muito dos princípios, discrições, medos, dancei pelas ruas ao ritmo e melodia dos meus sentimentos, só gostariam de saber o porquê para fazerem o mesmo junto comigo. O diretor do jornalzinho de oposição estamparia na manchete: “Diretor dança pelas ruas para seu jornal fazer sucesso”. Se ele fizesse o mesmo, ninguém o acompanharia, sua especialidade é sensacionalismo chinfrim.
Rouquidão, em termos populares e vulgares... Afonia, em termos de nomenclatura médica, intelectual, ou seja, a voz alterada, devido a emoções exageradas, a sentimentos exacerbados e paradoxais, psicossomatização em verdade, a gripes muito fortes, acompanhadas de febre, acamação. Não sei, leitores, se, aos ouvidos de vocês, a rouquidão incomoda tanto o faz comigo, meus ouvidos vibram; não me servir da minha voz real, autêntica, original, é uma dor sem limites e fronteiras, isto é mais preocupante, sinto que os ouvidos das pessoas vibram com o meu afonismo, não é linda, voz de artista, de jornalista, apresentador de programas televisivos ou radiofônicos, mas fica extremamente cafona, tem-se a impressão de que sou um sujeito medíocre e mesquinho.
Há alguns dias que venho pensando em ligar para um amigo, um grande amigo, contabilista, em verdade, quem toma conta das finanças de meu jornal, para lhe pedir umas perguntas sobre o meu jornal, tem todas as edições, lê com assiduidade, em nossas conversas “in-off” tece as suas considerações e reconhecimentos, que muito me envaidecem, engrandecem, orgulham.  A rádio local procurou-me para uma entrevista a respeito de meu jornal que tanto faz sucesso, está na época de seu aniversário. Disse ao locutor, que é meu amigo, respeito-o muito, que não concedo entrevistas a ninguém simplesmente porque tenho urticária só de pensar na mídia, na imprensa, não me levasse a mal. Tive experiências de péssima qualidade com ela, dela corro a léguas.
Para tudo há uma explicação, razão: como iria pedir-lhe as perguntas, justificá-las? Fui adiando, amanhã ligo, digo de minhas saudades, aparecer quando puder, depois de amanhã ligo, digo-lhe de minha amizade e consideração, venha à redação trocar uns dedos de prosa, tomarmos uma cerveja no bar do Bento, comer uma picanha assada, colocar as fofocas em dia, almoçarmos em nossa casa em presença de minha Josefina, até a questão final: faça uma entrevista comigo – um amigo meu de outras terras, diria, tirando sarro de minha casa, ser muito esquisito alguém pedir entrevista, encomendá-la, pior que encomendar textos e críticas -, pergunte o que quiser sobre nosso jornal, você que tem tanto carinho e amizade por ele, responderei com dignidade e honra.  Leitores outros, realizado isto, questionariam sobre o problema de nada estar escrevendo que valesse a pena ser publicado, encontrei um modo de preencher este vazio, pedir ao amigo Robertinho Figueiredo fazer-me perguntas, transformá-las em uma entrevista.  
Quem muito pensa não faz e quem faz mesmo não pensa. Ligaria para Robertinho, pedir-lhe-ia as perguntas. De antemão, sabia que iria fazê-las de bom gosto, sentindo-se até lisonjeado.
A secretária atendeu. Pedi que o chamasse. Quando disse “alô”, quase cai duro e fedendo, com aquele vozeirão nos meus ouvidos. A sua voz é de bom tom, nem grave, nem fina. Com aquela voz nem parecia ser ele.
- Que isso, meu amigo? Virou homem de repente?
Dera uma risada. Até a sua risada estava estranha aos meus ouvidos.
- Não. Nada disso. Sou criança quando brinco de médico e paciente. Tomei uma chuvinha fina ontem, resultado foi este. Estou rouco mesmo.
- Estou sentindo bem nítido a sua rouquidão. Os meus ouvidos vibram.
- Isto é desagradável. Você não é o primeiro que diz minha voz rouca fica estranha, muito grossa.
- Tome um leite quente com limão, é bom para rouquidão.
- Vou sim tomar.
- Não o capeta?
- Como? Você disse tomar leite quente com limão, não com o capeta.
- Estou dizendo respeito ao limão capeta.
- Ah, sim.
- Capeta mata, meu amigo. Aquele limãozinho verde mesmo.  Não quero me sentir culpado. Sugeri um leite quente com limão, Robertinho foi logo tomar com limão capeta, bateu com as dez.
- Você quando quer ser cínico e irônico sabe com perfeição sê-lo. Já o é por natureza, mas querendo sê-lo, é um Deus nos acuda. Eu gosto de suas ironias.
- Estou ligando para lhe pedir um favor. Acontece que o nosso jornalzinho está fazendo aniversário mês que vem. A rádio local já me procurou para lhe conceder entrevista. Sabe de minhas urticárias com a imprensa, mídia. Recusei. Sou eu quem faz minha carreira com os meus leitores. A imprensa sempre canta de galo, é ela que faz o artista, a personalidade. Da noite para o dia, nasce um renome. De repente, puxa o tapete dele, cai na sarjeta, e não levanta mais. Também isto de entrevista em rádio, televisão, passa logo terminada. Entrevista escrita é outra coisa, estará para sempre registrada. O leitor sabe o que quer perguntar. Pensei em você, Robertinho. Faça-me cinco perguntas. Já pedi a outros leitores que o fizessem. Você poderia?
- Será uma honra.
- Obrigado. Faça perguntas tiradas do seu coração. Estas é que são verdadeiras.
- Para quando você precisa?
- Hoje é quarta-feira. Depois de amanhã, está bom para você?
- Está.
- Ligo, então. Para não tirar você do trabalho, deixe com a sua secretária. Ligo e apanho com ela.
- Combinado. 
Disse-lhe que não esquecesse de tomar o leite quente com limão para a rouquidão, limãozinho verde, não o capeta. Capeta mata.




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