BECO DO SOSSEGO - Manoel Ferreira
Tempo virá, muito em breve, sonhar com ele não sonho,
se é que não está acontecendo já, inda me não chegara aos ouvidos e
conhecimento, anda por aí nas esquinas e alcovas, serei re-conhecido,
considerado, pelas ruas da cidade, o dedo em riste me apontará, como o
“cronista da merda”, pois que já lhes dei os meus bons dias com ela na pauta e
no bico da pena. Sendo “da merda” não me sentirei acintado, em conseqüência
aborrecido e triste, sentir-me-ei realizado, ao contrário; os leitores tiveram
suas risadas inevitáveis, ficaram alegras por toda a semana, seus lucros foram
maiores nos negócios, nos momentos de lazer entre um cliente e outro contaram a
crônica aos funcionários, aos amigos, a alguns de muita confiança emprestaram o
exemplar da edição, poderia tirar cópia Xerox, o que lhes agradeço pela
divulgação da crônica – sou lá eu responsável por as merdas sempre causarem
risos e gargalhadas, motivos de chacota e pilhérias várias? Agora, se ao invés
de dizerem “cronista de merda”, trocarem o “da” por “de”, “cronista de merda”
sendo, a imagem muda, são outros quinhentos mil réis a interpretação – o que é
“de merda” significa não ter valor algum, zero à esquerda, “professorzinho de
merda”, nada sabe de coisa alguma, “advogado de merda”, não tem a mínima noção
de leis e cláusulas, jamais ganhou uma causa; o “cronista de merda”
significaria nada tenho de cronista, as crônicas são sem sal e tempero,
ridículas, deveria ao invés de escrevê-las, dedicar-me a capinar terreno
baldio, a cidade está cheia deles, no centro algumas dezenas, sob os raios de
sol a tremerem o asfalto, só na minha imaginação ostento grandeza e orgulho, no
mais sou “pé rapado”, pobretão das letras crônicas -, o que me deixaria mesmo,
não apenas inferiorizado, relegado ao grau mi9l e dois abaixo de zero, abaixo
do rabo canino, mas in totum negligenciado, iria enfiar-me o corpo inteiro no
buraco do tatu, de lá jamais sairia, e outras “crônicas”, não apenas da merda,
seriam escritas, os justos pagariam pelos pecadores, os leitores que gostavam, apreciavam,
amavam, riam às gargalhas, sentiam-se felizes, faziam negócios lucrativos com a
felicidade sentida, não mais lerão única letra saída da pena com as tramóias da
Mao direita, e mesmo os que não gostavam poderão continuar a denegrir minha
imagem. Até de repente, eu!...
Ainda não aconteceu chamarem-me “cronista da merda” ou
“cronista de merda’, posso mais uma vez dirigir aos leitores meus bons dias,
tendo no desjejum a merda nua e crua, ela fora o meu nesta manha de maio, já
com os primeiros indícios do frio, fizera algum durante a madrugada, agora,
sete e meia, continua fazendo, inclusive estou usando uma camisa de flanela,
que terei de trocar ao meio dia, o calor será intenso, transpiro muito,
desodorante não adianta, e como sou cronista tenho de conquistar o riso dos
homens, não repeli-los de todo; correrem de mim às léguas, trocarem de calçada
para não passarem perto de mim, não sentir o meu odor fétido.
Bem! Deixemos o intróito, que visava preparar o leitor
para as gargalhadas, sentir-me feliz e realizado por atingir o verso
verdadeiro, e vamos à mais nova “crônica da merda”, com uma diferença sine qua
non, não é criação, não diz respeito à minha imaginação fértil, contaram-me na
infância, inda quando residia na Cícero Marques.
Não sei se mendigo, se pessoa comum, dizem as más
línguas haver sido um vereador dos mais odiados de nossa comunidade; a questão
era única, ele tinha nojo dos pobres, só beneficiava os ricos, amigos e
companheiros de jantares suntuosos nos restaurantes; sei que este homem, por
volta das seis e meia, sete horas da manhã, passava nesta rua da Cachaça Reis,
entrava no beco, abaixava a calça, nalguns dias expelia pura água, noutros um
troço duro, ambos fediam demais. Que chiste à memória do grande Shakespeare:
exatamente de frente ao beco morava Julieta, Romeu não iria ali para namorá-la,
devido à catinga do beco. O proprietário da casa já estava mais do que irritado
com a atitude da anônima pessoa de cagar à janela de sua residência. Gastara
certa quantia por mandar trabalhadores incógnitos limparem o local, tirarem as
merdas de lá. A continuar assim iria faltar comida na mesa de seu lar. Veria
todos os seus tostões irem embora devido à limpeza das merdas à janela de sua
residência.
