#AS PALAVRAS E OS SONS: FINA TEIA DE SEDA# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: AUTOBIOGRAFIA DO SER E DA LIBERDADE





CAPÍTULO II


É manhã. A luminosidade do sol, ainda fraca e serena, por isto toda a sua beleza e resplendor, cobre a Ilha, vista da janela de meu escritório; em alguns pontos há a presença de sombras, o equilíbrio de sombras e luminosidade tornam a paisagem inda mais bela aos olhos que desejam unicamente contemplar a manhã.


Nada há a ser feito, não há compromissos, encontros, diversões. É ficar em casa, talvez sentado na poltrona da sala-de-visitas, fumando cachimbo, olhando o tempo, deixando-me vagar nas asas do verbo que in-fin-itiva os ex-tases dos desejos. Decido sentar-me nesta mesa, escrevendo ao sabor da paz, sem qualquer determinação de estabelecer um horizonte de minhas idéias, pensamentos. Muito menos do sentimento e emoção. Um ato absurdamente gratuito.


Cada indivíduo, não importando as suas origens e condições de vida, carrega a própria sombra atrás de si - por vez é luz de des-cobertas e encontros os mais ad-versos e profundos, por vez encobre, envela dimensões as mais abismáticas e inconscientes -, o misterioso companheiro de viagem. A cada um a sua singular sombra, e não há iguais ou semelhantes.


É como no último instante da partida de um ônibus: são mais coisas a entabular do que nunca, o tempo urge, há sempre alguém, especialmente criança, "Leva eu...", como na primeira música por que me apaixonei, inda criancinha arrastando-me pelo chão, um ano e meio, dois anos, só comecei a andar aos quase três anos de idade, aproximava-me da radiola, apontava, queria ouvir a canção: Oh, leva eu/Eu também quero ir/Quando chego na ladeira/Tenho medo de cair." A ladeira, a profundidade, era o risco fatal. Era o medo da morte, inda que inconsciente.


Os tempos foram passando, comecei a andar, mas com muito cuidado, o medo de cair era enorme. E saía pelo quintal de minha residência - um verdadeiro sítio no centro da cidade, sentando-me debaixo de uma jabuticabeira, olhando a natureza, ouvindo os pássaros cantarem. A paixão pela música inda persistia. Num determinado dia, pela manhã, após ouvi-la, saí para o quintal, ficar no meu cantinho preferido. A uns vinte passos, olhei para o céu, nuvens brancas e azuis, senti algo muitíssimo estranho, tudo revirou ao meu redor, um sentimento de vazio sem limites. Saí correndo e fui para o quartinho de costura de minhas mães. O que vejo assim que entro? Uma folha de jornal. Fui logo pedindo: "Dinha, me ensina a ler e escrever!" Sorrisos dela e de Laurentina, minha mãe também. Alegria. No outro dia mesmo, assim que acordara, Dinha já estava com a folha de jornal. Ensinou-me a "borrar" com o lápis todas as letras "a" que encontrasse, advieram o "b", o "c", todas as letras do alfabeto. Assim que segurei o lápis para borrar o primeiro "a", dissera Dinha: "O que vou te ensinar, filho, ninguém vai tirar de você. Podem tirar tudo de você, mas a cultura não" - palavras sábias. Depois a unir as letras formando palavras. A primeira palavra fora "Letra". Por meses consecutivos, desde os três anos e oito meses aos quatro e meio as lições aconteciam desde a manhã.


O interessante fora que não pensava mais em cair, não pensava na morte. Era como se isto houvesse ficado para trás. O prazer de estar começando a ler, escrever superava todas as coisas, mas sempre a radiola ligada com músicas clássicas, Laurentina era apaixonada por músicas italianas orquestradas, tinha coleções de discos de vinil. A música me acompanhava nas lições, na leitura, na escrita.


