#AS PALAVRAS E OS SONS: FINA TEIA DE SEDA# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: AUTOBIOGRAFIA DO SER E DA LIBERDADE




POST-SCRIPTUM:


Certo dia, numa conversa à mesa de almoço com o meu inestimável amigo e escritor memorialista, Antônio Nilzo Duarte, e sua esposa e minha querida amiga Eliete Araujo Duarte, por volta de uns nove anos, disse-lhe que um dia iria escrever a AUTOBIOGRAFIA DO SER E DA LIBERDADE, respondendo-lhe às constantes perquirições suas de minha linguagem e estilo. Estava em falta com o meu amado amigo. Aqui estou realizando apenas o primeiro capítulo desta autobiografia, que lhe dedico com amor, amizade, carinho, afeição, entrega. A obra inteira inicializo a compô-la.


Manoel Ferreira Neto


Onde as éresis do espírito - luzes incidem no eidos do tempo, águas cristalinas re-fletem na plen-itude a graça do brilho de moléculas, seguem solitárias os caminhos. Vou desenhando as formas do infinito de minha alma.


Não quero, acima de quaisquer verdades, abaixo de quaisquer quimeras, incomodar, aborrecer, insatisfazer os deuses e os gênios serviçais, mister deixá-los em paz, saboreando seus habitats, rodeado de suas ninfas, degustando delicioso assado de ovelha e bebendo bom vinho, e alegrar-me, satisfazer-me, aprazerar-me com a suposição - não seria melhor dizer "insinuação"? - de que a minha singular agilidade e perspicácia prática e teórica na in-vestigação, avaliação, inter-pretação das utopias da consciência e liberdade chegaram ao seu ponto culminante. Longos e inestimáveis anos levaram-me para artificiar a metáfora do estilo e da linguagem.


Também não é intenção sine qua non imaginar que a sutileza de minha sabedoria seja tão elevada, quando ao mesmo tempo, vapt-vupt, ad-mira-me, surpreende-me tanto a esplendorosa harmonia, esplendida sintonia que surgem aquando toco o instrumento de meus idílios e devaneios, uma harmonia tão estilosa, uma sincronia tão melodiosa que mal ouso atribuí-la a mim mesmo, fora a habilidade dos dedos com as cordas e notas da subjetividade e sensibilidade; aqui e ali, lá e acolá, frente aos instantes-limites, ao lado dos absurdos e paradoxos circunstanciais, alguém toca comigo, acredito seja algum "ser do espaço" a inspirar-me a balada dos sonhos e verbos que me habitam os interstícios da alma, é o meu preferido acaso, sem ele tudo seria mera fantasia; eventualmente conduz a minha mão - com que acuidade!, com que ternura e finesse! -, surge-me estar ele ensinando-me a desenhar os sons, como se artificia as letras na palavra sendo registrada, a lírica dos ritmos, e a mais percuciente, erudita, sábia providência não poderia imaginar e conceber, gerar e dar a luz à mais sonora e bela, à balada mais suave aos ouvidos do que esta a mim doada livremente tocar com a minha mão insensata, insolente, rebelde e irreverente.


Talvez resida no mais inconsciente - este é criativo e possui a sua lógica, da desordem vai tecendo uma ordem surpreendente -, indizível, invisível e inaudito de mim, algo do eminente Demóstenes: a implacável seriedade e sinceridade com que dirijo a minha missão, não apenas para superar-me a mim próprio, mas estabelecer virtudes e valores, e a força do golpe com o qual a cada passo e traço, a cada vez me aproprio dela; envolvo-a em minhas mãos e, ao mesmo tempo, apreendo-a como se fosse de bronze; minha arte adquiri-a nas situações e vivências, numa entrega sobrenatural, além de todas as capacidades, de todos os dons e talentos, dores, angústias e náuseas, minha arte age como natureza restaurada, reencontrada, não traz nada de discurso demonstrativo, exemplificativo como todos os baladeiros do ser e do nada, do tempo e do vazio, dos ventos e das esperanças, que oportunamente jogavam com a arte a fim de dar mostras de maestria, ser não é mostrar-se e mostrar-se não é ser. Jamais poderei avaliar o rigor e a uniformidade da vontade, do desejo, a superação que me fora necessária ao longo de minha formação, educação, tempos inestimáveis, lembrando-me do que os sábios antigos diziam: "Habent sua falta libelli", os livros possuem seu destino misterioso, o escritor, suas sendas e veredas a trilhar, a compor os seus caminhos de luz nas trevas, para poder, alfim, na maturidade, preâmbulo do crepúsculo, com alegre liberdade, fazer o necessário em cada instante da criação. Minhalma ardente dessa arte sempre ansiou vaguear sem freios na liberdade, na natureza selvagem, na meiguice insolente do inferno.


