GENUÍNA PALAVRA INDIFERENTE - Manoel Ferreira



Bons dias!
Abastança! Prazer, satisfação, orgulho, felicidade são o ela oferece aos homens de mãos beijadas, e nada há de mais delicioso, de melhor que ela, é de sentir mesmo diferente de tudo e todos, privilegiado, sorrisos de orelha a orelha, olhos brilhando desde a aurora ao sono, sonhos os mais esplendorosos, dependendo de quem não ligar para os olhares de esguelha, pode-se sair rebolando visivelmente pelas ruas e avenidas, especialmente pelas praças públicas, além de inúmeros amigos ao redor em todos os momentos, inclusive nos suntuosos banquetes ou simples cervejinha acompanhada de churrasco, carne seca com mandioca. Ser abastado é uma glória inestimável, e quem abastado é deve se orgulhar, mostrar sem pejo suas importâncias tantas. A vida é outra, a vida é divina, pode-se refestelar na rede à mercê dos segundos passando, por nada se é tocado, em nada os homens dizem respeito, que se danem com suas preocupações, aliás para os abastados o resto é resto, eles são os supra-sumos.
Tenho ímpetos voluptuosos, em presença de abastados, de lhes apertar a mão com veemência, dar-lhes os mais sensíveis parabéns por seus méritos de abastados, são merecedores de glórias e considerações inúmeras, dizer-lhes palavras belas e sensíveis, possível sendo eruditas, reconhecer-lhes, mas não o faço por temer que não correspondam à minha mão estendida, enfiem a mão no bolso, tirem a carteira, uma nota de cem e ma entregue, dizendo-me ser para o arroz e feijão do mês, neguem-se com prepotência a estender-me a mão, apertar a minha, não vão sujá-la com um homem sem qualquer mínima abastança, um verdadeiro pé-rapado, ouvir-me então nem pensar, a verdadeira palavra minha seria se fosse eu abastado, no mais é só interesse meu de lucro com o cumprimento, puxando-lhes o saco terei gordos resultados de atenção e prestígio no métier deles, em qualquer dificuldade serei atendido, em todos os eventos sociais serei por eles convidado de honra, com direito a um discurso cujos temas, com estes ou aqueles arrebiques e ornamentos, são os méritos da abastança, o que ela lega, propicia, proporciona ao bem-estar e felicidade quotidianos.
Passaria uma vergonha daquelas se lhes estendesse a mão, não correspondessem ao gesto, sentir-me-ia um verme, não apenas aos seus olhos, mas aos de quem estivesse presente, isto é que é um homem desprovido de senso, sem qualquer noção de sua miséria e do lugar que lhe cabe de condição e natureza.  Recusei-me, por duas vezes, em público, a corresponder ao estendimento da mão, por saber e reconhecer a hipocrisia atrás do gesto, apesar da seriedade estampada na face, a tonalidade da voz, até mesmo a postura de estar em pé, pé direito à frente – até creio haver sido isto que solidificou a minha intuição, percepção -, vi, assisti, enxerguei a olhos nus a perda do rebolado, o pé que estava à frente de imediato foi  para trás, o outro adiantou-se, à sinceridade estampada na face dera lugar o sentimento de vergonha, ridículo, vexame aos olhos dos presentes, o sentimento do isto que era. Foi num clube social, semana antes havia-me graduado na universidade. Fora um abastado quem me quis cumprimentar pela conquista do canudo universitário; ao abastado a cultura não tem o menor sentido, não paga os suntuosos banquetes, não paga as roupas de grife das lojas do shopping, não é objeto de ad-miração das pessoas, a cultura para os abastados é coisa de gente à-toa, não dá duro na vida, não gosta de trabalhar, não sabe o que é a realidade. Noutra ocasião, foi num velório. A pessoa chegou “toda - toda” para me cumprimentar, nem em gesto correspondi, continuei de costa, tocou-me nela para me virar, levantar-me, tocar-lhe a mão, abraçar-lhe, dizer-me “meus sentimentos”. Não o olhei nem de soslaio, isto porque era pura hipocrisia de sua parte cumprimentar-me, tinha-me na conta de um imbecil, idiota, não topava a minha cara.
A minha abastança não é econômica, não tenho onde cair morto, mas moral e sensível, nisto tenho todos os lugares para continuar vivo, estando no métier de homens cujos projetos são a dignidade e honra, para quem a abastança não é valor algum, não compra virtudes, não negocia esperanças, fé, não salva dos pecados, não redime de coisa alguma, enfim a abastança é apenas um objeto para extasiar os desejos, instigar as invejas... Se os abastados se sentem incomodados com a presença dos pés-rapados, com a imaginação de por eles serem cumprimentados e reconhecidos, imagine-se à luz de quais antemãos às revezes um indivíduo de princípios virtuosos e morais ser cumprimentado por um hipócrita e imbecil, motivo para desaparecer no mundo, jamais dar notícias do paradeiro. Compreendo as razões do abastado em não corresponder aos cumprimentos dos pés-rapados, mas não compreendo as razões do hipócrita e imbecil querer cumprimentar os homens de princípios virtuosos e morais, isto porque eles não têm qualquer noção real ou imaginária do que é isto ser virtuoso e moral, enquanto que os pés-rapados sabem o que é isto ser abastado economicamente.
