#ATEISMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - Manoel Ferreira Neto: Ensaio Filosófico
Há
algumas semanas que a-nunciamos o desejo de revisitar a minha TESE /**ESPÍRITO
SUBTERRÂNEO - ENSAIO EM DOSTOIÉVSKI/Koinonia: Desejo e busca da
consciência-estética-ética na obra de Fyodor Mikhailovitch Dostoïévski".
Neste
ensaio, está um capítulo intitulado ATEÍSMO, DOGMATISMO, ABSOLUTIZAÇÃO E
NIILISIMO", sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Nietzsche na
Modernidade é considerado o grande re-presentante do Aforismo, suas obras são
aforísticas.
Assumimos
a nossa trajectória aforística, que preenche solenemente o desejo, a utopia da
síntese da Literatura, Filosofia e Poesia. Então, revisitando este capítulo da
tese, intencionamos análise e interpretação de alguns Aforismos da obra
nietzscheana, proporcionando assim uma visão do que é isto - Aforismo.
Apresentaremos este Ensaio em Capítulos.
ATEISMO,
ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO
Capítulo
I
FInal
do século XIX: o filósofo alemão Nietzsche anunciou às quatro estações do
século a morte de Deus, “Deus está morto”. O mundo teria entrado num processo
de ateísmo irreversível e nada poderia deter? O homem seria o único quem
responderia por sua vida, morte, atitudes e responsabilidades? Seria o
“homem-Deus”? Seria projeto tentador – quem conseguisse tal proeza, poder-se-ia
sentir o “mais” realizado de todos.
Contudo,
há caminhos a serem per-seguidos no sentido de nos tornarmos homens, seres
humanos, conscientes de nossa vida, cientes de nossas responsabilidades,
compromissos, missões no mundo. Nietzsche, ao longo de toda a sua trajetória de
filólogo a filósofo, de filosófo, propõe-nos uma consciência de quem somos no
mundo, nossa caminhada no mundo em busca de realização. Sugere-nos Nietzsche a
“vontade de poder” como projeto e trajetória, objetivo, como passos a serem
dados na vida, no mundo.
Baudelaire
observou que, numa cultura cristã, é inconcebível e blasfematório que Deus seja
representado rindo. Uma teologia cristã certamente não pode fazer da Criação os
jogos e brincadeiras de uma criança. Os comentaristas tentaram encontrar o
simbolismo dessas representações, segundo Gilles Deleuze: “A dança afirma o
devir e o ser do devir; o rir, a risada afirmam o múltiplo e o uno do múltiplo;
o fogo afirma o acaso e a necessidade do acaso”.
Nietzsche
conhecia de perto o cristianismo. Neste sentido, os dados biográficos são
inquestionáveis, vindo de uma família de luteranos praticantes. Recebeu a
formação educacional e teológica necessárias para prosseguir na jornada de
pastor. Estudou os evangelhos, revirou-os, observou aspectos linguísticos,
literários, normativos e estruturais. Preocupou-se com a forma e o conteúdo da
Bíblia. A obra nietzschiana se situa em oposição frontal ao cristianismo. E
quando algo existe em contraste ao outro, é porque relevância deste outro é
vital.
Zaratustra,
quando substitui a Criança bíblica pelo “céu da contingência, o céu da
inocência, o céu do acaso, o céu do capricho”, mistura a dança e o jogo.
Ó
céu sobre minha cabeça, céu puro, céu alto! A pureza aos meus olhos é que não
há mais eternas aranhas, eternas teias-de-aranha da razão .
Gazin,
Recordações da casa dos mortos, cujo aspecto dava a Dostoiévski a impressão “de
uma enorme, gigantesca, aranha do tamanho de um homem” (a aranha é uma imagem
freqüente em Dostoievski como símbolo do mal absoluto) pertence à espécie de
gente que fascinava o escritor por seu horror.
