#Sonia Gonçalves ESCRITORA E POETISA COMENTA O AFORISMO /**SILÊNCIO ARDENTE DE VOZES EQUÍVOCAS**/
Bom
dia Manu... que delícia poder a essa hora da manhã ler um texto assim,
brilhantismo, lirismo exacerbado nessa tua prosa maravilhosa!
Como
gostei de ler, Manu, realmente a paixão é tirana, indomável, o amor é doma mas
é amigável, amorável... E como gostei de saber que você como Homem sábio,
letrado, pensador, filósofo que és também vê e me confirma o que eu já
desconfiava que o homem age feito crianças muitas e muitas vezes; não posso
responder-lhe se deve ocultar as coisas triviais ou as mais importantes,
porque, acho mesmo que, se você expõe tudo acaba por cair no ridículo, se expõe
o superficial, acaba por nada no muito raso. Seu texto é uma obra prima em
matéria de reflexão sobre o homem, a mulher e toda uma gama de relação. Ainda
bem que temos a escrita que nos salva de muita canalhice nessa vida, meu
querido Manu, ainda bem temos escrita feita a tua surpreendente sempre.
Obrigada, meu querido amigo escritor! E parabéns e sucesso sempre mais e
mais... A pintura genial! Aprovado todo o contexto com muitas estrelas. Bjos
pra ti e pra ela, a grande autora talentosa. Linda semana pra vocês dois
queridos.
Sonia
Gonçalves
#SILÊNCIO
ARDENTE DE VOZES EQUÍVOCAS#
GRAÇA
FONTIS: PINTURA
Manoel
Ferreira Neto: AFORISMO
Não
me afastando, não me envolvendo, conservando uma distância, estou esclarecendo
a alma, o mais profundo, o que sinto, o que penso. Em me pensando, não me é
possível sentir: não sinto quem sou.
Parece que um véu se rasga diante de minha alma e o picadeiro da vida infinita
mudou-se, para mim, num túmulo eternamente escancarado. Em me sentindo,
afloro-me: sou quem eu sou no que não sou e sou. Afloro este ser e ele se
aflora por inteiro. Quando torno a pensar e me lembro da história do cavalo
cansado de ser livre, que se deixa arrear e esporear, e o cavaleiro cavalga até
estafá-lo, não sei mais o que devo fazer...
A
velha e in-sondável meia-noite rumina em sonhos a sua dor e ainda mais sua
alegria: pois se a dor é profunda, a alegria é mais profunda do que o
sofrimento. Sobre esse monte das
Oliveiras, a vigília é inútil; o espírito se une aos apóstolos adormecidos e os
aprova. Estariam realmente equivocados? Seja como for, tiveram a
re-velação.
Será
que haverá alguém quem poderá dizer-me algo, o que será melhor ocultar: as
coisas raras e preciosas ou as vis e triviais? Como, não haverá alguém quem me
possa esclarecer esta questão? Por que será que todos permanecem imóveis como
se não passassem de estátuas? Mas não será o silêncio deste homem ou de todos
que me fechará a boca. Os gregos responderão por vocês e dirão que a bilha se
deixa sem receio à porta, ao passo que as coisas preciosas se conservam
escondidas.
Pergunto-me
a todo segundo a razão de Deus haver dado somente a alguns o poder da
consciência, de seu conhecimento, e olha que nem eles têm consciência e
conhecimento. Difícil ser alguém consciente de sua própria vida. E não
suportando esta consciência precisa a todo custo querer convencer a alguém que
é necessário ser consciente, ter uma visão-de-mundo. Divide-se o pão de cada
dia.
A
todo ser humano é dada a possibilidade de acolher em si mesmo a capacidade do
espanto, da reverência, da surpresa, sem jamais barganhá-la com um dado
pragmático. Uma possibilidade que não leva em conta as divisões de categoria
como fé ou não-fé.
Quem
é capaz de rir de si mesmo no momento mais atroz e contundente de suas dores
por alguma vileza ou canalhice cometida? Talvez seja capaz de rir depois, no
instante em que percebe haver superado? Não será o riso ingênuo e puro. Perdeu
muito destas características. Se o expressar, será desenxabido e hilário. Quem
é capaz de se reconciliar consigo próprio, quando tudo parece faltar de sob os
pés? Talvez seja capaz de fazê-lo, mas encostando-se no outro para não sucumbir
de todo. E não será mais a reconciliação
pura e inocente. Será uma reconciliação para não descer os ossos sob a tumba
fria e serena.
Com
intenção sobremodo nítida, faço com que não escutar nem mesmo as mais fugazes
alusões a esta situação. Porque em muitas coisas a verdade é que os homens se
comportam como crianças. Freqüentemente as miudezas mais insignificantes, entre
as quais, infeliz, não me posso incluir o procedimento de mim, os ferem de tal
modo que até deixam de falar com os que verdadeiramente são bons amigos,
afastam-se deles se os encontram em sua passagem e fazem todo o possível para
agir contra os seus interesses. Depois acontece, porém, ocorrer que de modo
surpreendente e sem razão, aparente ou não, e sem motivo que o justifique, em
virtude de alguma pequena brincadeira, que a gente se arrisca a fazer apenas em
vista da situação desesperada, rompem a rir e se reconciliam.
Tão
difícil isto de desejar sentir compaixão e solidariedade em quem não se pode
sentir senão dentro de mim mesmo, e o que desejo é sentir os sentimentos de
toda gente, de qualquer raça ou credo, de qualquer ídolo ou culpados,
criminosos e ofendidos, a humanidade necessita tanto destes ídolos de nada –
diz-me algo, o que a humanidade tanto esconde de si própria? Não seria mais
fácil assumir? Dizer, não importa mais quem diz ou o que diz. Sou eu quem diz a
mim. Sou eu quem me diz.
O cume das colinas, a princípio, estava
coberto de nuvens. Levantara-se, depois,
uma brisa, cujo sopro sentia em meu rosto. Com essa brisa, por detrás das
colinas, as nuvens se separaram como uma cortina que se abre.
Ascendendo,
o abismo revela e nivela as serras e montanhas, e só então o homem ultrapassa
os limites determinados à espécie humana em sua materialidade e, assim continua
e prolonga a ação divina.
Como
surgem as realidades sombrias perante o observador atento? Geralmente, quando o
sofrimento e a paixão nos tiranizam. Então, o equilíbrio aparente que nos
protege subitamente desaparece. Os sentimentos que turbilhonam no processo da
alma rompem os moldes que os contêm e se traduzem em atos intempestivos,
insólitos, paradoxais, idiotas. Essas tempestades interiores retorcem e quebram
as formas rígidas, e o indivíduo, em sua exuberância, surge sem disfarce.
Desvenda-se a realidade mais profunda e quedamos pasmados por conhecer tão mal
quem somos, muitas vezes admirados e queridos, e tão pusilânimes.
Durmo
na tempestade. Durmo em minha coragem, feliz por ser um homem que já enfrentou
as vagas das águas; a imagem dos barulhos oceânicos da cidade está na “natureza
das coisas”. Sibilos de vento de entre montanhas despertam os abismos que
existem no fundo de cada um de nós; silêncio entre as serras sacodem as
profundezas do ser, os mistérios da intimidade, as vozes subterrâneas; os
abismos que existem no fundo, nas trevas do inconsciente e que, às vezes, irrompem
à superfície e se tornam realidades sombrias.
(**RIO
DE JANEIRO**, 30 DE JUNHO DE 2017)

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