Fina teia de seda, imagens conciliadas às contingências do finito e as esperanças trans-cendentes do Infinito, do Verbo de Ser.


Dentro em breve retornarei a casa, tomarei uma xícara de Capuccino, à mesa da sala de jantar, lembrando-me de que saí para perambular na praia sem quaisquer intenções, apenas divagar. No momento, desejo viver com o mínimo de dispêndio, economizar os gestos, as palavras, os pensamentos, simplesmente boiar.


Con-templ-orando divos verbos, in-finit-ivando esperanças do há-de vir que re-velem de horizontes o espírito da alma, o ser de desejos, alvorece a fé que se esplende pelos vales, abismos, essência-eidos da vida... Silêncio... Solidão... Luz de estrelas, marulhar doce das águas, melodia constante do vento, onde os paráclitos da felicidade - na lareira as chamas ardentes aquecem os volos da alma, pensamentos longínquos, nas asas da águia a perspectivar o infinito, o tempo já não mais existe.


Sinto que os segundos me fogem por entre os dedos. Respiro a plenos pulmões, porque o ar do mar revigora: apenas a respiração regular, profunda, como a de quem dorme, confirma que estou vivo, e que inicializo a compor um sonho de longos anos, a metáfora da linguagem e do estilo.


Tudo na vida são sentimentos, emoções, pers da sensibilidade, retros da subjetividade. Olhos de águias, linces do porvir, límpida, cristalina visão do pleno, peren-itude do ser que, na continuidade das buscas das éresis da estética e do amor à beleza, dimensão espiritual única que trans-eleva a contingência aos auspícios da luz que ressurrecta o espírito do absoluto, refaz-lhe, re-nova-lhe, re-cria-lhe, re-inventa-lhe, não sendo apenas a senda de aproximação, mas veredas da vivência.


Fina teia de seda... crepúsculo à luz do vir-a-ser de verbos que numinem o alvorecer do Ser e da Liberdade.


Quê lindo olhar de dentro a vida do espírito, sentir-lhe nos seus interstícios, nos seus âmagos plenos, carícias, toques. Gostoso o amor de dentro visualizando o éden das primícias dos jardins, cujas flores exalam o perfume do eterno pré-figurado, pós-figurado de sinestesias do belo, da estesia.


Mais lindo ainda quando a visão é plena, visualizo a manhã alvorecendo, um passarinho pousado na amurada, saudando a manhã, os raios de sol, o brilho do dia, os rostos das pessoas no trânsito das alamedas, ruas, avenidas, o bêbado deitado na calça dormindo, o mendigo na porta da igreja com o seu pratinho esperando a esmola que lhe garantirá o pão e o café, um marmitex no botequim, olhar-me no espelho, saber se estou bonito, se estou feio, se os cabelos estão embranquecendo. Visão de dentro, visão de fora. Absoluto do olhar. Quem sente, em verdade, estes olhos, sente profundo a vida, o olhar no ser de olhar.


O mar agora está cor de ardósia, sobe lentamente. Esta noite atingirá a maré cheia.


Olhar a vida na sua éresis da beleza, da natureza, das montanhas, a vida enfim. O resultado é o sentimento de elevação, de crescimento interior. As palavras e os sons da vida na continuidade de suas aspirações e desejos da beleza e da arte.


Fina teia de seda...




#RIODEJANEIRO#, 03 DE MAIO DE 2019#

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