#AFORISMO 5/NAS TERRAS DO BEM-VIRÁ A CANÇÃO DO TROPEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Homens
que abrigaram sua liberdade no mais abismático de si mesmos, nas pre-fundezas
do que lhes transcende, são também obrigados a ter vida exterior, a se
mostrarem, a se id-ent-ificarem, a se deixarem ver, a se tornarem
transparentes, a se assumirem como imperfeitos, a viverem e conviverem com as
ausências e faltas inerentes à alma, até mesmo sujeitos às hipocrisias, farsas,
mentiras, falsidades da natureza – livre, o tropeiro toca o lote e canta a
lânguida cantiga com que espanta a saudade, a aflição, com que rega e alimenta
os sofrimentos e dores, com que ameniza e diminui as angústias e desesperos,
com que nutre as suas esperanças e desejos de felicidade, amor e paz, com que
levanta a voz aos céus, perguntando a Deus onde Ele está que não responde às
suas súplicas e rogos, que permite todas as injustiças e violências; livre
corre o vaqueiro pelos morros e várzea e tabuleiro do intrincado cipó; pelo
fato de seu nascimento, de seu domicílio, educação, pátria, acaso,
coincidências, indiscrição dos outros, elencando o mais importante que concebo
nessa manhã de início de julho – mês de meu profundo amor e carinho pela vida e
seus desígnios, mês de meus mergulhos mais abismáticos nos horizontes de minhas
carências e faltas, mês de realizações de meus mais profundos sonhos e utopias,
mês que me faz sentir o ser indivíduo que sou e que intenciono ir além dele -,
em breve a primavera se a-nunciará, as flores exalarão os seus perfeitos odores
e embelezarão todas as coisas, as retinas se serenarão e todas as visões serão
divinas, a mente renovará as suas idéias e pensamentos, eles se vêem empenhados
em numerosas relações humanas, desde as mais intimas às superficiais, desde as
mais banais às mais percucientes; é-lhes conferida toda espécie de opiniões,
pelo simples fato de que são as opiniões reinantes, são as opiniões imperantes,
são elas que podem garantir e assegurar a esperança de outros tempos e verdades
que o brilho das estrelas e lua, os raios de sol revelam a cada noite e dia, a
cada sono com os seus sonhos respectivos e particulares, a cada vigília com os
seus problemas e desejos específicos; toda expressão fisionômica que não for
negativa passa como aprovação; todo gesto que nada destrói é interpretado como
adesão, é analisado como comunhão, é sentido como ligação.
Sabem
muito bem, esses solitários do espírito livre, que parecem constantemente, de
uma maneira ou de outra, aquilo que realmente não são; quando nada pretendem
senão serem verdadeiros e sinceros, id-ent-ificarem-se compromissados e
responsáveis com a verdade, com as novas perspectivas e panoramas do eterno e
duradouro, em torno deles é tecida uma rede de mal-entendidos, desde os
pré-conceitos às dis-criminações, desde as idéias arbitrárias e gratuitas aos
instintos puros e absolutos, a despeito de seu violento desejo, sentem pesar sobre
seus atos um vapor de opiniões falsas, de acomodações, de meias concessões, de
con-sentimentos simulados e dissimulados, permissões panto-mímicas e
embusteiras, des-secrados de silêncios complacentes, de interpretações
errôneas, despeitos e invejas, medos de seus interesses e ideologias não serem
concretizados, morrerem em absoluto desacreditados pela opinião pública, pela
notória fofoca de lendas e folk-lores. É isso que acumula sobre sua fronte uma
nuvem de melancolia, neblina de nostalgia, garoa de tristeza, pois, semelhantes
naturezas odeiam mais que a morte a necessidade de fingir, tripudiar,
engabelar, mentir.