Quando
“todas as coisas” preferem dançar com os pés do acaso, é que se trata exatamente
de uma cosmologia, em constraste com a vontade do Criador bíblico,
racionalizado pela teologia e pela metafísica. Nietzsche, com efeito, observou
isso ao comentar o famoso fragmento de Heráclito sobre “isto não é um orgulho
culpável, é o instinto de jogo incessantemente despertado que apela para o dia
dos mundos novos”.
Pois
o riso reúne em si toda a maldade do mundo, mas santificada e libertada por sua
própria felicidade e se o alfa e o ômega de minha sabedoria é que tudo que pesa
deve tornar-se mais leve, todo corpo tornar-se dançarino, todo espírito
tornar-se dançarino, todo espírito tornar-se ave – está efetivamente aqui o
alfa e o ômega de minha sabedoria .
Nietzsche
faz alusões à lenda do pássaro alcião que faz seu ninho nas profundezas das
ondas e amaina as tempestades. Alciônica é a sabedoria que supera a
infelicidade trágica sem desconhecê-la nem negá-la. O deus terrível, o deus
cruel, o deus destruidor é também o deus risonho, o deus que ri com um riso
“sobre-humano e novo”.
A
famosa fórmula “Deus está morto” à qual se reduz, discrimina, negligencia,
subestima, nega com muita freqüência o pensamento de Nietzsche sobre a religião
não pretende abolir todo o sentido do divino, ela não anuncia a inconsistência
de toda crença, mas anuncia a possibilidade, além do deus cristão, de um
retorno de Dioniso.
Nietzsche
proclama de forma muito natural, bem lúcida, transparente e consciente que
todos os valores até então pré-estabelecidos pela moral cristã devem ser mesmo
extirpados, eliminados vez por todas, de modo que possamos abrir novos rumos
aos novos valores. A percepção de Nietzsche é sua capacidade de verificar uma
mudança no processo de desvalorização dos valores no qual se apoderou a moral
cristã. Nietzsche nos fornece a primeira idéia de seu projeto de transvaloração
contra, especificamente, o cristianismo. “O cristianismo é entendido por
Nietzsche como um substrato ético-religioso das mais importantes estimativas de
valor do homem moderno” (Giacóia, 1997, p. 19), valores que representam a mais
pura expressão da decadência do homem.
O
projeto nietzschiano de transvaloração de todos os valores tem por objetivo
fundamental operar agora no âmbito de tais valores estabelecidos pela Igreja
cristã em dois milênios de história, ou seja, Nietzsche nos informa que os
valores foram transvalorizados por completo e se esteabeleceram ao longo dos
tempos e que agora esses mesmos valores deve ser também transvalorados, sob a
forma de uma “vontade de poder”.
Para
compreendermos melhor o significado desse termo atribuído por Nietzsche em sua
filosofia, recorremos aos ensinamentos do célebre pensador Martin Heidegger:
“Vontade de poder é, em suma, o nome para o caráter fundamental do ente e para
a essência do poder. (...) essa expressão denomina aquilo de que parte toda
instauração de valores e ao que todas elas retomam. (...) a vontade de poder
enquanto o princípio de nova instauração de valores não tolera nenhuma outra
meta estabelecida fora do ente da totalidade. No entanto, uma vez que todo ente
enquanto vontade de poder, isto é, enquanto o superpotencializar-se que nunca
se extingue, precisa ser um constante “devir”, esse “devir” jamais pode se
movimentar progressivamente para uma “meta” fora de si mesmo, mas encerrado no
círculo de elevação de poder, precisa retornar a essa elevação. (...) o caráter
fundamental do ente enquanto vontade de pode determina-se, com isso, ao mesmo o
eterno retorno do mesmo que diz como o ente dotado de tal essência na
totalidade precisa ser” (HEIDEGGER, 2007, P. 25-26)
(**RIO
DE JANEIRO**, 02 DE JULHO DE 2017)

Comentários
Postar um comentário