IMENSO HALO PÁLIDO QUE DESLIZA NA LUZ - Manoel Ferreira

 

Por três dias, chovera quase todo o dia, estiando, às vezes, por algumas horas, mas, à tarde, por estes dias, chovera constantemente; à noite, também, chovera todos os dias. Sendo uma cidade construída na serra, subidas e mais subidas, toda a água que cai, desce, indo para o Rio Grande, e, sendo uma cidade de ruas de pedra, após a chuva, fica uma beleza, dá prazer olhar a limpeza.

Hoje, após estes três dias, o primeiro, amanhecera com o céu com nuvens azuis e brancas, o sol logo se pôs, insinuando, ou  prometendo, se assim se quiser,  o dia inteiro seria de sol, fazendo até calor, o que seria bem normal, por ser verão. Talvez. Embora nos dias passos, nos períodos de estiagem, não tenha aberto o sol, mas, do modo como a manhã se apresentara, com efeito, poderia até fazer calor. Existia, porém, a incerteza, pois que, no período da tarde, chovera constantemente, o clima muda com facilidade: levanta-se com frio, abre-se o sol, faz-se calor, chove.

Ontem, por exemplo, a cidade acordara com a neblina cobrindo-a inteira. Não chovera durante a manhã. Assim que a neblina esvaiu-se, começara a chuva novamente.

Quem sabe seria um dia ensolarado?! Não diria ser algo agradável para mim que adoro a chuva, sinto-me bem. Chuva, frio, neblina fazem-me sentir bem, tranqüilo, sereno, calmo. É verdade que se faz necessário o sol, o calor. As donas de casa necessitam das roupas secas, com chuva continua mofam com facilidade. Causar prazeres nos outros quem sempre apreciam mais o calor, o sol de esturricar os ossos.

Amanhecera com sol. Talvez chovesse à tarde. Nunca se sabe!...

Por toda a manhã, até agora, faltando vinte minutos para as quatro da tarde, tendo começado há uns quinze minutos, a chuva recomeçara.

Encontrava-me ouvindo músicas, sentado à cadeira, pensando nas ironias da vida, o que seja até engraçado de se pensar, a vida seja capaz de ironias, sarcasmos, blagues, não imaginava que se riria de mim, mostrando-me estivera por toda a vida equivocado, estava enganado com o não haver algo que pudesse dar um outro rumo à existência, nem se poderia acreditar, caso resolvesse investigar, uma vida com todas as dificuldades, sofrimentos e dores os mais atrozes possíveis, diante de todas as realizações, prazeres, glórias várias, não acreditava na Providência Divina, acreditava a vida fosse tudo isso, estava destinado a uma vida de unicamente sombras. Ainda mais engraçado é pensar que tenho notícias e conhecimentos de pessoas que viram realizados os sonhos mais íntimos, após uma vida de só sofrimentos e dores, não era eu um homem quem pudesse viver esta situação, acreditava-me inferior.

A vida simplesmente mostra-me nitidamente os valores, as virtudes, as possibilidades, as capacidades, após algumas tantas realizações por todo um ano, coisas que nem mesmo pensara ser possível, e, em continuidade, outras possibilidades tantas de ainda mais tornar verdade os sonhos mais íntimos, mas estas outras possibilidades que surgem exigem alguns requisitos que, diante de tantas situações e circunstâncias, não cuidei que fossem concretizados, não tive forças para levá-los a cabo, e não posso dizer que não tive oportunidade, havia uma única frente a todos os obstáculos. Não valorizei.

Infelizmente, não me é possível de modo algum realizar estas possibilidades, embora tenha realizado de outros modos, não me descuidando em hipótese alguma de encontrar meios, embora com dificuldades quase intransponíveis, de realizar os sonhos. Aliás, se digo isto com todas as letras, ninguém irá acreditar em princípio, o que é, sem dúvida, o que não me permite de modo algum dizer que tenha vivido de máscaras, de falsidades, de aparências. É o conforto que tenho em mãos.

