A PREÇO DE BANANA
Bons dias!
Banana tem preço sim; dependendo da qualidade, umas custam mais, outras
menos, na mão de vendedores ambulantes custam menos qualquer qualidade, às
vezes nos sacolões o preço é módico. Dizer que algo foi comprado a preço de
banana significa haver sido o preço o menor possível, até menos que a banana. A
coisa vendida não presta nem para jogar fora, por vez dura mais que aquelas nas
lojas que custam o olho da cara. A
necessidade de dinheiro faz o preço da coisa ser baixo, as bananas caras em
relação a ela. A preço de banana vive na boca do povo, as coisas continuam
sendo compradas.
Há alguns semanas atrás tive a alegria de me encontrar com o primo Éder
Luiz, de quem gosto muito, jamais tiver qualquer desavença, somos grandes
amigos. Magérrimo, bastante mal vestido, puxou o pai que também vestia mal,
embora tenha sido proprietário de loja de roupas prontas. Éder Luiz estava com
feridas nos braços, dissera haver caído de bicicleta. O rosto inchado.
Compreendi sua resposta, a verdade mesma é a bebida, bebe demais. Chamei-lhe a
atenção, tinha de se cuidar, é novo ainda, cinqüenta e sete anos, apresenta uns
setenta, está realmente acabado. Disse-me não ligar para coisa alguma, com nada
se importa na vida, se morrer embriagado nalgum canto da cidade, de cirrose,
não está nem aí. Deveria fazê-lo, disse-lhe carinhosamente, a vida é
importante. É um excelente artista-plástico, um bom homem, sincero, digno,
honesto, diferente de alguns de nossos tios que são verdadeiros hipócritas.
Pensasse em minhas palavras, no que estava fazendo da vida, estando jogando-a
fora, e nada justificava. Pediu-me pagasse-lhe uma pinga; hesitei, consenti no
pedido por ser horário de almoço, estava eu comendo carne salgada com mandioca.
Tomou a pinga num só fôlego, ver alguém tomar pinga assim admira-me, como pode,
bebo aos goles como se bebe outra bebida, tomo uma dose em vinte, trinta
minutos, saboreando-a. Beliscou um pedaço de carne e mandioca, despediu-se,
montou na bicicleta, foi embora. Fiquei sensibilizado com Éder Luiz, estava
acabando com sua vida a preço de banana; a vida lhe foi difícil com o pai,
sofreu muito nas garras dele, armazenou seus traumas e conflitos – Homero era
metido a moralista, intransigente, só aparência, pois que na realidade era um
verdadeiro imbecil, idiota, era honesto, só isto, diferente de seu irmão Helói,
um traste sem limites e fronteiras. A arte-plástica não lhe ajudou a superar as
dores em si trazidas dentro, mas se quisesse, inteligente e sensível que é,
poderia superá-las, seguiu outras veredas na vida.
Encontrando alguém que lhe dissesse as coisas com ternura e carinho,
mostrasse-lhe amizade e amor, sentir-se-ia incentivado a mudar de vida; fiz
isto com ele, sorriu com as minhas palavras, tenho-lhe mesmo grande afeto e
carinho.
Comentei com minha esposa sobre a situação de Éder Luiz, estava acabado,
um homem de cinqüenta e sete anos apresentando setenta, as bochechas inchadas
por causa de bebida. Dissera-me ela algo mais que verdadeiro; “A mulher muda a
vida de um homem. Ele não tem ninguém. Além do mais, como você me contou,
esteve preso por tentativa de assassinato”. Em verdade, devido ao fato de
alguém numa boate haver metido a cara com a mulher com quem estava, dera alguns
tiros, não chegou a matar quem se meteu com a mulher, a pessoa esteve às portas
da morte.
Após o café da manhã, tenho o hábito de andar até por volta das oito e
meia, quando venho para a redação, começo o meu dia. Vou tomar o meu cafezinho,
comprar cigarros, na Padaria da Praça do
Mercado. Encontro-me com alguns conhecidos, troco dedos de prosa.
