#AFORISMO 12/O MAIS LONGE QUE SE DEVE LEVAR O DESEJO E A VONTADE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
"À
beira-mar a "odisséia proseada" nos céus do Olimpo..."
Busco
na solidão - ou no "estar-só", "ser-só"? - com que me
deparo nesta manhã de após chuva noite inteira, no silêncio que se me a-nunciou
desde que abri os olhos, meus sentimentos distantes, emoções à soleira da
eternidade, pensamentos e idéias perdidos em não sei que sendas, intuições e
percepções em estado de expectativa, alma e espírito dispersos na imensidão dos
infinitos horizontes do mundo, mas tão perto que posso senti-los vivos e
presentes, posso senti-los pujantes, posso sentir-lhes os êxtases e volúpias,
vagam nas linhas curvas de letras e frases curtas que não tenho qualquer pejo
ou medo de mostrar, id-“ent”-ificar, a-nunciar e re-velar, e mesmo que houvesse
relutâncias não saberia como evitar a presença – como existir pejo ou medo em
incertas palavras, inquietas letras, dispersas linguísticas e semânticas, se
antes não existissem em mim, se antes não fossem re-presentações do que em mim
habita profundamente, não fossem símbolos de desejos e vontades, não fossem
signos de esperanças e fé, não fossem metáforas dos sonhos e querências, não
fossem estilo e linguagem do outro atrás do meu eu? Isto é perfeitamente
impossível, isto é totalmente irrealizável, isto é ipsislitteris in-audível.
Ser de
avessos, sin-estesia
Sim de
desejos puros, inocentes, ingênuos
Sim de
idéias simples, humildes, verdadeiras
Estesia
do sim, numinando espaços,
A lua
olha de soslaio a distância da estrela próxima
O
espaço sideral vislumbra de esguelha os relâmpagos
Que
anunciam, primevas pers-pectivas da imagem,
A
chuva niilista do apocalipse de divin-idades absolutas,
As
estrelas olham a proximidade da lua a versejar
Seus
brilhos, desejando a luz uni-versal da verdade
A
escuridão do uni-verso em plena desova das trevas,
Aspirando
a dialética da iluminação trans-versa às ideologias,
Versando
a escravidão de homens bêbados de boêmias
À luz
das ruas áridas e íngremes de solstícios do alvorecer,
À
semi-luz das cavernas solitárias e silenciosas de estalactites,
Cambaleando,
tropeçando, caindo, arrastando nas sarjetas,
À
busca da canção executada na harpa da suprema querência
Do
sentimento da vida, enleado e entrelaçado à espiritualidade
Do ser
tempo no silvestre dos verbos do estar-aí,
Boêmios
lúcidos à sombra das calçadas pectivando
As
pers de suas solidões, silêncios, abandonos, tristezas.
Na
imensa escuridão de minha alcova, na obscuridade do temporal que descia do céu
– não me lembra de no mês de março chover tanto como agora, “águas de março
fechando o verão”, assim o definiu o “poetinha” Vinícius de Morais; não existem
somente as águas de março, existem as do início de setembro para as flores da
primavera abrirem e extasiarem a alma, instigar a busca da beleza eterna ou o
eterno dos sentimentos e sensações da beleza, do puro, do belo, alfim do
divino; a primavera e o amor é que me inflamam, o sublime e a amizade é que me
enternecem, a verdade e a ternura é que me sensibilizam. Que a um abismo irei
ter, em vão percebo, e me rio aos toques e retoques. Em vão atraco, e em vão
ponho brida a esta selvagem paixão, a este rebelde e irreverente devaneio (ou
desvario?) -, meu coração se entristecia na solidão, no estar-só, no ser-só,
sentimentos de ausência, carência, falta perpassavam o íntimo, no esquecimento
da felicidade que já ia embora, no olvidamento da alegria que já partia e
acenava o incólume adeus.
Meu
ser vivia na escuridão da noite, meu ser vivia na obscuridade do temporal, meu
ser vivia no desejo, minha alma era uma lembrança que existia em mim, eu não
era qualquer recordação, eu era nada e nada con-templava a manhã que se
re-velava aos poucos, lenta e serenamente. Quando abri a cortina e semicerrei a
janela, o vento frio tocou no meu pálido rosto, respirei amor, respirei
carinho, respirei ternura, respirei o sublime carinho e a eterna amizade,
suspirei de prazer e alegria, suspirei de tantas volúpias que me habitaram o
íntimo, as pré-fundas de meu ser, o abismático não-ser de mim, criei poesia a
des-vendar o céu, as estrelas, o espaço sideral, a des-velar as meiguices
insolentes do inferno, a percorrer as florestas silvestres, a sobrevoar os
abismos, procurando intensamente a loucura de trazer a sublimidade para junto
de mim. Senti a maresia do mar - sentimento que não entendi de imediato: por
que o mar? Seria que à beira-mar compusesse a "odisséia proseada" nos
céus do Olimpo? Senti-me feliz, e a tristeza é que ficou no esquecimento dentro
da obscuridade, derretendo-se em chuvas, caindo pelas estradas, sendo levada
pela enxurrada, e esquecendo-se de mim, que não lhe dei qualquer guarida, não
compreendi os seus valores naquele instante.
Do
supremo repouso a hora nefasta soou, os sinos de todos os domos de igrejas
simples e humildes redobraram. A treva impenetrável, densa, cresce em torno; e
enche a noite da descrença, da desesperança, do ceticismo a amplidão do deserto
adusta e vasta.
Que
inquietação profunda, que desejo de outras realidades, outros sonhos dentro de
outros sonhos, de outros versos e uni-versos, de outras coisas, de outros modos
de estados de alma, de outros estilos e sensibilidade!
(**RIO
DE JANEIRO**, 06 DE JULHO DE 2017)

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