#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - Manoel Ferreira Neto: ENSAIO
CAPÍTULO II
A obra
Além do Bem e do Mal introduz a “vontade de verdade”, é obviamente algo que
suscita pensar, investigar. O Aforismo começa designando essa vontade e falando
sobre ela, a qual não havia sido mencionada anteriormente no livro.
A
vontade de verdade, isto é “amor pela verdade”, que ainda nos levará a muitas
aventuras, essa famosa integridade da qual todos os filósofos falaram até agora
com reverência, quantos problemas estranhos, perversos, problemáticos! Já é uma
longa história – no entanto é como se tivesse apenas começado (ABM 1)
A
vontade da verdade é uma face da magnífica tensão do espírito, a qual o
prefácio nos diz que Nietzsche vê na filosofia contemporânea, e que o próprio
Além do Bem e do Mal é uma tentativa de diagnosticar a situação atual da
filosofia e de apontá-la para um novo futuro. Percuciente Nietzsche encarar a
vontade de verdade como uma face da magnífica tensão do espírito porque, como o
prefácio nos diz, foi a luta contra Platão e especificamente contra seu “erro
de dogmático que “criou na Europa uma magnífica tensão do espírito. O “erro de
dogmático” de Platão foi um erro “que significava por a verdade de cabeça para
baixo. (ABM P). Faz sentido que Nietzsche veja a vontade de verdade como a
instigadora da luta contra o dogmatismo de Platão e, portanto, como uma das
forças que constituem a tensão que ele vê na filosofia contemporânea. A vontade
de verdade deve finalmente enfrentar a questão de seu próprio valor. A tese de
que a vontade de verdade “apenas começou” sugere fortemente que Nietzsche nõ a
extingue em suas opiniões em Além do Bem e do Mal 1.
O
problema do valor da verdade é: por que valorar a verdadese isto põe tudo mais
em risco? A verdade é letal, a mais letal das verdades. Assim, a verdade é o
oposto das falsificações sobre as quais a vida humana foi construída, os seres
humanos (excluindo os filósofos) devem encará-la antes como “letal” que
valiosa. Torna-se arriscado expor a verdade sobre a vontade de verdade não
porque a vontade de verdade tenha desmascarado falsificações sobre as quais a
vida humana tem sido construída (o que de fato é o caso), mas porque a vontade
de verdade é constituída de tal forma que não parecerá ser útil pelo
entendimento de nosso ideal corrente (um ideal ao qual os filósofos estão pelo
menos tão firmemente ligados quanto os outros humanos). Formular questões sobre
a vontade de verdade é arriscado, se desejamos manter respeito pela vontade de
verdade e pela filosofia, tanto entre filósofos quanto entre as pessoas em
geral, como acreditamos que Nietzsche o faz.
Enquanto
a vontade de verdade pretende acreditar apenas no que corresponde ao modo como
o mundo realmente é, a vontade de valor pretende representar o mundo em relação
ao que é valioso, em relação a como o mundo deveria ser.
Uma
coisa do mais alto valor tem de ter sua origem num mundo metafísico. Dada a
explicação de Nietzsche sobre o pensamento dos metafísicos, não são coisas de
valor particular que levaram à postulação de um mundo metafísico, mas a
suposição de que coisas do mais alto valor deve ter uma origem separada, que
não podem ser derivadas do mundo natural. Dada esta suposição, vão exigir
enquadramento num mundo metafísico de tudo que se admira ser do mais alto
valor.
