#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO
CAPÍTULO
III
Esta
ou aquela crença pode ser abolida. Poderíamos refutar o instante religioso?
Nietzsche teve muitas vezes citada esta fórmula: “no fundo, só o deus moral é
refutado”. Não devemos entender que Nietzsche propunha uma reconstituição, seja
lá qual for, de um neopaganismo como foi tentado às vezes no fim do século XIX;
é exatamente de uma filosofia que se trata, de uma filosofia trágica da qual a
Antiguidade talvez só tenha conhecido um breve esforço, de uma filosofia que
não poderia negar o divino (theion), sem desconhecer a própria vida, de uma
filosofia sem teologia, mas não sem “theiologia”.
Partindo
de um conceito geral, a idéia de Deus pode ser compreendida a partir de dois
conceitos; primeiro o de causa, onde Deus é o princípio que torna possível o mundo
ou o ser em geral; o segundo, atribui a Deus a fonte e a garantia de tudo o que
há de excelente, eterno e imortal no mundo, a pedra angular do amor, compaixão,
solidariedade, sobretudo no mundo humano . Temos, contudo, uma concepção geral
de Deus, que só se tornará sólida a partir da perspectiva em que for
engendrada.
Para
compreensão precisa desta introdução – pedra angular em cujas linhas
tencionamos de-monstrar o “espírito subterrâneo” na obra e na vida de
Dostoievski, tendo como pedra angular de nosso ensaio esse capítulo, um dos
pontos culminantes desse trabalho, e sobretudo o próprio Dostoievski, outro
ponto que nos encaminhou no conhecimento de várias idéias e pensamentos,
análises e interpretações de Joseph Frank -, faz-se necessário, de antemão,
compreendermos o que entendemos por ateísmo, absolutização, niilismo;
conhecermos o “niilismo europeu”; daí, transcendermos, de-monstrarmos a
experiência mística, que está no princípio de toda experiência religiosa
genuína e autêntica e é sua culminância e plenitude; porém, voltado para uma
concepção teísta onde Nietzsche engenhará
uma reflexão crítica.
Só
a partir desta reflexão crítica torna-se legível e inteligível a perspectiva
teísta e mística em que o universo dostoievskiano culminou, a partir da fé,
liberdade, responsabilidade, da busca de comunhão do sofrimento, dor, vivência
e experiência, e o desejo, a vontade, sabendo, tendo consciência,
re-conhecendo, da redenção e ressurreição em nível da busca da espiritualidade,
eternidade, imortalidade.
Há
quem reclame por um encontro de ambos, já que estiveram na Basiléia na mesma
ocasião, que não houvera, e estes quem reclamam dão muito a entender que seria
uma rejeição mútua, quando se diz respeito às posições de cada um acerca de
Deus, do cristianismo, não se suportariam mutuamente. Contudo, não há de se
esquecer de citações de Dostoievski em O anticristo, haver Nietzsche confessado
que fora quem o ensinou a psicologia, a quem devia muito as lições.
Ao
tomar ciência da literatura do romancista russo F. Dostoiévski, Nietzsche ficou
em absoluto extasiado. Passou-o imediatamente ao seu elenco de gênios e
referências-chave. Na ficção de Dostoiévski, era o ceticismo, niilismo, o homem
em conflito com deus, que prendiam a atenção de Nietzsche, fascinado pelos
cenários e personagens das obras primas Crime e Castigo (1867) e Os Irmãos
Karamazovi (1879). Dostoiévski trazia as marcas de uma existência angustiada,
atormentado pelas questões do bem e do mal, do pecado e da redenção, de modo
que Nietzsche fundamentalmente interpretará a construção literária na prosa do
escritor russo. Nas notas deixadas em rascunhos durante a internação de
1886-1887, Nietzsche chama Dostoiévski de “Único psicólogo com quem tenho algo
a aprender” e o menciona como responsável pela sua descoberta de Stendhal. O
niilismo é também um considerável elo.
