#DE ONDE EMERGE A MONTANHA DO SER# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Escreve-me a
alma, re-escrevendo as estradas de poeiras metafísicas por onde trilhei passos
à busca da etern-itude do substantivo sonho, in-finitivo do ad-vir, gerúndio do
perpétuo, particípio do paraíso perdido, as esperanças que re-colhi e a-colhi
ao longo das dúvidas e medos, do des-conhecido, do in-audito, do mistério do
ser e da vida, dos horizontes dos versos e estrofes do espírito do encontro, do
enigma do não-ser e da morte, do mito do nada e da imortalidade, das legendas
do vácuo e do vazio, das lendas da facticidade e do manque-d´être com os
sentimentos do verbo desejar, querência do eterno.
Re-escrevo.
Não sou o que sou alucinadamente: re-flito, medito e maldigo o meu ser vicário,
pois o que sou é ser justo e exatamente o vice-versa de minha alma no avesso de
meus ossos, o re-verso de meu espírito no in-verso de minha carne, o avesso de
meus instintos versus de minhas razões despidas de senso, de meus instintos
desprovidos de volúpias e tesão.
Se fosse
em-si e forte nem ao menos teria ouvido o ritmo. Sou: a única coisa a dizer. É
isto o que me vem da vida. Confesso por vezes sequenciadas gritei não querer
mais ser, danasse o ser, mais me grudunhei a mim e inextrincavelmente formou-se
uma tessitura de vida, sons, imagens, silêncios, que se enovelam para além do
instante-já, silêncios que se evolam sutis da algazarra das dimensões, do
entre-choque das idéias e das volúpias, dos pensamentos e das contradicções,
das dialécticas da existência dialéctica. Escrever, re-escrever, in-screver são
modos de quem tem a palavra como espírito do subterrâneo, a palavra nele
mergulha e re-colhe o que não é palavra, re-colhe sons, imagens, silêncios.
Escreve-me a
alma, re-escrevendo o que sinto no labir-íntimo, na bipolaridade de minha
psique: a fadiga do horizonte faz minha cruz ser pena de águia que balança ao
ritmo do vento, faz minha exaustão ser como pluma que o vento dança na
performance do sim e não, da verdade e in-verdade. Mister escutar - o coração é
que escuta, os ouvidos ouvem - a natureza interior que me reside, captar a
águia que se anuncia, a águia que alça voo, a águia que voa por todo o
horizonte, sozinha, repousa no cume das colinas e dos picos. Expressão de uma
certa suavidade, uma luz solar in-vernal, que todas as vezes a própria obra, o
amadurecimento de uma obra nas suas dimensões mais profundas, deixa em seu
artífice. O ritmo da vida torna-se mais devagar - a lerdeza, a lentidão não são
de origem?, "é devagar que se chega lá", contudo, lembra-me que hoje
levo "a vida na flauta", compondo a balada do som das ondas marítimas
se esparramando nas palavras, o silêncio do bosque inundando a alma de
linguísticas, semiologias, semânticas, metalinguísticas, da ilha seivando os
insterstícios da inconsciência de metafísicas, metáforas e estesias, e também o
denso e fluído das contingências como o mel - até a fermata, até aquela pia
crença naquela longa fermata...
In-screvo.
Não sei escrever nem melhor nem pior do que faço. Fico a imaginar se escrevesse
melhor como seriam os escritos, se pior como seriam os arrabiscos. Já pensou se
não soubesse escrever? Não sei desenhar croqui de sentimentos e imagens,
emoções e luzes, desejos e contra-luzes, sonhos e perspectivas senão
inconscientemente, e é como sei fazê-lo. In-screvo o que respiro depressa
sorvendo o halo de meiguices e insolências, irreverências e rebeldias, antes
que se finde na eter-itude do ar. Fecunbático que sou - mas o que quer dizer
esta palavra? Mas é fecundando sons e palavras que as quimeras me bastam, os
idílios estão de bom tamanho, os desvarios e devaneios completam-me, o nada e o
vazio divinizam-me, nonadas, travessias, sorrelfas endeusam-me.
Cada vez
mais distante no deserto de sementes e húmus do saber-me onde me perco com o
olhar vazio fruo o que ec-siste son-estesiando e palavreando a epígrafe das
utopias eidéticas do "eu" e da "ec-sistência", através dos
sonhos almejo a in-scrição do real. Escuto o real como remotos sinos de
igrejinhas das estradas surdamente submersos na poeira, no orvalho sonando
trêmulos. O instante do "in-scrito" é de uma irreverência que me faz
dançar a dança das ciências rasgadas e dos verbos alinhavados, restando apenas
a prova do estilo.
Acredite-me:
saber que a verdade alimentava não existe, sou quem tenho de fazê-la, vou
tentar compreender e entender. Poderia sofrer a carência, manque-d´être dos
outros em silêncio, por não saberem ouvir o som da maresia no bosque de
neblina, mas uma voz de contralto me faz cantar um segredo que faisca como
pingente de lustre de cristal, em raios luminosos que me ofuscariam, não haver
dúvida, se não os cobrisse com o criar de mim próprio o ser.
Enquanto no
silêncio falsifico o verbo e me faço abismo, re-escreve-me a alma turvando a
mímica das sombras, sombreando a mimésis dos pretéritos, re-escreve-me o
espírito raiando a claridade da metamorfose, o perfil das iluminações, o orbe
rútilo do ventre e do amor, planície lúcida, lúdica, de onde emerge a caverna
do não-ser, a montanha do ser.
#RIODEJANEIRO#,
10 DE MAIO DE 2019

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