Um
primeiro ponto que devemos considerar na obra O Anticristo de Nietzsche está
relacionado ao “tipo psicológico do salvador”, ou seja, para o filósofo alemão
não interessava o que Jesus disse, realizou ou a maneira como morreu, mas sim
saber se foi possível imaginar seu tipo e se ele foi conservado pela tradição
ou não. Nietzsche nos revela através de sua grandiosa filosofia uma mensagem
interpretativa sobre uma diferença axiológica entre a moral cristã e a
verdadeira práxis crística ensinada por Jesus de Nazaré (Jesus de Nietzsche). A
tipologia psicológica de Jesus significa, para Nietzsche, a total superação dos
valores morais e metafísicos atribuídos pela teologia cristã. Na verdade, o que
o filósofo alemão intencionava era estabelecer um alerta contra a moral
teológica estabelecida em Jesus Cristo. Com efeito, em uma dessas passagens,
ele nos ensina que “no fundo só existiu um cristão, e esse morreu na cruz. O
evangelho morreu na cruz” (NIETZSCHE, 2000. p. 73)
Se a
conseqüência da morte de Deus é a irrupção do “niilismo”, quem é, exatamente,
esse “mais sinistro de todos os hóspedes”? “Que significa niilismo? Que os
valores supremos se desvalorizaram. Falta o fim; falta a resposta ao porquê”.
Os valores supremos, a cujo serviço o homem consagrava a sua vida, foram
criados, enquanto valores sociais, para o fortalecimento do homem. Enquanto
tais, eram considerados como mandamentos de Deus, como “realidades”, como
mundos “verdadeiros”, como esperança e vida futuras.
Para
Nietzsche, o “pessimismo” de Schopenhauer era a expressão filosófica desse
desalento: se os valores se desvalorizam, é a nossa “existência” que também
perde o seu valor.
Em
alguns fragmentos póstumos, Nietzsche dirá que o niilismo, enquanto “estado
psicológico”, faz seu aparecimento em três situações:
1)
quando se tiver buscado um “sentido” em tudo o que ocorre, sentido que não se
encontra ali, até o ponto em que aquele que o buscava termina por abater-se. O
niilismo é a tortura desse “em vão”. Esse sentido poderia ser o cumprimento de
um cânone ético superior em tudo o que ocorre, ou a realização, mesmo parcial,
de um estado de felicidade universal;
2) o
niilismo faz sua irrupção quando o homem, que se acreditava parte de um todo
organizado, um todo em que imperava uma unidade, em que ele se sentia em
conexão profunda com esse todo que lhe é infinitamente superior, em que ele era
um modo de divindade, descobre que não existe semelhante totalidade. Agora o
homem perde a crença em seu próprio valor, visto que através dele não atua
nenhum todo infinitamente valioso. O niilismo, enquanto estado psicológico,
terá ainda uma terceira e última forma;
3)
esta terceira e última figura do niilismo é a mais abrangente de todas e traz
consigo a verdade das duas primeiras. É a figura mais abrangente: ela designa a
condenação do “processo”, seja uma desvalorização do “homem”. Ela é a verdade
das outras figuras, já que as demais tacitamente a supõem. A primeira figura a
supõe enquanto decepção em face de uma suposta finalidade do vir-a-ser. Afinal,
é a uma transcendência divina que devemos a mania de perguntar-nos pela finalidade
dos processos. “A pergunta do niilismo, ´para quê?´, vem do hábito que houve
até agora, em virtude do qual o alvo parecia posto, dado, exigido de fora – ou
seja, por alguma autoridade sobre-humana”. A segunda figura do niilismo também
supõe a terceira, assim como um todo organizado supõe um organizador. Assim, em
Pascal, a incerteza cosmológica oriunda do fim do geocentrismo, o “silêncio dos
espaços infinitos”, só encontra sua cura na certeza obtida pela fé. “Sem a fé
cristã, pensava Pascal, sereis para vós mesmos como a natureza e a história, um
monstro e um caos. Nós cumprimos essa profecia”. Sendo assim, a terceira figura
do niilismo resume todas as demais e traz consigo a verdade destas, e por isso
não é à toa que Nietzsche a chama de “forma suprema do niilismo”. Donde a
origem do niilismo na negação do Deus transcendente e a correlação entre a
morte de Deus e a desvalorização de todos os valores.
(**RIO
DE JANEIRO**, 03 DE JULHO DE 2017)

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