#VORAGEM DE IMAGENS UNIVERSAIS# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
O sino da
igreja badala. Meio-dia. Revisto-me, com olhar furtivo. Sentimento de paz
invade-me. À noite, recolhido ao leito, deslizo-me por sombras, por caminhos de
trevas.
Águas entre
mortais conhecidas. Somos para elas coisa estagnada, ficamos para aqui
exilados, banidos, excomungados. Olho-as fascinado, olho-as sempre e uma
interrogação milenar na minha garganta, por sempre vivo silêncio perpassando o
ouvido.
Águas entre-cortadas.
O milagre está em ti. Tu abristes os olhos num grande susto e deitastes fora a
tristeza toda. Diante de ti pensava em fugir. Tu não me vias. Olho-te e sei que
está longe.
O que a mim
é havido - proximidade com a fluidez universal, liquidez contigente. Sensações.
O que a mim é havido - silêncio dos sons presentes. O que a mim é havido -
uni-versalidade do verbo trans-crito de regências de sin-estésicos sentimentos.
O que a mim há - vida.
O desespero
enfraquecido. A angústia fracassada. A agonia frustrada. O que a mim é havido -
linguagem separada, a língua reunida, o estilo desvairado de dores e angústias,
sensibilizado de desejos e volúpias do ser e do espírito. A civilização
abandonada a esperar o reencontro. O que a mim é havido - ritmo alterável.
(Imagem instável e desordenada do nada). Revelando a lucidez sem memória.
Vou
esgoelar. Confessar que o silêncio foi um incenso. Um enigma a par. Além das
águas, vou criar nome. Aquém do silêncio, re-criar palavras a lavrarem
invisíveis imagens. Asas do condor. Claridade. O que me foi - distanciamento da
frieza. Loucura domina quem sou.
Emocionado.
O badalar dos sinos. Reveste de lisura o universal. O passado diverte-me. O rio
silencia-se, caindo a noite. Espectro, abismo. Retenho as poeiras de ser quem
sou. Exausto. De ser banido. De ser expulso. De ser companheiro. De ser
cassado. Exausto. De silenciar-me. Calar-me. Emudecer-me.
O que a mim
é havido - canteiro de flores secas ao longo espalhadas, terra seca, por onde o
olhar fitasse tudo destituído de vida, vazia a mente de pensamentos, a boca
tragando e expelindo fumaça de cigarro - ao menos a angústia, tristeza, amanhãs
apenas como aparições do tempo?! Destino inexistente, rumo sem horizontes.
O que a mim
é havido - cenas do amor seguinte. Vou tricotar linhas e desvendar o mar. Vou
tecer cores e tintas e desvelar os mistérios, enigmas de compor ventos que
passam solitários, acompanhando-os nem mesmo brisas, orvalhos, neves, neblinas.
Desaparece. Liquefaz. Abisma. Desgoverna. Cai o manto da preguiça.
O que a mim
é havido - galhos naufragados, espumas abismando águas. O que a mim é havido -
folhas conflituosas, veículos desgovernando estradas. O que a mim é havido -
baladas entristecidas, pingos de orvalho caindo rechaçados.
O que a mim
é havido - sibilos desconstituídos, fumaças liquefazendo maquiagens. Há as
ondas, mas há, para além, os passos de quem locomove e traz às vezes o ritmo
nas docas, no cais, vozes. Nas margens de uma estranha nuvem, a linha de um
eucalipto esfuzia até ao indizível.
O que a mim
é havido - ventos insubstanciados, véus desaparecendo desorganizados. Águas
entre(mentes) estendidas. Abundantes, imitam as evidências todas. Alguma coisa
assusta-se e fico à escuta. Tenho medo de mover-me. Alguém me chama? Respondo.
Aguardo uma...
O que a mim
é havido - períodos in-subordinados ad-verbiais de lugar, temporais e causais,
orações a priori de princípio, meio e fim pro-jectadas, quiçá, não me re-corda
a mim, aos gerúndios do espaço, e sem vozes acusando o envio, re-colher-me na
alcova insone e silenciosa.
O que a mim
é havido - estrelas da madrugada piscando, passos deixados ao longo das
alamedas, o peito arfando de ilusões frívolas, indefiníveis. Tristes trópicos. Manhã
submersa. Estrela polar. Alegria breve. Huis-clos.
O que a mim
é havido - cem anos de solidão. Por que clamar presenças? Flor dos trigais só
dá no meio do trigo, aparece em diversas cores e formas. A presença carece de
campo aberta para ser.
O que a mim
é havido - vitória-régia no jardim botânico de minhas carioquices, carioquéias,
apesar de viver de quimeras, utopias, devaneios, desvarios, sei das águas que
perpassam as pontes de travessias, de passagens, sei das sombras. É de me
morrer delas, aquáticas as angústias e vazios os sons de chocarem-se com as
docas. É a flor marítima que despetaladamente revela, através da sensibilidade
a liberdade das utopias do vazio, o esplendor nascendo no som odorante da
maresia da liberdade.
#RIODEJANEIRO#,
09 DE MAIO DE 2019#

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