Deixemos os prólogos, ainda que por mais sensíveis sejam, ainda que estejam sendo construídos em alto nível de erudição e transparência, ainda que id-“ent”-[ifiquem] o que perpassa a alma e o espírito, os objetivos de reconhecimentos in-versos, e vamos na lata aos fins que sempre foram os objetivos desta genuína palavra indiferente.
Minha observação nesse concernente traz o sabor do leite com chocolate, devidamente aquecido no fogão a gás, que uma pessoa, não importando sua classe social, credo e raça, bebe pela manhã antes de sair de casa para correr atrás de seus prejuízos, enfim a abastança é o desejo supremo e divino, e para isso é preciso muita persistência, força no trabalho quotidiano.
Na abastança é impossível compreender as lutas da miséria e na miséria é impossível compreender o refestelar na abastança; a máxima de que todo homem pode, com esforço, luta, insistência e persistência, chegar ao mesmo esplendoroso e brilhante resultado desta incólume verdade – ria abertamente quem quiser, o sarcasmo e ironia aqui são mais que reais e sólidos, é intencional a ek-sistência deles aqui, são divinos na contingência de tudo o que há de por trás; explicar-me-ei na continuidade destas palavras sui generis, podendo ser nas linhas, o que é fácil saber, nas entrelinhas, o que exige mais que abastanças, exige perspicácia e inteligência, na linguagem e estilo que me são peculiares nessas concernências -, há de parecer sempre uma verdade inestimável à pessoa que tiver trinchando um peru de natal...
“Afe marela!” no sentido in-verso e di-verso de todas as idéias que me foram possíveis esboçar, intenções desejadas id-“ent”-[ificar] para dizer da abastança, dos abastados, lembrando-me que se trata de uma consideração respeitosa e não ironias enviesadas, sarcasmos de esguelha, cinismos in-versos, o que, na minha parca opinião, constitui uma sátira aos modelos pré-concebidos dos valores e virtudes ditados pela sociedade, até isto de trincar um peru de natal, uma metáfora do que sempre me fez espremer os miolos à cata de compreender o porquê de os abastados se ruborizarem com facilidade, quando alguém se refere ás suas facilidades, despreocupações, indiferença a todas as coisas do mundo, não darem a mínima para a morte, ela nada significa, ficam vermelhos como peru. Talvez a abastança cubra isto, viverem isto nos seus interstícios, trancado a nove chaves, que é a prova dos zeros que seguem o úmero de suas finanças. Não o sei. Construi essa idéia no concernente para lhes não atiçar as lembranças dos homens que são exatamente iguais a todos os outros neste mundo ou no além.
Não é assim. A “afe marela” no sentido in-verso e di-verso de todas essas idéias aqui esboçadas ajudou-me, não há duvidar o quanto, a prosseguir nestas considerações acerca da abastança, dos abastados, mas me não indicou uma janela no infinito – parece-me que a haja fechado a cadeado – por onde con-templar um peru de natal numa mesa de miseráveis. Nas coisas deste mundo não é tão livre o homem, como supõe, não é tão feliz o abastado, como se apresenta em todos os lugares, pois há sempre quem o olhe, perguntando como tanta abastança foi adquirida, com trabalho honesto e digno não foi, as rugas faciais seriam muitas, o corpo alquebrado de tantas energias gastas, o cansaço presente nas linhas enrugadas da testa – ou roubou dos inocentes e ingênuos nos negócios à primeira vista inteligentes, mas escusos os bastidores das palavras persuasivas, ou recebeu de alguém íntimo uma suntuosa herança, que foi multiplicando através destas ou daquelas tramóias, e uma coisa, a que uns, orgulhosos e lisonjeados de suas palavras eruditas, do sentido da própria individualidade que lhes atribuem, denominam mau fado, outros, concurso de circunstâncias, e que eu batizo com a água cristalina do rio das verdades hipocráticas com o genuíno nome brasileiro de caigüirismo, impede a alguns ver o fruto doce e suculento, de ad-mirar o paladar, de molhar os lábios de êxtase e volúpia, de sensibilizar o estômago com seus ácidos peculiares, de seus mais hercúleos esforços.  César e sua fortuna! toda a sabedoria humana, em cujos interstícios e profundidades me inspirei para este esboço de minhas considerações intempestivas e respeitosas às abastanças e abastados, está contida nestas quatro palavras.
