METAFÍSICA DA IMAGEM E DA POESIA, IN "DENSO CHÃO", POEMA PROSAICO DA PINTORA E POETISA Graça Fontis


O que pinta nesse poema prosaico é possível de ser fraseado, versado em palavras? Tanto quanto possa ser implícita a palavra muda no som musical? Perguntas de antemão à pintora-poetisa Graça Fontis que se anunciam desde o preâmbulo do poema prosaico "DENSO CHÃO", "O espaço é vazio, é escuro/Sobreposto ao vácuo silente..." A arte da artista guarda segredos, segredos da criação, segredos das imagens que lhe perpassam dons e talentos, sensibilidade, segredos do "eu-plástico", de que, por vezes, são-lhe inconscientes. A sua voluptuosidade pela koinonia arte/vida condu-la ao desejo da comunhão da poesia e da pintura, e se embrenha, envereda-se por um chão denso, chão que necessita ser trilhado com perspicácia, engenhosidade, acuidade, isto é, estilo sendo o signo e símbolo da imagem, a linguagem sendo a metafísica da poética, a metáfora da busca do ser. Denso chão este de síntese do signo e símbolo da imagem, metafísica da poesia, a metáfora da busca do ser, então serve-se de sua bússola que lhe levará ao sonho - sua bússola é o vazio, ele que re-colhe e a-colhe o múltiplo, o espaço que decursará, percursará, seguirá é vazio, é escuro, no escuro, nas trevas é onde se revela a luz, a imagem que a pintora-poetisa concebe do vazio é sobreposto ao vácuo silente, o real e a re-presentação da vida e das coisas da contingências são revelados nas "antemanhãs dos faróis adormecidos", reflexões, desejos, vontades, utopias do ser... No real, a desilusão nas horas que decompõem o tempo, "brancos desejos encarcerados nos interstícios da frágil alma". Na re-presentação da vida, percebe-se que a pintora-poetisa quer para si a presença dos sonhos e esperanças, quimeras e idílios da arte-vida, quer para si o substrato vibrante da imagem poética e da palavra metafísica, metafórica, delírios que residem no horizonte distante, nos recônditos da alma sedenta de sabedoria, conhecimento, compreender as dialéticas, as contradições, adversidades, "... cinzentos sorrisos evanescentes/Num fugaz esboço disforme/Dentro das adversidades imprevisíveis". Então, diante deste real que se revela de querer o substrato vibrante da imagem poética e da palavra metafísica, metafórica só pode ser encontrado no fazer a vida, construí-la, largos e leves coloridos do mundo, "... Um bailar sem sombras/Ao ritmo de outros compassos/A comporem inaudiveis sons/Aludidores à sobrevivência/De encontro..." Sua seara é das palavras eivadas de cores, palavras poéticas narrativas e não o direto de sua pintura. Escreve com amor demais por elas e este amor supre as faltas, as ausências, na noite a voz perde-se, perde-se no ato da criação, na sensibilidade do instante em que adentra-se no seu "eu-plástico", suas horas e dias são um clímax: vive à soleira da imagem e das palavras. É a sua sobrevivência, porquanto a pena resvala na palavra e na construção do croqui da imagem, não pinta idéias, pinta o mais inatingível, os mais inaudíveis sons línguísticos, semânticos, semiológicos, pinta com a pena o cerne e a semente da vida, o instante da criação é semente viva, "... Novas conquistas e livre expressão/Na grandeza por outros sóis..." Está a pintora-poetisa num estado muito novo e verdadeiro, estado da poética imagística, das cores da imagem poética, tão atraente e pessoal que escreve pintando, pinta escrevendo. A arte poética-imagística é a "última remanescente do belo/Rumo à liberdade"


Nova era a pintora/poetisa anuncia nas artes de que é re-presentante, o estilo sendo o símbolo, signo da imagem, a linguagem sendo a metafísica da poética. A consciência da liberdade e a concepção de um tempo social, "... O grito dos exilados, segregados/Ao maximizar abalos no reduto/Dos embusteiros elegantes...", que se expande numa formulação metafísica do tempo, sendo parte de uma estrutura mais ampla, que se empenha por ser o reflexo de uma realidade não só física mas metafísica, "Por bem os sonhos emergem/Anárquicos e abstratos/Ocultos dentre as selvas sombrias/Da desumanidade."


A grandeza da poesia imagística, sintese dos versos e da pintura, que se faça sobre os conflitos históricos - sendo história, é futuro, e sendo social é inevitavelmente metafísica, no melhor sentido da palavra.


Manoel Ferreira Neto


DENSO CHÃO
POEMA PROSAICO


O espaço é vazio, é escuro
Sobreposto ao vácuo silente
Antemanhãs dos faróis adormecidos
Quanta desilusão
Nas horas que decompõem o tempo!
Brancos desejos encarcerados
Esquecidos nos interstícios da frágil alma.
Delírios no horizonte distante
Cinzentos sorrisos evanescentes
Num fugaz esboço disforme
Dentro das adversidades imprevisíveis
Na noite, onde a voz perde -se.
Da inconstância agonizante
Barreiras, aclives e declives
Obstáculos sob céus fluem
É o alvorar nos dias que se diluem
No átimo do inesperado, o esperado
Ao espreitar e expectativar
As centelhas libertas transcendentais
Que ultrapassem dogmatismo
Tabus e pre-conceitos
Invasores da silenciosidade permissível
Almejada neste mundo inda primata.
Quê haja largos e leves coloridos
Um bailar sem sombras
Ao ritmo de outros compassos
A comporem inaudiveis sons
Aludidores à sobrevivência
De encontro, confrontar
A maresia do abandono
Que sobrepujando, subestima.
Porquanto há o resvalar leve
Do olhar infantil ao perpassar
Fronteiras adultas ao agregar
Novas conquistas e livre expressão
Na grandeza gerada por outros sóis.
Ex-apartados das vias dos indiferentes
Escorreitos da burguesia
Rostos de cegas visões
Conduzentes de dores e aflições
Garbosos fingem, nada vêem.
Que não embacem, prescindam
O desenrolar invernal
Projetando o ópio primaveril
Quiçá, último remanescente do belo
Rumo à liberdade
Destes, com gana em combate
Ao triste assombro da fome.
Quê vibrem as cadeias estagnadas
Quê soe no mais longínquo
O grito dos exilados, segregados
Ao maximizar abalo, s no reduto
Dos embusteiros elegantes
Transporte-os até ao mendigo
Aquele... de-por-baixo da ponte.
Por bem os sonhos emergem
Anárquicos e abstratos
Ocultos dentre as selvas sombrias
Da desumanidade.
Porquando em cada lunacão
A névoa opaca dissipa-se
Ao levante destemido e rompedor
De cordéis e armaduras
Nas brechas da teia...
Deste denso chão!


GRAÇA FONTIS
RIO DE JANEIRO, 9/05/2019

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