Apesar
de não concordarem em alguns pontos que analisaremos ao longo do trabalho. Dois monstros frente a frente, filosofia e
literatura, de ambas as partes, outras experiências e vivências. Realmente,
nesse aspecto há de se reclamar o não encontro dos dois: Dostoievski e
Nietzsche.
Desde
o início da primeira leitura de O anticristo, o questionamento presente e forte
que se nos apresenta é o por quê de, exatamente, a morte de Deus deva implicar
a desvalorização dos valores?
Este
questionamento perpassa toda a obra, é um dos temas mais importantes da
filosofia, do pensamento nietzscheano, pressupõe alguns conhecimentos a priori
acerca do pensamento dele, de seus passos. Nietzsche parece estabelecer entre
os dois eventos uma relação de premissa e conclusão:
Que
ingenuidade! Como se subsistisse a moral quando falta um Deus que a sancione!
Um além é absolutamente necessário, quando se quer conservar sinceramente a fé
na moral .
Ser
necessário ter a certeza teórica da existência de Deus para que os valores
morais sejam validados, esta é, sem dúvida, uma evidência imediata para o
tomismo: ali só há “bem” referido ao Bem Supremo ou, como diria Nietzsche, não
há valor sem uma instância legisladora que opera do exterior. Assim São Tomás
estipulará que Deus, como projeção de todas as perfeições, é o Bem de todos os
bens, e tudo o mais será dito “bom” por participação, isto é, por ter
semelhança com a bondade divina.
Compreendamos
mais de perto a "idéia de Nietzsche. A idéia não é bem que as razões
deveriam vir antes, e não depois, das opiniões defendidas. A importância do
fato de a filosofia começar com palpites
e desejos íntimos é que ela começa na vontade de valor, um impulso que
representa o mundo de modo que se conforma
ao que se valora. Admitindo ser isto correto, então Nietzsche deve estar
criticando os filósofos neste aforismo por outra coisa além da influência da
vontade de valor sobre a filosofia deles:
"Todos reagem como se tivessem descoberto
e conquistado suas opiniões finais através do desenvolvimento espontâneo de uma dialética fria, pura, divinamente
desinteressada [...] enquanto no fundo se tratou de uma suposição , de um
palpite, de uma espécie de inspiração - na maioria das vezes de um desejo
íntimo que foi filtrado e tornado abstrato - que eles defendem com razões buscadas após o fato. Ainda que o
neguem, são todos defensores e, em sua maior parte, astutos porta-vozes de seus
preconceitos por eles batizados de "verdades". (ABM 5)
Nietzsche
critica os filósofos não pelo fato de seus pontos de vista não terem sua gênese
em argumentações ou razões, mas pela desonestidade com que se recusam a admitir
que seja assim. Filósofos a que ele admiraria tem a "coragem da
consciência" de admitir para si mesmos que seus pontos de vista expressam
seus valores e sua vontade de valor, a vontade de re-presentar o mundo por seus
valores.
Todo
bem, enquanto apetecível, orienta-se teleologicamente ao Bem supremo; e como o
supremo, em qualquer gênero, é causa de tudo o que está compreendido nele, o
Bem supremo é o fundamento dos bens. São Tomás concordaria com Nietzsche: a
morte de Deus traduz-se imediatamente na desvalorização dos valores, já que a
certeza na existência do Bem supremo é a condição da certeza relativa aos
valores morais.
Importantíssimo
se torna a citação de Os irmãos Karamázovi seguinte,
Se
não há imortalidade da alma, então não há virtude, o que quer dizer que tudo é
permitido .
muitíssimo
traduzido, divulgado, “sem Deus, tudo é permitido”, para compreendermos, nessa
busca da comunhão do pensamento filosófico nietzscheano, literário
dostoiévskiano, quando com essa comunhão, adesão, podemos contemplar o niilismo
europeu, a obra de ambos, e repensarmos acerca de nossos valores, de nossas
realidades, sonhos e utopias.
(**RIO
DE JANEIRO**, 03 DE JULHO DE 2017)

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