BANALIDADES GRAVES E SUNTUOSAS - Manoel Ferreira
Era uma vez um vereador, demagogo, chamado Alfredo, o qual em
cosmografia professava a opinião, rangia os dentes, tirava as vestes e pisava
em cima, armava o maior barraco, rodava a baiana em contrário, de que este
mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia poder para a o povo.
A sua plataforma de candidato às eleições estava nesse bordão: “Eu sou vós; vós
sois eu”. Com ele, noutra eleição, tornou-se presidente da Câmara Municipal.
Eleito, declarou que, para maior lustre de sua pessoa e do cargo que
ocupava, passaria a chamar-se, ao invés de Alfredo, Alfredão. Sob conversas em
todas as esquinas da cidade, elogios os mais empolados – o que não conseguira
realizar em sua gestão de simples vereador, tendo encontrado pela frente, de
costas, de lado, inúmeras oposições, inimigos correligionários, para um deles
esteve quase chamando a polícia na Câmara, de tanta pressão que estava
sofrendo, só não o fez porque é um órgão público, sobremodo comprometedor a
polícia lá; colocou-o para fora do gabinete, quase aos murros e pontapés;
presidente mandava e não pedia, ordenava e não solicitava; o povo chegaria ao
poder -, sentiu-se o grande, o máximo, o maior dos políticos em toda a história
daquela comunidade.
O poder desmiola quaisquer mentes, tempo das grandes banalidades graves
e suntuosas para consagrarem e abençoarem as condutas, posturas. E quando não
se tem qualquer coisa a fazer, inventa-se, cria-se, institucionaliza-se asnices
as mais variadas. Desmiolar o que não tem miolo é impossível, soa aos ouvidos
uma cretinice das mais divinas. Miolo Alfredão não tinha, e para mostrar ao
povo que estava equivocado com este juízo a seu respeito começou a sua
trajetória de presidente criativo.
Como era careca desde tenra juventude, decretou Alfredão que todos os
vereadores fossem igualmente carecas, ou por natureza, como ele, ou por máquina
a zero, e proclamou este ato em razão de princípios políticos, isto é, que a
unidade moral do Estado exigia irreversivelmente a conformidade das cabeças.
Ordem de Alfredão, se não cumprida à risca, tinha graves conseqüências, o homem
sabia ser autoritário, ditador, além do descrédito do povão, os jornais
sensacionalistas publicando suas matérias acintosas, os podres todos nas linhas
bem traçadas; ele mesmo colaborava com os editores que, porventura, não estivessem
a par de alguns pormenores da pessoa na pauta das críticas ácidas, elencava
para eles sempre as coisas particulares e íntimas, sobretudo aqueles que
pulavam a cerca sem dó nem piedade, sem qualquer medo de as esposas
desconfiarem, o povo mandar a pua. Lá
foram os vereadores, um a um, à barbearia de Praxedes rasparem as cabeças,
deixá-las brilhando, expostas ao sol escaldante de todos os dias. Não se podia
usar boné, isto era contra a unidade moral do Estado. Outro ato em que revelou
igual – não sei se diga “sapiência”, não sei se diga “sabedoria”; indeciso,
prefiro dizer “sabedoria da sapiência” – foi o que ordenou que os vereadores
cortassem os bicos dos sapatos do pé direito, sem alteração na sola, deixassem
os dedos à mostra, dando aos seus súditos o ensejo de se parecerem com ele,
enfim “eu sou vós; vós sois eu”, que padecia de um calo seco sem solução.
Agora, imagine o leitor, os vereadores carecas, de terno e gravata, o pé de
sapato direito sem bico, que cena excêntrica, exótica.
Passava a tarde inteira em sua cadeira giratória na presidência da
Câmara Municipal espremendo os miolos para outras criações, invenções. Paletós
com as mangas cortadas, esfiapadas, só a manga comprida da camisa, impensável,
o povo iria dizer que suas intenções eram de fazer do órgão público um
picadeiro de circo, pane et circense. Havia colocado os óculos sobre a mesa
para coçar os olhos, pois não tinha dormido minuto sequer à noite, estavam
vermelhos, ardendo com a falta de sono, passara a noite elucubrando invenções
para os seus quatro anos de presidente. O uso dos óculos redondos não se
explica de outro modo senão por uma oftalmia que afligiu a Alfredão, logo nos
primeiros seis meses de sua gestão de vereador. A doença levou-lhe um olho, e
foi por esta razão que se revelou a vocação poética de Alfredão, porque,
tendo-lhe dito uma das secretárias, chamada Õmega, que a perda de um olho o
fazia igual a Aníbal, - comparação que muito o lisonjeou, sentiu-se o único
político-poeta da comunidade, faltava-lhe fazer versos. O vice-presidente, Beta,
que amava ridicularizar Alfredão com suas vaidades de grande político, de homem
orgulhoso de sua estirpe de personalidade máxima aproveitava todas as oportunidades
que se lhe revelavam para este objetivo, deu um passo à frente, e achou-o
superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Não dera outra coisa: ordenou
que todos os vereadores usassem óculos redondos, a lente esquerda escura,
através dela não se enxerga nada. Houve algumas contestações dos vereadores,
que besteirada era aquela, não sofriam das vistas, não haviam perdido um olho
devido a oftalmia. Eles não eram ele e ele não eram eles. Contestação vã em
razão de suas chantagens, ameaças. Carecas, bicos de sapato do pé direito
cortados, mostrando os dedos, óculos redondos, a lente esquerda escura...
