**DA ORIGEM AOS PINGOS POÉTICOS...** GRAÇA FONTIS: PINTURA/TÍTULO Manoel Ferreira Neto: SÁTIRA POÉTICA
Epígrafe:
#Teorizo e
sei do que se trata, mas as palavras nem sempre dão conta do que expresso,
embora sei o que penso...#(Graça Fontis)
Sagrada
água, desde a fonte sendo jorrada livremente,
que perpassa
terras sem margens,
sem
ad-vires,
seguindo em
frente,
sem
por-vires entre florestas,
montanhas,
campos, chapadões, pampas,
abençoando
olhos e visões
que
con-templam o além ao longo
das
experiências e vivências
das
desgraças às esperanças.
Dizem
– não posso
garantir, asseverar impiamente,
não estava
na época, gênesis,
nem estava
nos planos viria ao mundo. –
que Deus
criou a água antes do homem,
porque teria
de tomar banho,
caso
contrário, federia,
o fedor
humano é pior que o dos porcos,
teria de
matar a sede, só com a água,
no
desenvolvimento e progresso ao longo do tempo
teria de
cozinhar os seus alimentos...
Tudo
precisaria da egregíssima água,
duas
moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio,
Assim reza a
Gaia Química.
E hoje a
água é necessária para todas as coisas,
havendo
campanhas inúmeras
para a
economia da água,
vai faltar
água em pouco tempo,
se o consumo
for ilimitado,
sem qualquer
educação.
Iluminada
água,
desde o
Genesis da fonte,
sendo
inspiração do brilho do verbo
que
re-colheu e a-colheu
sob a
cintilância das estrelas,
sob a
fulgurança da lua,
nas
passagens da noite ao alvorecer,
pingando
versos e estrofes do amor,
plenificando
desejos e vontades
nada na
travessia da trans-cendência
à
contingência,
do além ao
desconhecido,
ao longo da
jornada,
do ser-tao
da estrada ao humu-sistencial
das alamedas
do vazio.
Se a
torneira não for devidamente fechada,
pingo a pingo
a caixa dágua vai secar.
Há quem diga
aos risos sem freio:
“Melhor
pingar do que secar”.
Depende do
sentido com que é visto,
pensado,
sentido este adágio paulista.
Imagino São
Paulo com as torneiras mal fechadas,
os pingos
levam à falta de água!
Calamidade
pública.
Santificada
a água que nos buraquinhos do chuveiro,
gotas
constantes e assíduas, cura angústia,
melancolias,
psicossomatizações, saudades,
nostalgias,
tristezas, alegrias,
quando a
carne, ossos, alma
con-sentem
que ela penetre e mergulhe
profundamente
neles, re-colhendo a verdade
do ser-verbo
do sonho-eidos
do perpétuo
da espiritualidade, síntese
da
visão–de-mundo do quotidiano
e
sensibilidade da estesia do desejo à luz da
estética da
consciência,
projete no
decurso os ocasos do crepúsculo,
no percurso
da fronha do travesseiro
em que a
água dorme no seu trajeto por entre
os taos do
ser ao espírito da alma
humu-taos da
eternitude
povoada de
quimer-itidades das noites insones.
Amor à
água...
Água ao
Amor.
Não consigo
entender as águas.
Vem das
fontes,
vem da
a-nunciação do tempo,
vem do
tempo,
eras da
iluminação,
entranhas do
ocaso.
Chove lá
fora, pingo aqui dentro.
Ai que
delícia uma pinga.
Serve a
tantos propósitos.
Serve para o
chifrudo esquecer
que sua
amada fez amor gostoso
com outro
homem,
e ele ficou
a ver navios,
abaixar a
cabeça quando entra em quaisquer portas,
todas as
portas,
além das
pessoas serem testemunhas do chifre,
sempre
dizerem:
“Olha, o
chifre dele é bem pontiagudo”,
só Deus
sabendo o sentido com que ele é dito,
com certeza
sem maledicência.
Antes pingar
todas do que secar de tantas tristezas,
angústias,
problemas.
Quando se
diz respeito à chuva à noite,
diante das
lembranças,
recordações
dos momentos gostosos e gozosos
da
intimidade conjugal,
tantas
cositas deliciosas,
saudades e
melancolias se fazem presentes.
Aquela frase
mais que famosa:
“Garçon,
mais uma pinga,
antes que o
chifre aumente de tamanho”.
E o garçon
cínico e cretino respondendo:
“Vou colocar
esparadrapo no fundo do copo,
está furado,
de pingo em pingo seca!”
Chifres e
pinga, pinga e chifres na dança lúdica
de “antes
pingar que secar”,
coadjuvantes
os chifres e o chifrudo,
antes pingar
do que secar com a verdade do chifre.
Irônico eu?
Por ironia
entendo eu,
não o dizer
piadas,
fofocas da
vida alheia,
como se crê
nos botequins, cafés e nas redações,
mas o dizer
uma coisa para dizer o contrário.
A essência
da ironia
consiste em
não se poder descobrir
o segundo
sentido do texto
por nenhuma
palavra dele,
deduzindo-se
porém esse segundo sentido
do fato de
ser impossível dever
o texto
dizer aquilo que diz.
Até
entenderem que sátira não é ironia,
a consumação
dos tempos
estará bem
próxima.
Não vou me
explicar,
dizer a
essência da sátira,
para não
secar os risos e as gargalhadas,
vou pingando
ácido na realidade nua e crua.
A lenda
mitológica reza que Erésia
tocou um
chifre tão grande em Erculanus
que nem as
pingas amenizavam suas dores,
até nos
ossos ele identificava chifres.
Melhor
pingar do que secar!
Se bem que
Erculanus pingava,
pingava,
comia pinga
com farinha, e está seco:
“Tá osso”,
era o que só
dizia,
nada mais,
única
palavra depois dos chifres bem postos.
A vida são
buscas, sonhos e esperanças
à busca do
conhecimento, da sabedoria do ser.
Buscas,
sonhos, esperanças, fé
são
dimensões que pingam
em todos os
instantes das experiências,
vivências,
dores e
sofrimentos como intenção e gestos
de que o
verbo do ser é imprescindível
para a morte
que a-nunciará a contingência
do nada na
vida.
De pingo em
pingo da verdade de ex-sistir,
a sabedoria
não seca,
será sempre
húmus para o eidos da espirituallidade.
Secando os
pingos do vivencial, vivenciário,
o homem será
a morte no mundo,
e não a
partir do nada para a vida
o verbo-para
o ser.
Só água
pinga. Antes pingar do que secar.
#RIODEJANEIRO#,
12 DE MARÇO DE 2019#

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