**COMO PRÊMIO: COQUINHOS** GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: SÁTIRA POÉTICA
Não há
vencedor que acredite no acaso,
mas há
vencidos que acreditam
o acaso lhes
trará a vitória.
Desde que
Machado de Assis me dissera
"Aos
vencedores, as batatas",
achei a
atitude,
a fala
sobremodo injusta,
arbitrária e
gratuita.
O vencedor
não merece batatas,
alguém lhas
enviar,
porque a
vitória custou-lhe
bem caro,
muita labuta.
A vitória
não aconteceu por acaso,
se é que
haja alguma frincha
para o acaso
na vitória,
ela mesma
sonha com o ocaso,
espera o
ocaso, tem fé no
caso,
sem crer no
acaso
de causos.
Ao invés de
serem enviadas
batatas aos
vencedores,
conforme os
merecimentos,
deveriam ser
enviados
coquinhos
sauditas.
O máximo do
reconhecimento, consideração,
amizade,
carinho, afeição, afeto.
Recebidos os
coquinhos sauditas,
mais que
louváveis as vaidades todas,
dançar,
sapatear, saltitar,
cantar a
plenos pulmões,
mesmo que
desafinado: sucesso, fama estão sim
confirmados
e endossados.
Esqueceu-me
dizer que o vencedor,
a partir
desse reconhecimento absoluto,
receber
coquinhos sauditas,
tem toda a
razão de andar com um cofrezinho
de
maribondos dependurado no pescoço,
os vencidos
tem forte atração por se
aproximarem
dos vencedores,
andar com os
vencedores
é também ser
vencedor.
Justamente
por acreditarem no acaso,
a vitória
não é possível aos vencidos.
Só abrir a
porta do cofre, "adeus, vencidos",
a corrida
até depois do inferno é garantida.
Tantos
amigos depois da vitória,
tratado a
feijão branco,
reverências
e mais reverências,
e depois dos
coquinhos sauditas
os amigos
triplicarem,
não é por
acaso,
a razão é a
vitória.
Nestas
circunstâncias, Héracles torna-se
amigo íntimo
e pessoal de Cérbero.
A vitória
dos vencedores não foi por acaso.
Mas para os
vencidos,
os
vencedores apareceram
em suas
vidas por acaso,
a grande
oportunidade,
a chance
máxima,
a dádiva
suprema de se tornarem vencedores,
aprenderão
com eles os caminhos,
as tramóias,
tripúdios,
como meter
ambas as mãos na cumbuca.
Chegará o
momento de receberem os coquinhos sauditas.
Saberão o
sabor delicioso da glória, do poder.
A vez deles
de dançarem,
sapatearem,
saltitarem,
cantarem
desafinados.
Enviei a um
vencedor um saco de coquinhos sauditas.
De tão
agradecido, tirou foto
com os
coquinhos sauditas,
enviou para
tablóide da comunidade
publicar em
sua Coluna Social.
Laureado e
aplaudido por todos os vencedores,
que polidez
a minha!
Tornei-me
conhecido por todos
como quem
enviou
coquinhos
sauditas
a este
distinto e digníssimo vencedor.
Custou-me um
preço,
preço
módico, óbvio:
sempre falar
bem dele,
elogiar
todos os seus feitos,
debulhar o
terço
de sua vida
pregressa.
O vencedor
reconheceu-me a
capa-{ch}-idade,
e com ela
realizei todos os meus sonhos.
#RIODEJANEIRO#,
12 MARÇO DE 2019#

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