Encontrei-me com Éder Luiz. Hematomas nos olhos, muito vermelhos, mal
vestido, as bochechas ainda mais inchadas. Fez a barba, cortou o cabelo. Caíra
novamente de bicicleta. Bêbado. Estava sem a prótese superior. Em verdade, caiu
de cara no meio fio da calçada, quebrou a prótese. Chamei-lhe a atenção,
precisava cuidar de si, não fiz menção à bebida. Sendo um homem radical,
poderia achar ruim comigo por lhe dizer sobre bebida, chamava-lhe cachaceiro, e
não era isto. Nada me respondeu. Sorriu apenas. Contou-me alguns casos da
família, não sendo de meu conhecimento – aliás, estas coisas não me interessam,
só com poucos parentes mantenho relações, assim mesmo não os procuro. Falou-me
dos filhos de uma tia nossa que viria passar o Dia das Mães com ela; outro tio
que estava às portas da morte com problemas de coração, bebida, as doenças
fatais da família. Ouvi-o com atenção, olhando o rosto desfigurado com as
conseqüências da pinga, sensibilizado, continuasse bebendo tanto, morreria
logo. Como está não lhe dou mais três anos de vida.
Quase me esqueceu “a preço de banana”. Assim que nos encontramos, após o
“Bom dia! Como vai?!”, enfiou a mão no bolso, retirando um relógio mais do que
antigo, daqueles relógios que os antigos usavam no bolso da calça, corrente
presa pela alheta da calça, creio que de ouro, não sei reconhecer.
- Meu Deus, este é do tempo do onça... Comprou a preço de banana –
disse-lhe em tom de brincadeira; repetiu minha frase como se estivesse pensando
que não teria condições de comprar por preço maior ou exorbitante, sentiu-se
ressentido com a minha insinuação; isto não era verdade, não pensei nisto; pensara
que uma pessoa não era dispor de um relógio tão antigo, se não estivesse muito
necessitada de dinheiro; algumas pessoas nem por preço exorbitante não dispõem
deles.
- Não vai acreditar! A pessoa me ofereceu por cinqüenta reais. Tinha eu
só dez no bolso. Não é que aceitou a quantia. Vendeu-me.
- Isto é que é estar precisando de dinheiro. Ter uma nota no bolso.
- É boa marca!
- Sei disso! Parece-me ser de ouro ou folheado a ouro. Não sei
distinguir estas coisas.
- De ouro. Mandei um ourives olhar e avaliar. Valeria mais ou menos cem
reais, tendo em vista a sua conservação.
Continuamos a conversar. Não demorou muito o pedido seco.
- Tem cinqüenta centavos aí?
Não tinha. Tinha dez centavos. Não dava.
- Para quê? Se é para o cafezinho, fico devendo. Sempre venho aqui.
- Não. Quero beber uma pinga! – disse-o, olhando para uma vendinha do
outro lado da rua.
- Não serei eu a pagar-lhe pinga, Éder Luiz... Também bebo, mas nunca
logo ao amanhecer, e não fico embriagado. Sete horas da manhã. Isto não é hora
de beber pinga, rapaz. Está parecendo mendigo. Está acabando com sua vida com
isto de beber tanto.
Carinho, ternura, amizade não tiram o vício da cachaça de um homem.
Depende de sua decisão. Se a bebedeira está muito avançada, só mesmo com
tratamentos, e tenho a certeza de que Éder Luiz não vai aceitar nunca tratar-se
de alcoolismo, é muito orgulhoso, cabeça dura. O que questiono mais é a razão
dos grandes e eternos artistas sempre estarem envolvidos com o alcoolismo,
muitos já morreram devido a isto. O que mesmo acontece jamais soube responder.
Horas depois de nosso encontro, estive conversando com outro primo,
advogado renomado, dizendo-me: “Éder está mesmo bebendo muito. Chame-lhe a
atenção. Ele ouve você”. Disse a Custódio que da próxima vez que nos encontrássemos,
iria ter uma conversa mais séria com Éder. Na verdade, vou ter de dizer: “Éder
Luiz morrerá de beber; enfim, sente-se culpado da tentativa de assassinato, de
haver sido preso por alguns anos”.

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