É isto uma sátira à luz do “afe marela! ”no sentido in-verso e di-verso de todas as idéias...” ou a expressão  de minhas verdades, o que penso e sinto, sem medo ou pejo de expressar, sem vergonha ou timidez de professar a todos os ventos, a todos os ossuários da terra de face e olhares voltados para a lua e as estrelas... Olho-me fixamente no brilho desta página, que pro-jeta uma imagem de minha língua que mostro, como a querer penetrá-la, em conseqüência, como resultado,m se se quiser, outras palavras ósseas venham abastar os sentidos e intenções que delas trazem dentro, outras palavras ossificadas venham consagrar vez por todas as verdades da abastança. Ao mesmo tempo ouço um estalido de minha língua, que reconheço como sendo de prazer devido ao gostinho agridoce de minhas abastadas ilusões e quimeras. Volto a cabeça para a porta do restaurante, vejo um jovem numa bicicleta, descendo a rua, esquecendo-me da imagem que se pro-jetou non brilho da página.
Não é orgulho, digo a mim – por que me orgulharia de a língua estalidar com genuína palavra indiferente. É um resto de pudor que a pobreza, miséria me não tiraram ainda, um simples obséquio para me não sentir discriminado frente às abastanças, diante dos abastados que me olham de olhos secos, de lábios murchos, para me não sentir rapando os pés, com a doce ilusão de tirar-lhes os calos secos, um simples dever de jogar com as palavras, esperando com o coração em riste, a mente antenada a todas as coisas da vida e do mundo.
A suspeita é a tênia do espírito – não confundir com teia, pois ela seria o que a aranha teceu e dela viveu, tece, dela vive; ao fim, ao cabo, teia se desfaz ao longo das intempéries do tempo, a aranha morre, não perece enquanto lhe resta a cabeça.  
Sinto em mim, parte muito presente e forte, parte, distante e fraco, o desejo imperioso de indagar o que é isto a abastança de minha genuína palavra indiferente.
Quem sabe por que fios tênues se prendem muitas vezes os acontecimentos humanos? Se alguém soubesse, não há duvidar que muitos enigmas e mistérios estariam solucionados, todos estariam mais tranqüilos e serenos quanto ao destino que lhes cabe no mundo, no além.
A suspeita! A porção dela varia conforme as necessidades morais. Eu mesmo nem sempre tive esta virtude intratável – não suspeito da veracidade da abastança de alguns homens, de outros sim, sei ser aparência, devem até os instintos, comem feijão, arroz e músculo, nem suspeito das origens da abastança de alguns, fruto de muito trabalho, de outros sei que ou viveram enganando trouxas, tiraram-lhes o que tinham, ou receberam herança – e porventura alguma vez fraqueei nestas sabedorias de antemão a quaisquer revezes, foram abrir uma cisterna, tomar água pura, cristalina, a água da Copasa faz muito mal, encontraram um tesouro. A fronte tornou-me sombria; a voz morreu-me nos lábios, e os olhos caíram-me  naquela atonia que exprime uma grande concentração do espírito.
Não ponho nisso a menor vaidade ou gloríola: saber que a abastança de alguns foi adquirida com dignidade e honra, que me importa?; saber que de outros foi ilicitamente, produto de roubo e canalhice, pouco se me dá, a vida é de cada um, a moral varia conforme os interesses, a vergonha, conforme os olhares de banda, o orgulho da raça e estirpe, conforme o troco de dezessete e setecentos dos vinte.
Em princípio, falando das abastanças e abastados, a suspeita que se me revelou a olhos nus foi se, em verdade, não me habitava presente e forte inveja deles, o incômodo que sinto em presença deles nada mais é senão um complexo de inferioridade, tristeza e desolação por rapar os pés e só carne viva se mostrar, nada mais; contudo, ao longo de minha fala, des-cubro o mais inusitado que se pode imaginar, des-cubro que a tênia da abastança é o destino iníquo e sórdido da espécie humana, por mais cínico que isto seja, por mais irônico que é, e disto de cinismo e ironia não revelarem a verdade das idéias, do pensamento e sentimento, só posso me expressar de modo elevado e consciente, a intenção sine qua non é insinuar como de fato sinto quando vejo abastados rebolando pelas ruas e avenidas da cidade, desfilando suas sui generis importâncias. Por um instinto verdadeiramente miraculoso, farejo, cão que sou dos valores do mundo, a crise e o descalabro dos bancos, e retiro a tempo os fundos de um real e sessenta e cinco centavos que tenho num deles, antes que a quantia seja considerada por alguns a rapada abastança de meus pés, por outros a realidade de minha miséria.

Tenho a particularidade, uma dimensão de meu espírito, contingência de minha alma, de parecer simplório com os meus sentimentos, orgulhoso com as minhas sabedorias e sapiências, sempre que me convém, nisto de abastados e abastanças, de rir com as rugas da testa. 

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