ESTRADAS SINUOSAS E VAZIAS - Manoel Ferreira



Nessa mesma noite, da angústia vazia, torno a escrever. Pela manhã, assim que acordo, por volta das oito e dez, aquando a mulher vem até ao quarto, toca-me, chama-me, precisa de sua roupa passada para ir trabalhar, e sou eu quem passa as roupas em casa, prefiro assim a vestir roupas mal passadas, vê-la vestir roupas com alguns lugares amarrotados, escrevo mais uma vez. Enfim, sendo minha mãe costureira, quem sempre costurou e passou roupas em vida, aprendi a vestir roupas muito bem passadas e costuradas. E escrevo sempre, em todos os tipos de papel que encontro, que peço aos proprietários de bares onde tomo uma cachacinha. Nos momentos mais inesperados, escrevo, ardentemente, sem pensar, com franqueza total, enfim preciso mostrar ao mundo e as pessoas como se transcorrem os meus dias, como estou a sentir-me em todos os momentos da vida.
Juro que gostaria, mais do que qualquer outra coisa no mundo, ter assuntos que dizem das boas atitudes humanas, mostrar as ações mais dignas e respeitosas dos homens, identificar suas condutas mais esplendorosas, resplendorosas, mas, infelizmente, não posso me furtar a escrever a respeito destes homens dignos de serem excluídos da raça humana, dignos de não haverem nascido. 
Na noite anterior, no barzinho, ouvi a história de um homem, aliás, deste homem dizem ser ele alguém eminentemente expedito, alguém que faz a corte de todos, mas para que enfim compreendam a sua atitude mais mesquinha, arbitrária, gratuita. Éramos dois homens que estávamos a tomar um pinguinha, falando sobre as arbitrariedades dos homens, suas mazelas, seus pitis, seus achaques. Havia uma música ambiental, vinda de uma rádio local, mas o barman escutava a nossa conversa, parecia que conhecia bem aquela situação, conhecia o homem de quem estávamos a falar, admirando a nossa coragem e determinação de estarmos a falar sobre, e, de algum modo, sabia ele que eu iria escrever a respeito, e, na sua opinião, era bem arriscado, iria insatisfazer a muitos.   
Dizem que estava este homem a fazer uma viagem, aquando, antes de ele passar no local, houve um acidente, a pessoa morrera de imediato, e, passando no local, viu o corpo envolvido em sangue. Preocupou-se ele em recolher um relógio de ouro, uma correntinha de prata, uma pulseira de ouro. Não dera a mínima assistência ao morto, mesmo que nada mais houvesse a ser feito, nada mais havia a ser feito. Entrou no carro. Foi-se embora. Dias após, apareceu em sua cidade ostentando as jóias no pulso, no pescoço. Mostrava-se exultante com as jóias, mostrava-se um tanto quanto objeto de admiração das mulheres e cúmplices. Era um homem outro, uma diferença que desejava ser vista por todos. Alguém reconheceu ser da pessoa que morrera no acidente. Enfim, aquele homem expedito havia roubado um defunto, e, pensando que ninguém fosse reconhecer os objetos de seu furto, ostentou-os a todos.
Por uma noite, fico a lembrar-me do que me contaram no barzinho, um ato eminentemente espúrio, como um homem consegue ser tão arbitrário a ponto de roubar um morto, alguém quem ainda nem tinha se esfriado, morrera não fazia muito, um homem sem qualquer escrúpulo, sem qualquer sensibilidade, um ladrão de defunto.
Absorvo todas as palavras de quem me contara o acontecido, sua nobreza de coração, estava mesmo de queixo caído com aquela atitude, sua mente lúcida de quem realmente se assusta com o que o homem  é capaz de fazer para mostrar alguma importância, alguns bens, algum poder, embora em realidade não possua um tostão furado em seu bolso.
Se digo que absorvo todas as palavras de quem me contara o acontecido sobre o fato do expedito homem haver roubado um defunto, é que de alguma forma procuro um modo de contar esta história, num estilo original, originalidade esta que consiste em não o identificar, de não dizer nome, mesmo que fictício. Ademais, conheço bem este homem, aliás, em todos os sentidos, intragável, alguém de todos os modos difícil de se conviver com ele, alguém em quem não se deve nem se pode dar atenção, confiar, ter um pouco de compaixão e solidariedade, ao contrário, deve-se evitar em todos os sentidos possíveis e impossíveis.
Conheço escritores, jornalistas, que são capazes de citar nomes, parentesco, a fim de mostrarem importância, serem eles homens de conduta ilibada, mas nada mais desejam que fazer sensacionalismo, de mostrarem ser alguém de valores indiscutíveis – homens da imprensa, destes que se julgam a nata fina da sociedade.
No que concerne a mim, não preciso mostrar importância, não sou da imprensa, não necessito em hipótese alguma de justificar as minhas condutas arbitrárias, gratuitas, com as mazelas dos homens, da humanidade. Desejo apenas mostrar às pessoas o que os homens são capazes de fazer para mostrar dignidade, importância, para mostrar que têm bens, são poderosos, não importando onde é que conseguem os objetos de suas importâncias e valores.
Estou aprendendo a encarar o mundo de uma nova maneira: todo mundo é capaz de tudo, nada há no mundo que o homem não seja capaz de fazer. Mesmo assim, não sou capaz de entender algumas ações, esta, então, de um homem ser capaz de roubar um defunto, antes mesmo de ele se esfriar, e depois ostentar as suas jóias na cidade inteira, não sou capaz mesmo, e a minha incapacidade assume a forma de uma denúncia, de uma crítica, não importando o que outros, amigos seus, defensores seus, justificadores seus sejam capaz de dizer a meu respeito. 
Estou contendo os verbos com uma coragem que devo certamente admirar. O silêncio é como uma pausa entre gritos. O único som é o de os dedos estarem a digitar as palavras no computador, voando pelas páginas deste escrito. A vontade é mesmo de soltar os cães com os seus dentes bem afiados.           





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