Prefiro
crer que não posso re-presentar uma vida orientada para as verdades profundas,
para a sinceridade e dignidade, sem que o coração dilate e que nasça um ardente
desejo de ser também um indivíduo de pura e maravilhosa serenidade quanto a mim
e à própria felicidade, invadido por uma chama ardente e devoradora na busca do
conhecimento e muito distante da neutralidade fria e menosprezadora dos
espíritos ditos científicos, muito acima de uma con-templação desagradável e
enfadonha, pronto a me imolar em primeiro lugar à verdade que reconheci e
plenamente consciente, no fundo de mim, dos sentimentos que decorrerão
inevitavelmente de minha sinceridade.
Por
que só agora me é possível tirar a máscara, libertar-me da farsa e falsidade de
que em meus escritos de outrora, e mesmo de tempos bem recentes, da obra
reunida, não está a profundidade que almejava, o verbo de meu ser com que tanto
sonhei? Iludido estava, isso é que, em primeira instância, consigo res-ponder
com franqueza, posso dizer sem estar tripudiando com as letras e as idéias,
ainda há quando lhes peço cordial e espiritualmente que me deixem expressar o
verbo das idéias e pensamentos, sou, enfim, co-autor e não autor delas. Embora
não foram as letras que se escrevem por si mesmas, que concebem sentidos e
significados a mim não me é possível percebê-los com transparência, me são
inconscientes, posso apenas intuí-los, as responsáveis dessa ilusão que vivo há
tantos anos, sim o medo que senti presente e forte de seguir os meus próprios
caminhos, escutar o meu próprio canto, ouvir o silêncio que me habita em
profundidade o íntimo, a ópera do silêncio que desejo sim executar, seguindo e
não seguindo, as notas musicais que id-ent-ificam as tragédias da vontade e do
desejo, os sofrimentos dos sonhos e utopias, a desgraça das atitudes e ações do
mal e interesses que me prejudicaram a visão do bem e do eterno. Dizer, então,
que me despertei antes que mergulhasse num abismo profundo, não me sendo mais
dado re-tornar à superfície e viver realidades outras e diferentes das que
antes havia vivido, haver-me-ia perdido para sempre, tudo por me haver iludido,
haver-me entrelaçado nas teias de sentimentos arbitrários, dentre eles o de ser
um deus, a mim foram-me dadas a engenhosidade e agilidade com as letras, para
aprender a humildade e simplicidade, para viver o que há de mais puro e
ingênuo, inocente, para me re-fazer de todas as experiências, vivências, dores
e sofrimentos, erros e enganos dessa vida praticados. Aí está quando se faz
mister esmero e acuidade para conservar a dignidade e honra, para resguardar os
princípios e estilos de vida, postura e conduta.
Seria,
então, que amadureci, cresci, posso sentir-me e intuir-me mais profundamente, e
é chegado o instante de isso mostrar, de isso manifestar, de seguir as minhas
próprias trilhas em busca dos verbos de meu ser que se tornarão palavras, que
se me tornarão a vida, alfim sentir-me feliz e realizado com o destino que
tracei para mim?
Tenho
necessidade de afeto, carinho, ternura, sou solitário, tenho assumido isto a
cada passo que dou seja metafisicamente, sentindo-me, por mais que isso suscite
surpresa e espanto, feliz, alegre, contente, seja realmente pelas ruas e
avenidas, quando cumpro as minhas responsabilidades e compromissos, quando
apenas passeio a esmo, a cada degrau da escada que ponho os meus pés a solidão
se torna mais presente e forte, de companheiros de estrada e vida, com quem
posso me mostrar franco e simples e cujas presenças ponham fim ao aperto
doloroso que me causa o silêncio e a dissimulação. Tirem-me esses companheiros
e irei aumentar o perigo que me ameaça. Tirem-me os íntimos e amigos irei
aumentar a possibilidade de não mais me expressar, de procurar ser verdadeiro e
digno.
Tudo
é deserto... somente à praça em meio às atribulações e labutas do quotidiano se
agita dúbia forma que palpita, estorce-se em rouco estertor. Sim, de longe, das
raias do futuro, dos confins dos horizontes e uni-versos, das arribas do
infinito, parte um grito.
(**RIO
DE JANEIRO**, 04 DE JULHO DE 2017)

Comentários
Postar um comentário