Mas a coisa continuava. Tomara um decisão radical,
acabaria com a folgazarra do homem, desde quando descer a calça no mesmo
horário de sempre, cagar à soleira da janela, ir embora naturalmente,
inconcebível, pouca vergonha, descaratismo. Sentisse mais à vontade, sossegado
para a sua necessidade fisiológica, o nome do beco era sugestivo, Beco do
Sossego, mas ali era uma residência de família; aliás, para ninguém lhe
reconhecer, cagava de costas para a janela, quem na rua passasse, olhasse, não
saberia identificar quem era, ninguém o fazia mesmo.
A mulher do proprietário contestou sua decisão, não era
preciso tanto, escorraçasse-o vez por todas era o suficiente. Estava decidido,
alternativas outras não dariam resultados. Antigamente não existia o 190 para
comunicar, pedir providências; hoje existe, mas com certeza a polícia nada
faria, atender uma chamada de homem cagando à soleira de uma janela seria
absurdo, poderia até soltar os cães em que ligava, caçasse o que fazer,
desocupado, moleque, e “cositas” mais seriam os termos do policial atendente.
Planejar tudo minuciosamente. Comprou espingarda,
chumbo. Mandou um açougueiro preparar um tempero bem apimentado, o mais que
pudesse, comprou um saquinho de sal grosso. Encheu a espingarda com estes
ingredientes, embuchou bem.
Colocou a espingarda no canto da janela. Na hora do
jantar, a mulher ainda lhe disse que o castigo era exagerado, a bunda do
sujeito ficaria em carne viva, poderia até contrair alguma infecção fatal,
estava sendo desumano. Em nome de sua humanidade, o folgado continuaria cagando
à soleira da janela, gastaria certa quantia para mandar limpar, não deixar o
beco fedendo, os amigos deixando de fazer-lhes visitas. A decisão estava
tomada, não arredaria sequer metade de um pé. Uma coisa sabia mesmo: o folgado
não mais voltaria ao Beco do Sossego para dar a sua cagada matinal.
As seis horas da manhã, acordou, tomou banho, café,
dois ovos quentes, pão com manteiga na chapa, leite e duas fatias de queijo do
Picão, sentiu-se satisfeito. Estava mesmo com fome; com os preparativos para
resolver o grande problema, pouco comera na noite anterior, sentia-se até um
pouco excitado, imaginando o tiro, como a bunda do folgado ficaria, Tomou
banho, deu a sua cagada, estava com desinteria, o banheiro ficou numa catinga
só, Deus me livre e guarde, arrumou-se. Semi-cerrou a janelinha, sentou-se num
banquinho, colocou a ponta da arma na abertura da janela, ficou à espreita do
folgado chegar.
Chegou. Andava como se estivesse bêbedo, cambaleando.
Olhou para o lado da casa, tudo tranqüilo – sabia que ali residia uma família,
nunca deixou de olhar antes de abaixar a calça; a janela de vidro sempre esteve
fechada, não observou estar semi-cerrada, o bico da espingarda -, olhou para
trás, ninguém passava na rua, era ele a única alma àquelas horas da manhã.
Abaixou a calça. O proprietário preparou a pontaria, firmou o dedo no gatilho
da arma, tossiu por haver engasgado com a fumaça do cigarro. O folgado
agachou-se, fazia forças, seria um troço duro, não merda líquida. O tiro
certeiro. O folgado deu aquele pulo, gritando, saindo correndo com a calça
segura pelas duas mãos, o rabo quente de tanto tempero apimentado, chumbo e sal
grosso.
Neste dia, não se falou noutra coisa nas imediações e
redondezas da Cachaça Reis senão de um homem sair do Beco do Sossego com a
calça nas mãos, o rabo pegando fogo.
Passaram-se alguns dias, nada do folgado aparecer. O
proprietário mandou limpar o beco, capinar, deixou-lhe uma jóia de limpeza. Não
teria de fazê-lo outra vez. Soube uns dois meses depois que o folgado ficou
dias de cama de bruço com o rabo para o teto, tomando injeções e comprimidos
para a infecção. Mudou de ponto. Foi cagar no beco da Pensão Miranda, uma rua
acima da rua da Cachaça Reis, onde residiu Cícero Marques, só que não aos olhos
dos transeuntes, mas na entrada da “rinha de galo”, que não tinha porta. Cagava
escondido.
Até hoje dizem o folgado era o vereador mais odiado de
nossa comunidade, o que só beneficiava os ricos, odiava os pobretões; outros
dizem que era o Zé das Flores, mendigo, que sempre andava com uma flor em mãos,
o vereador usava uma rosa no bolsinho do paletó.

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