#PEQUENAS AGULHAS DE CRISTAL# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA




Ergo-me para uma nova manhã – o meu caminho é feito de caminhar -, docemente viva. Minha felicidade é pura, transparente, como o reflexo do sol na água do lago. Cada acontecimento vibra em meu corpo, como pequenas agulhas de cristal que se estilhaçassem inteiras. Depois dos instantes curtos e profundos, vivo com serenidade durante largo tempo, compreendendo, recebendo, resignando-me a tudo. Meu rosto é leve e impreciso, meu olhar é sereno e indiferente, a respiração encontra-se lenta e comedida, boiando entre os outros rostos, olhares, respirações entre os outros rostos vazios e opacos, seguros, como se eu ainda não pudesse adquirir amparo e conforto em qualquer expressão. Todo o corpo e alma perdem os limites, perdem as estribeiras, matizes e enredos, misturam-se, fundem-se num só caos, suave e amorfo, lento e de movimentos vagos como matérias simplesmente vivas. É a renovação perfeita, a anunciação pura e a criação solene.


Seria que a imperfeição perfeita alucinasse, fascinasse, extasiasse por a perfeição ser mera quimera, imaginação fértil?


#RIODEJANEIRO#, 10 DE MARÇO DE 2019#

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