#AFORISMO III/FRASE DE EFEITO E AFORISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Devo
confessar que encaro a "Frase de Efeito" como um distúrbio psíquico,
que não há de ser posto de escanteio por meio de análises e interpretações,
cujos interesses são de esclarecer as intenções de quem a produziu, o que ela
nas entre-linhas pretende significar. O que podem fazer as análises e
interpretações com pessoas que desejam chamar a atenção, com o que dizem
envaidecer-se, justificar ou explicar a visão-das-coisas de que são lídimas
re-presentantes? Pois que análises e interpretações tem como pedra fundamental
aspectos e características gnósticas que trazem na algibeira, no alforje outras
visões e pontos de vista que na continuidade do tempo tornam-se sementes e
húmus de outras utopias, sonhos e esperanças.
A
"Frase de Efeito" tem pernas curtas, serve por um período de tempo,
enquanto os seus objetivos estiverem na pauta das justificações e explicações,
dos envaidecimentos, orgulhos e pernosticidades.
Numa
entrevista com a jornalista, apresentadora e entrevistadora Leda Nagle, o
imortal e eterno escritor João Ubaldo Ribeiro, respondera este à pergunta
"João Ubaldo, como você vê isto de ser um escritor bem polêmico?":
"O escritor que não é polêmico é imbecil". O adjectivo
"imbecil", significando quem revela tolice ou fraqueza de espírito, é
que confere o conceito e definição de "frase de efeito", o vernáculo
já é hilário, risível, imaginar um escritor imbecil realmente é motivo de riso,
gargalhada às sara-palhas do ridículo. João Ubaldo certamente que com esta fala
explicou bem o seu caráter e personalidade de homem e escritor, assumiu ser
polêmico, é a sua responsabilidade como re-presentante das idéias, dos
pensamentos, mas há verdades incontestáveis na sua fala. Se o escritor é
re-presentante das idéias, ideais, pensamentos, utopias, é de sua
responsabilidade e compromisso destilar os seus ácidos críticos da
quotidianidade, com seus costumes, hábitos, culturas, ideologias, nonsenses.
Acaso houvesse respondido "O escritor que não for polêmico não é
representante das Letras", deixaria de ser "Frase de Efeito",
justificativa, explicação de ele tecer sempre críticas contundentes, inclusive
à Academia Brasileira de Letras, não estaria justificando a atitude, a ação,
sim mostrando que a responsabilidade e compromisso do escritor é ser crítico de
seu tempo. Nesta linguagem, seria então Aforismo.
Há-de
se considerar que, sendo uma entrevista televisiva, em nível de todas as
classes sociais, está mais que condizente com o momento, João Ubaldo teria de
chamar a atenção, de terminar seu pensamento com o vernáculo
"imbecil", causando o riso, o seu interesse foi encaçapar a sua bola,
encachaprar a sua assinatura, mas a intenção ficou no inter-dito, dizer que o
escritor tem a obrigação, compromisso e responsabilidade de criticar o seu
tempo.
Dever-se-ia
dizer alguém que a travessia da "Frase de Efeito" ao Aforismo é uma
questão de linguagem erudita? Evidentemente que não. No que concerne à
"Frase de Efeito", a pedra fundamental é o interesse; no que concerne
ao "Aforismo", a pedra fundamental é a intenção. Nem sempre mudar os
termos da Frase de Efeito para tornar-se Aforismo é realizado, as estruturas
são ad-versas. A "Frase de Efeito" não tem compromisso com a verdade,
não pretende alcançá-la, o "Aforismo" é compromisso, responsabilidade
com a verdade de uma opinião, noutras palavras, reger a Vida. A "Frase de
Efeito" rege o momento; o "Aforismo" pretende, intenciona reger
a Vida.
(**RIO
DE JANEIRO**, 02 DE JULHO DE 2017)

Comentários
Postar um comentário