#ATEÍSMO, ABSOLUTIZAÇÃO E NIILISMO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ENSAIO
DEUS ESTÁ MORTO - CAPÍTULO II...
A vida mesma é, para mim, instinto de crescimento, de duração, de
acumulação de forças, de poder, onde falta a vontade de poder, há declínio. Meu
argumento é que a todos os supremos valores da humanidade falta essa vontade –
que valores de declínio, valores niilistas preponderam sob os nomes mais
sagrados .
Conforme Jung, o significado ou o objetivo do instinto não é inequívoco,
porque o instinto pode ocultar um sentido da direção diferente do biológico,
que só se manifesta à medida que se processa o desenvolvimento. Na esfera
psíquica, a vontade influi na função, em virtude de ela própria ser uma forma
de energia que pode dominar ou pelo menos influenciar outra forma. Nesta
esfera, que Jung define como psíquica, a vontade é motivada pelos instintos –
não, porém, de modo absoluto, pois do contrário nem seria vontade, que, por
definição, deve ter certa liberdade de escolha.
A vontade implica uma certa quantidade de energia que fica livremente à
disposição da consciência .
É lógico supor que Nietzsche considere arriscado colocar questões sobre
a vontade de verdade (incluindo sua pressuposição referente ao valor da
verdade) devido às verdades sobre a vontade de verdade que é provável que a
investigação sobre essas matérias exponha. Torna-se arriscado expor a verdade
sobre a vontade de verdade não porque a vontade de verdade tenha des-mascarado
falsificações sobre as quais a vida humana tem sido construída (o que de fato é
o caso), mas porque a vontade de verdade é constituída de tal forma que não
parecerá ser útil pelo entendimento de nosso ideal corrente (um ideal ao qual
os filósofos estão pelo menos tão firmemente ligados quanto os outros homens.
Formular questões sobre a vontade de verdade é, portanto, arriscado, se
queremos manter respeito pela vontade de verdade e pela filosofia.
Segundo Nietzsche, a religião não tange uma necessidade básica no homem,
mas é fruto da própria causalidade humana. Surge em nós decorrente das
diferentes tentativas em busca de explicações para as diversas questões que
tocam a existência. Aqui, não nos remetemos tão-só à questão existencial do
homem enquanto tal, mas incluímos todo o mundo fenomênico.
Essa idéia de religiosidade que o próprio Marx definia como sendo um
“soluço da criatura oprimida, coração de mundo sem coração, o espírito de uma
situação carente de espírito. O ópio do povo” , em Nietzsche, ganha um estatuto
não muito distinto. A religião surge no homem à medida que transmite
sentimentos inexplicáveis como fruto de uma potencialidade extra-humana, pois
“os estados da alma que lhe pareciam estranhos, arrebatadores, apaixonantes,
considerava-os obsessões, encantamentos provocados pelo poder de alguém” ,
resultante da percepção de uma potência estranha que se manifestava nas
diversas realizações da vida humana, tida como força causadora.
Desta forma, atribuímos os estados de alma existentes em nós a esta
suposta força que se encontra num além-mundo, num supra-sensível, chegando ser
ela responsável por estas manifestações arrebatadoras; criamos uma divindade
sobrenatural que regula toda a atividade aqui na terra, personificando-a.
Este sentimento de potência quando envolve o homem, deixando-o
dependente e subjugando-o, leva-o a desacreditar e conformar que tais
sentimentos não são causados por ele, mas por “uma personalidade mais forte,
uma divindade que o substitui” , reguladora de toda a sua atividade no mundo.
É enraizado nestes pressupostos que começa a despertar no humano a
gênesis religiosa; “nos extremos sentimentos de potências que surpreendem o
homem por seu caráter estranho...” .
Mas, afinal, o que é religião?
[...] é um caso de alteração da personalidade, espécie de sentimento de
terror e de medo diante de si mesmo... Mas, ao mesmo tempo, extraordinária
sensação de felicidade e superioridade...
A religião percebe a presença de Deus nos diversos acontecimentos;
inicialmente como potência criadora, também como causa intermediária entre o
homem e os resultados daquilo que ele almeja atingir, daquilo que busca
realizar, para, enfim, tornar-se o para quê fora vocacionado desde toda a
eternidade. É um Deus que interfere na natureza. Agora, estamos mergulhados num
mundo onde o homem independe da causa, o homem não cria nada, Deus é o autor de
tudo; simplesmente sofremos a ação de uma potência causadora.
A partir deste espírito, o homem foi se definindo em relação a Deus como
criatura, rebaixando todas as suas potencialidades, tornando-se insignificante
frente a esta nova idéia regulativa. Definiu tudo aquilo que é forte e
surpreendente como sendo atributos de Deus; em contrapartida, o homem é tudo
aquilo de fraco e desprezível.
A religião tornou o homem criatura insignificante; rebaixando-o às mais
baixas categorias existentes, substituindo-o por um sobrenatural que é bom e
verdadeiro e que só poderemos chegar até ele pelo que chamamos de graça .
Pensemos nos conquistadores da Renascença abandonando a cristandade em
busca de um novo mundo; mas também, simbolicamente, no belíssimo frontispício
do Novum organum, de Francis Bacon: nos limites do mundo então conhecido, além
das colunas de Hércules, algumas caravelas se lançam a um mar encapelado, ao
encontro de terras ainda ignoradas. Esta imagem, que serviu em todo sentido,
Nietzsche conseguiu renová-la, ao impor-nos a absoluta prioridade de sua
navegação além das colunas de Hércules da moral, num mar que não é mais o do
amor-próprio, mas da vontade de poder em pérpetuo devir.
(**RIO DE JANEIRO**, 06 DE JULHO DE 2017)

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