O que está feito, está feito. Não se muda o passado. Pode-se, sim, transformá-lo. Sem dúvida, estou convencido de que posso transformar, as lutas serão mais intensas, contundentes. Quem sabe até, só depende de mim, possa até realizar sonhos que o ter cuidado de levar a cabo a única oportunidade que tive em mãos não me seria possível?!... 

Interessante isto!... Não saberia descrever o sonho. Sonhei que meu dedo polegar jorrava água, era ele a fonte de uma água clara, nítida. Só isto lembro deste sonho. Após ter comentado com a esposa, disse-me ela que era mesmo iluminado, meu dedo era a fonte de água límpida, uma iluminação isto.

Talvez que a lembrança deste sonho seja o desejo e a vontade, em harmonia, de revelar o que mesmo penso e sinto sobre esta ironia, blague, sarcasmo da vida... Se tenho medo de revelar o que mesmo fizera de tão arbitrário comigo, de não ser compreendido, entendido, de ser objeto de chacotas, de nenhuma outra oportunidade me ser dada, poderia escrever a respeito disto, um instante de reflexão, de meditação, uma oração mesmo. Seria uma confissão, digamos, não com todas as letras, fosse-o, teria de imediato confessar, embora com certeza será evidenciado de qualquer modo, mas, até então, terei como me preparar para confirmar, sem mais uma única palavra senão que é verdade, mas o importante é que hoje tenho consciência de que com toda a luta e esforço pessoal realizei o que outros não o fizeram, tendo eles cuidado de levar esta oportunidade a cabo, estão se realizando e muito bem, desfrutam glórias, prazeres, alegrias, felicidades.

Escrevendo, mostrar-me-ia o quanto estou consciente dos valores adquiridos, tão fortes e tão presentes, que causaria espanto e surpresa a todos os íntimos, amigos, conhecidos, causaria alegria e contentamento aos inimigos, indiferentes. São as águas que nascem em meus dedos, águas de um homem que não acreditava em suas capacidades, mas que realizou coisas que muitos desejariam ter. São as águas de homem que, não diria se arrepende das arbitrariedades e gratuidades com a vida, mas sente muito, em verdade, um homem que está muito triste por saber que seria o momento do sol, mas a vida não deixa de existir por chover, neblinar, fazer frio, também assim é agradável, os cuidados são bem maiores mas eles também mostram que se é possível, consciente, transformar a realidade.

A janela estava fechada. Assim que começou a chover, abri-a. Encostei-me ao parapeito, com o cigarro entre os dedos, pondo-me a observar a chuva. Por instantes, senti muito forte que isto significava em mim que a água da chuva estava lavando de mim as arbitrariedades, gratuidades, a juventude de erros crassos. Precisam descer as ladeiras da alma, dirigindo-se ao Rio Grande. As ruas, após a chuva, estarão limpas, causando prazeres e alegrias olha-las limpas, as pedras brilhando, mesmo com a manhã neblinada.

Confesso, sim, que dói muito isto. Dói sim. Não por medo de incompreensões, tornar-me objeto de chacota, mas é por reconhecer em mim as capacidades todas, os valores e virtudes que foram sendo construídos em mim, o que jamais acontecera, mesmo tendo realizado tantas coisas num único ano, surpreendendo as expectativas.

Não. Não há motivos para pensar que diante desta situação tudo está terminado. Não há mais possibilidades. Seria até negar algo muitíssimo presente em minha vida, a força. Nada haver que me prostre senão a morte. Não fosse isto que as dificuldades todas acabaram tornando-a esperança. E é isto que justamente não me deixa em hipótese alguma sentir-me incapaz, destituído de valores, mesmo com todos eles em mãos.

A chuva continua forte. Estive encostado ao parapeito da janela por alguns minutos apenas, fumando o cigarro, pensando nas ironias da vida, mas agora, após esta confissão, sinto-me bem, pensando que as ironias da vida podem ser transformadas em águas, serem elas a fonte originária da esperança e da superação das dificuldades, dores, sofrimentos, posso jorrá-las não apenas no dedo polegar, como sonhara, mas em todos os outros dedos.

                  

















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