LÍMPIDA FONTE DE SORRISOS Manoel



Outro de meus amores é a música, ouço sempre, escrevo ouvindo músicas. Há di-versas que amo, por vezes canto no banheiro; dentre elas, Blowing in the wind, Bob Dylan, uma música para refletir não apenas num dia de inspiração, sensibilidade à flor da pele, mas a todo instante da vida.  A sua profundidade é imensa.
Re-flito, aqui, no estribilho: “The answer, my friend, is blowing in the wind”. Quanta vez, ouvindo, perguntei-me sensibilizado se o vento poderia trazer nas linhas do tempo, nas entrelinhas da história dos homens e da humanidade, nas além-linhas das dificuldades, problemas, conflitos, dores e sofrimentos, as imagens que foram desfiguradas pela ausência da alegria, deixando a carne da vida entregue aos caninos do cão sofrimento? A história, acompanhando a mordida, em todas as suas fases e processos, em todas as circunstâncias e situações, sempre em vicioso círculo, sem chegar, apenas cumprindo o quotidiano dos dias, em seu ritual real e presente, vendo ser escrito, na medula da alma, palavras que pesaram nas faces, trouxeram a sombra e impediram a dança, as saltitâncias alegres e contentes, os passos ritmados da música, que sensibiliza a vida, tornam-na divina?
Há alguns anos, triste, desconsolado, sem quaisquer esperanças de ver a vida mudada, de sentir ainda que distante alguma alegria, desci a Joaquim Felício em direção ao Ponte Leão. Lá não cheguei. Sentei-me debaixo de uma árvore numa calçada, e, olhando um terreno baldio próximo ao córrego Santo Antônio, pensando em toda a minha trajetória de vida, não conseguia sentir que dentro em mim houvesse momentos de felicidade, alegria, contentamento, tudo eram dores, tudo eram sofrimentos.
Aqui estou nesta mesma calçada, debaixo da mesma árvore – lá sei eu a razão de vir a este lugar novamente -, nesta manhã de maio, três dias antes do Dia das Mães. Vivia uma insegurança quase já perpétua. O medo de perder o tempo de vida e não entrar no futuro deixava-me entristecido, angustiado, não me deixava pensar, não me permitia olhar o uni-verso distante, pro-jetar os meus sonhos aos horizontes distantes . De sentir por um fio as conquistas passadas, correndo o sério risco de ver a corredeira destes dias difíceis levar para longe de mim as pessoas e as coisas que queria sempre por perto.  O que seria de mim se isto acontecesse, sabia das angústias que sentiria no mais profundo de mim, pois que, sendo o homem vocacionado à felicidade, o contrário significa plena e absoluta depressão.
Tudo que eu gostaria de dizer neste momento em que reflito sobre o meu passado, sobre todas as coisas que vivia, estava passando, poderia ser aberto com esta frase: “Desaprendi a sorrir”. Consigo pensar, vislumbrar, acompanhar na memória algumas palavras em suas falas engraçadas, em seus momentos de conversas com os amigos sobre algumas situações de alegria que viveram, experienciaram. Sinto nada haver de natural, não é espontâneo, fazem forças inestimáveis para isto. A sensação que tenho, quando as ouço, vejo-as, é que o riso mora só na boca. É só uma articulação de músculos, no fundo a alegria esta ausente, envelada por todas as tristezas, desconsolos, desesperanças, não sabem quando será possível recuperá-la, se haverá algum instante de suas vidas que serão despertas das sombras, das escuridões dos sofrimentos e dores.
O mais sério, contudo, aconteceu quando, ontem, tendo ido ao Asilo São Vicente de Paula, onde minha mãe morreu com noventa e dois anos, às três horas e meia da manhã, dormindo, tendo lá ficado apenas três dias. Dissera-me o gerente que ela estava com sérios problemas de rins, mas o mais sério era ter estado ela muito triste, deprimida. Perguntou-me o que havia acontecido para tanta tristeza, depressão. Expliquei-lhe os motivos nos menores detalhes, o que se admirou bastante, dizendo-me como poderia alguém causar-lhe tanto sofrimento, sendo ela tão vellhinha, extremamente necessitada de carinho, compreensão, amor, ternura. O mundo está mesmo muito errado.
Saí do asilo pensando nas coisas do mundo. As pessoas têm vivido em desculpas e justificativas constantes. Amanhecem cansadas. Não têm ânimo para coisa alguma. As noites lhes deixam longas horas olhando o teto, ouvindo o tique-taque  do relógio da parede, e, ao dormirem, estão de costas para a pessoa que está do seu lado. Estão de costas para o mundo.