A sua namorada, Heloísa Brandão, fazia os seus versos, nas horas de
folga, na clínica oftalmologia Santa Luzia. Era ela prendada, educada, graduada
em História pela faculdade, cultivava a música e a poesia, amava os cantores da
Bossa Nova, amava os poetas do modernismo, especialmente Carlos Drummond de
Andrade; era requestada por alguns políticos para um poema sobre eles, seus
sonhos e utopias, suas esperanças, suas sensibilidades e sentimentos nobres,
isto era muito importante para eles, o povo veria que vida pessoal e vida
política eram duas coisas ao extremo opostas, podiam cometer as maiores gafes
na carreira, podiam praticar atos verdadeiramente absurdos e arbitrários, mas
como homens a coisa era bem diferente, eram homens dignos de reconhecimento e
consideração por suas idoneidades sentimentais e sensíveis. Heloísa tinha sua
coluna no Diário da Comunidade, um tablóide semanal, onde publicava a sua obra
poética, era bem aclamada pelos seus leitores, eram matérias de estudo nas
escolas, os alunos babavam com o romantismo dela, seguiam à risca na vida o seu
romantismo, era uma espécie de “clube dos românticos” com os poemas de Heloísa
Brandão.
Em parceria com todas as
instituições de ensino, promoveu um concurso literário. O aluno ou aluna que
escrevesse o melhor poema sobre
política, elogiando os seus feitos e obras sociais, seria agraciado com uma
bolsa de estudo até a faculdade, não importava que não fosse eleito noutras
eleições, a bolsa de estudo seria tirada de seu bolso, dinheiro não lhe
faltava. Concorreram ao concurso vinte estudantes de todos os níveis de ensino,
desde o médio ao superior. Um dos poemas foi julgado por Heloísa Brandão superior
aos outros todos. Alfredão não aceitou o poema, pois que o aluno comparou a
política dele com o seu calo seco sem solução, aliás com o título Calo seco.
Anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro. Não queria de modo
algum poemas de temas políticos, melhor seria se os alunos escrevessem poemas
românticos. Por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que se
empregassem só palavras eruditas, destas que não se usam mais, constam apenas
de dicionários, foram esquecidas de todo ao longo do tempo. Não havia nenhum
concorrente, mesmo da faculdade, que houvesse estudado os clássicos, quase
ninguém ouvira ao menos falar o nome deles. O poeta que escrevera o poema
indicado por Heloísa Brandão como superior aos demais, lera às pressas alguns poetas
clássicos, os que pôde, tinha só um mês. O seu poema outra vez foi o melhor.
Alfredão de novo anulou esse segundo concurso, sua justificativa foi que o
poeta achincalhou a sua sensibilidade com o bordão “eu sou vós e vós sois eu”,
que usou como estribilho; vendo que no poema vencedor as máximas latinas davam
singular graça aos versos, contrastavam com o estribilho, revelando intenções
jocosas, decretou que no novo concurso ninguém mais usasse erudição nos poemas,
só se poderia usar palavras modernas e particularmente as da moda. Terceiro
concurso, e terceira vitória do poeta.
Alfredão, soltando os cães de tão furioso, abriu-se com o
vice-presidente, pedindo-lhe sugestões inteligentes para o concurso, precisava
dar a bolsa de estudo, com isto conquistaria a confiança das escolas, “os
políticos vão e a cultura fica”, ela é que abre o desenvolvimento e progresso
em todos os níveis, um povo poético, culturalizado, faz singular diferença nos
destinos históricos e políticos. Se não desse a bolsa ao poeta, o seu bordão
cairia do galho, perderia a confiança de todos, estaria aniquilado.
- Alfredão, a minha idéia é que você mande recolher das escolas todas as
obras de poetas clássicos, todos os dicionários, e se encarregue de compor um
novo vocabulário. Você não gostou das máximas latinas. Você não gostou dos
termos modernos, da moda mesmo. Os alunos carecem de novo dicionário.
Alfredão com sua namorada Heloísa Brandão por três meses, dia a dia, de
seis horas da tarde às três da manhã, prepararam o novo dicionário que seria
usado pelos alunos para escreverem o poema da vitória, e mais, como adendo no
dicionário, poemas de Heloísa Brandão com as novas palavras, que serviriam de
inspiração aos alunos. Decretou o novo vocabulário, o uso dele em todas as
escolas, seria a língua oficial daquela comunidade, e declarou que ia fazer-se o concurso
definitivo para obter a confiança das instituições de ensino, dar a bolsa de
estudo. A confusão passou do dicionário aos espíritos;
toda a gente andava atônita, ninguém entendia ninguém, não estava havendo
qualquer tipo de comunicação.
Dera Alfredão noventa dias para o novo concurso e foi recolhido trinta
poemas. O melhor deles, apesar da língua absurda, foi do mesmo poeta,
juntamente com o vocabulário novo usou os ditos populares referentes à
política, uma verdadeira crítica às banalidades graves de Alfredão. Alfredão,
alucinado, mandou expulsar o poeta da escola, aluno desta índole era uma pedra
no sapato do sistema.
Desgostoso de conquistar a confiança das instituições de ensino, de
premiar o vencedor do concurso, encerrou-se por quinze dias no gabinete da
Câmara Municipal, lendo a política de Aristóteles, passeando ou meditando sobre
os seus próximos passos na política, o que mesmo iria fazer para executar com
eficiência os quatro anos de gestão como presidente da Câmara Municipal.
Parece que a última coisa que leu foi um poema do poeta Jaime França, e
especialmente estes versos, que parecem feitos de encomenda:
Por onde andar, mil
acusadores
Haverão de espreitá-lo,
Vituperando-lhe os
passos,
Insídias e cavilações,
Aos quais ele,
simplesmente,
Adoraria aniquilar,
Num esforço sorrateiro e
contínuo,
Para atingir tal
intento.

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