**VINHO TÃO SABOREADO ALÉM FRONTEIRAS** GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: POEMA




Frontispício gótico da ipseidade das palavras
gastas e esquecidas,
restando páginas amarelecidas,
foto desbotada,
não re-conheço a escrita,
desperto-me da melancolia
de outroras lembranças esfumadas,
deixei-as para trás.


Deixo de sentir tanta á-gonia e volto a ser rio que leva o vinho tão saboreado além fronteiras, pelos socalcos das montanhas, vertigem a caminho do inferno ou ascensão à procura do céu - risos do coração, lágrimas do espírito; riso que se projeta no In-finito, lágrima que se verte às entranhas da terra. Há de rebelar-se, revoltar-se por isso o abismo?


Fartando-me à bessa,
olhos míopes olhando enviesado e de soslaio,
das estrelas nos portais de templos da utopia...


Línguas sonoras do alvorecer, primeiros raios numinosos do sol, hasteadas ao vento, são loucuras versadas em poesia de alívio da alma, lua cheia atrevida onde trepida palavras em segredo, flâmulas em enredo, conjugações dos perfumes da primavera.


Não querer ver nos montes, nos picos verdades acres e impacientes, douradas de riso, cintilantes de olhares, olhares e ex-tases, estesias do belo e sublime, verdade madura colhe-se apenas da árvore, língua insaciável, já lambeu em todas as coisas boas e ruins, até nas in-verdades e mentiras das coisas, em todas as profundidades, labirintos, vácuos, subterrâneos de cavernas já desceu, sempre nada de novo para cima, sempre nenhum vento ad-vindo dos confins do abismo a soprar os orvalhos que embaciam a visão da superfície, do além, voltejando para as madeixas do acaso, saudade de corpos em conúbio...
Golpe do abismo em direção ao céu, até ao monte lhe estremecem as entranhas. Por que o uni-verso se se apresenta sem alhures e algures? A condição humana brilhando nos olhares de pureza da criança ou amaldiçoando no olho do criminoso vulgar. Subir a ladeira bailando no som sem perder o ritmo, sem perder o tom, sem perder a performance. No compasso da música o corpo balança.
Palavras deslizam livres nas linhas à mercê do movente silêncio que se manifesta, à revelia do movimento da mão. Não se pensa. Nada sente. Olha-se com indiferença o gótico das letras, a acuidade com que são escritas. Largar a pena sobre o caderno, a pena não escreve sozinha.
Nonada. Vazio. No âmago da alma, as palavras sem plen-itude, não desejava os sonhos neste estilo e linguagem. Madrugada leve, silenciosa.


#RIODEJANEIRO#, 11 DE MARÇO DE 2019#

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