Chegam no trabalho com o humor alterado, com os nervos consumidos pelas contrariedades. Ao ser perguntadas por aquele estado emocional, justificam com problemas em casa, o marido que não dis-põe de um segundo para conversa, os filhos que não dão atenção, não respeitam, as ingratidões deles. Retornando ao lar, com expressões ainda mais fortes, desculpam-se dizendo que estão com dificuldades no trabalho, problemas com os colegas. Estão sempre culpando alguém ou algo por estarem assim, por haverem perdido a alegria, por não mais acreditarem no futuro, por não saberem mesmo o que é a fé, por não darem uma chance à esperança, esvaziadas de alegrias... Acabam descontando nas pessoas o descontentamento, obrigando-as a paciências ilimitadas em seus favores e negando quando pedem a suas...
Mesmo que o homem não fosse vocacionado à felicidade – esta vocação habita-lhe o espírito, é uma graça divina -, sonharia com ela no quotidiano de sua vida, entregar-se-ia por inteiro em busca de torná-la real, de senti-la presente e real em si, desfrutá-la. Poucos são, hoje, os que sabem dessa vocação, que a sentem no mais profundo. O tempo levou o conhecimento, o tempo levou o sentimento, o tempo levou o desejo e vontade de con-templá-la.
O riso é uma das linguagens deste estado de alma. Houve descuido dos movimentos mais importantes, as atitudes essenciais, a busca do conhecimento. Abordou-se a vida com as naus de conquistadores. Invadimos suas praias, tiramos com determinação seus valores e virtudes naturais, suas crenças e fé, seus deuses e mitos, incutimos-lhes nossas arbitrariedades. Reviramos seus tesouros. Depois jogamos pesada âncora num pensamento, idéia, que, como um arpão, flexou o corpo e condicionou as alegrias ligadas às posses, aos bens materiais, ao mais fácil, ao efêmero, ao presente sem futuro. Este tipo de alegria não passa de alegórica ilusão, muitos vestiram suas ruas com pedras de brilhante e hoje não têm sequer uma pessoa que caminhe por elas...
O que é isto – o sorriso? Se não se lhe sente, se não o sabe habitar nosso inconsciente divino, nosso espírito, como podemos definir, conceituar? Qualquer palavra a respeito, se não justificativa de sua ausência, vazio incólume e insofismável, são ilusões, fugas da realidade vivenciada e experimentada.
O sorriso, meu amigo, é o con-sentimento do futuro. Não sorri, aquando estive sentado à calçada, debaixo da árvore, próximo ao córrego Santo Antônio, não o sentia em mim, não sabia estar en-velado pelas situações e circunstâncias vividas, mas me lembra que, levantando-me, olhara ao redor com muita atenção, sensibilizado com as reflexões feitas, de frente mesmo para tudo durante a vida, sofrera bastante, mas fora verdadeiro, dissera-me que talvez a partir delas, tudo viesse a transformar-se, viveria outras realidades, seria outro homem. Indo embora, não me lembra que sentimento me perpassara o íntimo, dei uma gargalhada daquelas, senti-a presente e forte.
Aceitei as verdades vividas, erros, enganos, arbitrariedades, conflitos, traumas, dores, aceitei a vida passada. Até mesmo aceitei que a perda da alegria era a perda e minha vontade de lutar pela superação, de sonhar com outros uni-versos e horizontes, de meus desejos de outras conquistas, de me perdoar e desculpar pelos erros cometidos. Olhei a vida com os olhos sadios, não traí a confiança. Abriguei no coração a lealdade. Re-colhi e a-colhi nele a fidelidade aos meus sonhos, utopias. Segui os caminhos, acreditei nas palavras. Admiti as feridas que as ruas escreveram em meu corpo, sei que estas fazem parte do estar-no-mundo.
Muito distante em mim, digamos uma sensação, dissera-me em palavras sussurradas: “É tempo de buscar a unidade perdida. Trazer em comunhão, outra vez, o equilíbrio”. O que mesmo aconteceu comigo naquele dia acompanhou-me por alguns anos, vendo em verdade tudo se transformando, ad-mirado, sabendo realmente de minhas conquistas, realizações, dos sentimentos novos que a cada passo se revelavam, desejando com o conhecimento que outros uni-versos e horizontes se me anunciassem, não me sentisse apenas alegre, sentisse a felicidade plena e absoluta em mim, sentisse o eterno em minha vida.
Só depois de uns três anos, numa conversa espontânea com um grande amigo, no alpendre de sua residência, fim de tarde, tomávamos uma cerveja, comíamos torresmos que a esposa fizera, veio-me a resposta lúcida e transparente havia tantos anos procurava tornar-lhe transparente e lúcido, definido. O que aconteceu foi ter aceite a idéia de que a vida é um ato de sacrifício, nada é de graça, tudo exige desejo e vontade. Queria as facilidades, o que não exigia qualquer esforço, embora minha vida mesma, digamos, estava escrito nas estrelas, dissesse que seria homem, aos olhos da vida, se me entregasse às buscas verdadeiras, pronto a sofrer, mas ter fé e esperança. Comecei a viver de minhas reflexões, do conhecimento de mim que a cada passo se me revelava, se me a-nunciava, pedia-me que in-vestigasse a alma, avaliasse o espírito, sentisse meus sonhos verdadeiros. 






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