#AFORISMO 7/QUÃO ESPLENDIDAS SÃO A HIPOCRISIA E MESQUINHARIA NA CONSTRUÇÃO DE UM PATRIMÔNIO HISTÓRICO, DE UM MUSEU CULTURAL!# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Vacilo
entre querer e não querer, entre ficar e arrumar as trouxas para escafeder-me sem
deixar vestígios, sinais de minha presença, fantasias e quimeras de minha
ausência, saudades de minha falta, ec-sistência, sem deixar os passos nas
pedras das ruas, re-colhendo as palavras todas que pronunciei, as idéias que,
inocente e ingenuamente, divulguei, as idéias que se me anunciaram, esperei
amadurecer para id-ent-ificá-las, como dissera um de meus maiores e melhores
amigos no instante de nossa despedida, “você está no seu mundo mesmo”, os
sentimentos de amor que armazenei em mim dentro para viver no meu espaço
singular e particular, os olhares com que observei as coisas, os rostos e os
objetos, jogando-lhes na mochila, bem mais tarde, comentários e opiniões,
pontos de vista que ouvi altissonantes, cretinices e mesquinharias, nos
litteris de todos os ipsis re-fazer-lhes e re-contruir-lhes nas instâncias e
estâncias do in-verno e seu aspecto ensimesmado nas auroras e crepúsculos do
sertão, imagem do presente, do verão e seus raios numinosos incidindo nas
cabeças de transeuntes e nas ruas sem sombras, não há árvores por todas elas,
um convite ao mergulho na divinidade do desejo e o adeus insofismável na
algibeira, imagem do passado, “hasta la muerte” no alforje, no dia do
apocalipse faria uma viagem rápida com o objetivo exclusivíssimo de soltar os fogos
de artifício, comemorando a alegria de assistir ao sepultamento da absoluta
súcia, quem há que dela não seja integrante, participante, nascido e criado
nela?, ande ao seu lado como ovelha do rebanho, ao fim de toda uma civilização
e cultura, o espaço vazio no mapa, jamais em todas as dimensões da alma; quem
dera pudesse isso concretizar, não veria re-fletido no espelho a tristeza e a
desolação na minha imagem, a boca fechada, em silêncio irrestrito e
irreversível, há as suas vantagens, observo com mais percuciência as mazelas e
hipocrisias individuais e da história, entre o que se foi e o que haverá de ser
– na verdade, na verdade, não sei se foi mesmo, parece confundido com o que
está sendo, o que haveria de ser é o que se foi, o que está sendo é uma ilusão
do sonho que se anunciou instantes atrás, tudo parece entrelaçado com certas
inconsciências, concebidas e nascidas dos instintos voltados para as
justificativas e explicações fundadas e fundamentadas nos interesses espúrios,
súcias ideologias, pergunto-me como o que há-de ser será possível, se o
presente está amasiado, suciado ao passado, entrelaçado com ele feito vermes,
não tendo qualquer resposta, inda que inviável; pergunto-me ainda se haveria
possibilidade de silenciar onze anos de minha vida, amanhã poderão ser trinta,
três não me foram fáceis, mas era garoto de oito anos, apesar de aquando em vez
alguma perspectiva se me a-nuncia, cuido logo de devolvê-la ao catre com alguns
comprimidos de Paracetamol, mais um para somar ao coquetel que ingiro todos os
dias, algumas massagens nas costas, lugar onde tudo ficou mais que inscrito;
jamais poderão figurar em qualquer espaço, levo-lhes comigo para os sete palmos
de terra, não havendo quem possa tecê-los de modo a representá-los, quem
conhece esses três anos de minha vida não irá dar com a língua nos dentes,
respeita-me o último pedido de não fazê-lo, não que tema algo inconsciente seja
exposto a todos os ventos, denegrindo-me a imagem, sim porque não quero
carregar canalha nas costas pela eternidade, tudo o que disserem serão
criações, invenções, frutos da imaginação fértil, mesmo dos interesses de
importância, pois que contribui com leituras mais percucientes, esclarecedoras
da psique e suas contribuições à personalidade e caráter insolentes, prepotentes
– não acredito que a psique seja a responsável pela insolência e prepotência,
em verdade são elas frutos da consciência da inteligência e dos valores
sensíveis e intelectuais que me habitam, foram sempre objetos de encômio - à
luz do que é exterior, mas no interior a busca de verdades que me indiquem os
caminhos do ser e dos verbos - o passado, seja o que ele?, passado e promessa
de outro presente, outro futuro; é na carne mesma que trago esses anos, nela
ninguém poderá mergulhar, arrancar dela as verdades angustiantes que viveu por
toda a vida, mesmo com a presença de todas as mimeses para tripudiar com as
mágoas, ressentimentos e ódios -, o que penso e os sentimentos que me vão no
íntimo, entre a verdade e a in-verdade – insegurança e medo, suponho, - que me
diz: “O indivíduo, sob qualquer perspectiva e ângulo que se considerar e
analisar, está sujeito a todas as mudanças, é uma lei a mais, uma necessidade a
mais para tudo o que está por vir”.
É
mais fácil ser feliz do que escrever;
Não
troco a felicidade pela escrita,
É
escrevendo que artificio
a
felicidade que desejo,
com
ela abrir espaços e vazios,
vácuos
e abismos,
para
a a-nunciação do
SER
E DOS VERBOS,
que
lhe tecem a VIDA,
que
lhe compõem
o
itinerário de campos
e
florestas
silvestres.
É
mais fácil tecer palavras
Que
re-presentem a verdade
Que
habita o sonho do verbo
Que
assistir de camarote
Às
realizações de todos os desejos,
A
concretização da VIDA em sua
Essência
de pureza, inocência,
Acima
de tudo,
Da
ingenuidade do tempo,
Suas
circunstâncias e situações.
É
mais fácil alçar vôos profundos
Nas
asas de letras e palavras
Que
encontrar no quotidiano das ações e atitudes,
Dos
desejos e vontades outras
Que
preenchem a vida de alegrias e prazeres,
Asas
para sobrevoar campos e florestas,
Abismos
e descampados;
É
criando letras, artificiando palavras,
Transcendendo
com elas os caminhos percorridos,
Que
a vida se mostra plena,
E
os sonhos de estendê-la a todas as distâncias
Se
tornam reais,
São
perspectivas da beleza e do belo.
Mas
não é da esperança grande e imensa que nesta terra houvera, limpa e pura a
alegria, como têm costume, hábito e orgulho de assim dizerem dela, sim da
condição pesada e dura, cárcere de correntes e algemas, de trabucos e carne
viva e sensível, a culpa terá firmeza, a responsabilidade, solidez, o mal logo
mudará a natureza, os ossos para sempre sepultados – quão fáceis são ao corpo o
caixão, a sepultura!
Quão
esplendidas são a hipocrisia e mesquinharia na construção de um patrimônio
histórico, de um museu cultural.
(**RIO
DE JANEIRO**, 05 DE JULHO DE 2017)

Comentários
Postar um comentário