O primeiro presente. Estava de férias. Iria para Diamantina, Vale do Jequitinhonha, passear. Dinha dera a Amélia, minha terceira mãe, certa quantia para comprar um livro para mim, o livro que eu quisesse. Na Livraria Gurya, a funcionária, apresentou-me Branca de Neve e os Sete Anões, Os Três Porquinhos, livros infantis. Mas havia visto O Alienista, Machado de Assis, era o que queria. A funcionária dissera não ser livro para criança. Dei birra. Amélia: "Pode embrulhar este livro. É o que ele quer. É o primeiro livro da vida dele." Retornamos ao Hotel Esplanada, onde estávamos hospedados. Iniciei a leitura. Pronunciava algumas palavras erradamente, Amélia corrigia. Não entendendo a palavra, perguntava o seu significado, e ela não sabia. No outro dia, saímos para comprar um dicionário, com ele aprenderia o significado das palavras. Cinco dias. Retornei a casa e terminei de ler a obra. Não entendi nada, mas compreendi tudo. A minha vida eram as letras. E a minha avó, vó Alzira, não podia chegar uma pessoa da família ou amiga que ela me chamava para ler alguma coisa de O Alienista.


As palavras, penduradas no tempo, vão desfiando novelos de linha, tecendo as letras de uma compreensão e entendimento. Cada instante é, no fundo, insubstituível: necessário concentrar-me. Quisera-me difuso, um pouco mais. A vida das letras esperava-me a cada momento. Conhecia o desejo, sempre e jamais o reconheci inteiro. Talvez com os segundos teça incólumes figuras, teça imagens com os volos dos ideais do apogeu da compl-etude, esboçando as veredas suspensas no horizonte.


Faltava-me a escrita. Novamente de férias, cinco anos e meio, passaria alguns dias em Lavrinhas, Vale do Jequitinhonha. Exigi de Dinha quatro caderninhos de 50 folhas, escreveria o meu diário de viagem. Passava o dia escrevendo e andando à beira do rio, observando as coisas, anotando no caderninho. À noite, à luz de lampião, escrevia antes de dormir. Vinte e cinco dias de escrita ininterrupta. Retornei a casa com os quatro cadernos escritos. Alegria de todos. Minhas mães, Dinha, Laurentina, Amélia e Maria, minha vó Alzira em estado de êxtase, mostravam a todos os caderninhos. Folheavam, liam uma palavra ou outra, e o cretino comentário: "Mas ele não sabe acentuar as palavras". Deixou-me triste e desconsolado. O que fiz? Pela manhã, no quintal, joguei álcool nos cadernos e pus fogo. Dinha chegou, mas não houve como recuperar qualquer folha. O diário tornou-se cinzas.


Não deixava de ler, sempre o velho e querido Machado de Assis. Três anos decorreram-se assim, leituras e músicas. Nunca me afastei das músicas, mesmo nos momentos de estudar as "cositas" da escola, e o que escrevia, mesmo não guardando, era sob o som das músicas.


As letras, suspensas no tempo... Tergiverso o olhar para o teto da sala, vendo uma teia de aranha; vão imprimindo no espaço imaginário do papel a lingüística do momento. Emitem, no roçagar da pena, o ruído com grande energia e esfrego as mãos como se estivesse meditando, e quando me pergunto se expresso a verdade que me acolhe no re-colher da idéia, respondo: “Ora, fique quieto e se deixe levar”.


Deixar-me sentir, deixar-me pensar, deixar-me ser...


Volos dos ideais
Do apogeu da compl-etude
Em cujas asas do verbo os desejos
In-fin-itivam a línguística da verdade
Desfiando simbólicas letras no signo lúdico de sin-cronias e sin-estesias do instantes que segue a linha do tempo, enovelando sonhos, alumbrando o vir-a-ser em cujas eurítides uni-versais do sublime moram a magia mística do eterno, mistério mítico do espírito, lâminas de água na luz da lua, na luz do sol.


#RIODEJANEIRO#, 05 DE MAIO DE 2019#

Comentários