#ABISMO: SER VERBO DO NADA SOU# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA E POEMA
Verbo do
nada de ser...
Coração
represo, silêncio intrínseco do mundo, mar branco com ondas nas lentas dos
cerros, barcos negros de casas, mastros de ramos de árvores...
Sou de verbo
o nada de ser...
Silêncio
profundo,
silêncio
cósmico de astros
rolando pelo
espaço vazio,
nuvens
desprendem-se das mechas
de neve que
arrasam,
em planura,
a última
arrogância das coisas...
Ser verbo do
nada sou... débil lembrança de um momento nunca abarcado pelos sentidos, JAMAIS
SENTIDO PELO INTELECTO, de uma verdade só memória, sem tempo, cheiro real do
mistério fluído da hora, tantas vezes evocada saudosamente...
Sou o nada
do verbo ser e verbo do nada de ser...
Com uma
estrela branca aos pés e ao lado,
e uma
meia-lua vermelha
do lado
oposto e ao alto,
emerjo,
alfim entre
os astros, doce e belo,
irmanado ao
absoluto dos meus instantes-limite,
regressado à
in-verossímil pureza
que ignoro
em mim.
Nas minhas
noites de sendas perdidas,
murmuro uma
cantiga
ou penso na
eternidade
de alentos
últimos
e
derradeiros
que habitam
o seio humano,
e repito
baixinho, quase em silêncio,
um nome.
A sós comigo
entre a minha amada e as flores colhidas no crepúsculo, com que ornamentei o
criado-mudo de minha alcova, mergulho nas águas sagradas con-vertidas em
felicidades e alegrias, na fresca noite chovendo sobre mim o piedoso orvalho da
paz e de todas as auroras sublimes e divinas.
Tantos
sonhos de ouro,
tanta
esperança,
que do gênio
a fortuna,
suspirando a
brisa de lágrimas ardentes,
convida à
prece solene,
cantando dos
tempos as vozes e #graças#
da imortal
verdade.
Crio emoções
que sonham, re-versam desejos de amar livre o silêncio. Edifico linhas no
uni-verso, nas noites de carências latentes, aladas de esperanças do encontro,
das flores se abrindo no jardim de primaveras do que há-de vir. Num verso
silábico de ilusão, crio, re-crio o além numa palavra monossilábica de ternura,
invento o aquém num som suave de pá-lavra sin-tagmática e esvoaço as bordas do
abismo de vazios... O que sinto em mim dentro recito de fantasias a melodia do
encontro. Sou a liberdade musical de sentimentos que me perpassam a alma de
vontade do gozo... clímax... prazer.
Sem o verbo
da carne,
sem a carne
das volúpias,
o verso é
etern-itude
solitária à luz do deserto.
Este
cântico, quem sabe lírico, quem sabe metafísico!, quem sabe idílico, quem sabe
verbal do ser!, feito na madrugada, entre nostalgias, entre alegrias do amor,
entre desejos de a-núncio e re-velação de sentimentos inda por virem à luz, que
se compôs, que foi recitado em silêncio, há algum tempo, é mais que um cântico,
é mais que uma canção.
É arco-íris
esplendendo cores, são pingos de chuva deslizando no vidro da janela, é chama
na lareira, aquecendo o corpo do inverno, é chama, descortinando as fumaças
efêmeras de ontem, de outroras antes de quaisquer outras outroras. É cântico
composto de dentro dos recônditos da alma, perfumada de lágrimas pujantes, de
suores da labuta, arrematada nas ad-jacências, cerzida nas bordas,
andou por
anos latente nas profundezas do coração, venceu chapadões, venceu estradas de
só poeiras, varou florestas silvestres, varou abismos e montanhas,
muitas
grades e cavernas, muita lama e privações, muitos mata-burros e obstáculos.
Cântico
composto na solidão de ruas boêmias,
cantadores
tropeçando nas pedras,
nos buracos
das calçadas,
no silêncio
de estrelas,
da lua,
das alamedas
desertas,
pirilampeando
a escuridão,
o breu de
terrenos baldios,
que sendo o
amanhã,
tempo de
outros sonhos e fantasias,
templo de
novas esperanças,
de fé outra,
no alvorecer
se complementa,
absolutiza-se,
etern-iza-se,
e cresce
como o fermento,
como aboio
que na distância,
no longínquo
dos Infinitos,
escuta-se,
glorificando
o berrante.
No
per-curso, de-curso, in-curso deste cântico
- comedido,
lento, mas constante -
Temperado de
suspiros,
lágrimas e
sangue,
o homem
transita do escuro pleno,
do breu
absoluto, da escuridão completa,
para
inicializar a madrugada,
para iniciar
os idílios da aurora se
anunciando
na passagem dos ponteiros
do relógio
suspenso na
parede.
Mesmo que os
fantasmas da noite,
mesmo que os
monstros dos pesadelos,
mesmo que os
"capetinhas" da madrugada
em tocaia
re-tardem o verso,
posterguem
as estrofes,
atrasem as
rimas,
num
murmúrio, num sussurro,
este cântico
conquistará a claridade,
realizará os
primeiros raios de sol,
plenificará
as pétalas de flores
des-abrochando,
exalando
o perfume
inebriante das etern-itudes da
sublimidade
do verbo amar.
#RIODEJANEIRO#,
11 DE MARÇO DE 2019#

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