#VENTO DE ALGURES LESTE# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: POEMA




Eu próprio,
enquanto continuo
a olhar o bosque
de areias brancas,
vogo um pouco
ao sabor dos minutos poucos
que antecedem o cair seco
e categórico da noite, medindo, compondo,
re-compondo,
aclarando
uma ou outra sede
que se vai mostrando,
expressão cuja chave,
à luz da face nova,
abre exuberante
o que em torno
constitui
demonstração de vitalidade.


Articular os fragmentos e
re-integrar a essência
na aparência,
eis a vida que sobre-existe
além da morte.


Na quietude e silêncio de minha alcova,
onde me refugio
para poder pensar e sentir
as experiências espirituais
adquiridas com a visão
do bosque de
areias brancas,
no cume da montanha,
percebo que o espírito da alcova
não é mais o mesmo.
Ninguém pode imitar o particular.
Todos podem plagiar o uni-versal.


Luz, sentido e palavras...
Viver febril.
O coração forte, descompassado.
Tudo, nada.
Vazio, caos, abismo.
Luz, sentido e palavra.
Sons, inter-dictos e letras.


"Acabemos com isto e
Tudo mais,
Ah, que ânsia de ser rio
Ou cais..."
In-ventemos com isto
e
O que mais for,
Ah, que fissura de ser fonte
Ou genesis...
Palavra, sentido e luz.
Nada, vazio.
Espreguiçam-se em ressacas.
Vácuo. Subterrâneo frouxo.
Eternidade. Fosso chilro.
"Quem é sensível sabe,
Ou ao menos já soube,
Onde coube o paradoxo".
Pequena passageira que fala,
gesticula, monologa, goza.
Forças para amar.
Além do medo.
Disposição para ouvir.
Além das resistências, dúvidas.
Sensação de sonho.
Natureza diferente.
Cor-agem para viver.
Além das inseguranças, carências.
Êxtase.
Razão e raciocínio.
Segurança para pensar.
Além de pensamentos e idéias.
O campus cria segunda realidade
para habitar.
Olhar desviado.
A luz rodopia sobre a cabeça.
Tudo suspenso.
Loucura e insanidade.
Sangue no corpo.
Conheço o som de esquife.
Morte... Morte...


Luz, sentido e palavra.
Palavra aqui, outra ali.
Reflexos.
Contingência.
Especulo, medito e reflito.


"Desço desta solidão
Espalho coisas sobre um chão de giz
Há meros devaneios tolos a me torturar
Fotografias recortadas em jornais de folhas amiúde..."


O proscêncio absolutamente vazio.
O tablado nu.
Pequena estiagem que disfarça
o olhar fixo numa alegoria
ou num pó.
Única vela
que retoma santos num símbolo nu,
num signo despido.
O país prende a respiração.
Salmos na igreja de Cristo
estendem os braços...
Desejo recente, forte, definitivo.


Quê sujeiras o vazio deixou
- vento-bordas do perpétuo!
Inimaginável!... Indescritível!... Inconcebível!!!
Vento algum vindo de algures leste
digna-se a soprá-las aos alhures
dos horizontes.
É entregar-me solene e solícito
nos braços parnasianos
das insolências de saber-me desprovido,
destituído de essências.
Entrega que não tem fin-itude.


#RIODEJANEIRO#, 09 DE MARÇO DE 2019#


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