#AFORISMO 9/AS CRIATURAS DA NOITE SÃO APAIXONADAS# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
As criaturas da noite são apaixonadas.
Fazem anarquia, fazem comunismo, fazem liberdade, fazem libertinagem,
fazem nonsenses e ridículos, fazem baladas e footings. Uma farra que descobre
sentimentos, que en-vela dores e sofrimentos, que omite mágoas e
ressentimentos, que eleva os fracassos e frustrações às antípodas da terra e do
mundo. Que amam a madrugada, o latido dos cães, o zurro dos jegues puxando
carroças. Que cantam com fervor, cânticos os mais di-versos na esperança de a
aurora nascer, tabernáculo de novo dia, performando novos passos de dança, à
luz do corpo, constituído de carne e ossos, de sensações e calafrios, de
instintos e medos. Que somem sem deixar quaisquer vestígios, sem quaisquer
mínimos traços inda que invisíveis.
Empalidece e cai a noite que num murmúrio, sussurro, cochicho, martiriza
uma parte adormecida do UNI-VERSO, e como cantam as aves cantam os sinos,
novamente batendo, acordando o abismo que arregala de olhos vendados. Se todos
sonharam? Sonharam, sim, e neste sonho supuseram as mais lindas histórias da
escravidão e desrespeito aos direitos humanos, e como numa fábula resplandece a
paz que mais uma vez julga inter-mediária da conquista e do resplendor, da
glória e êxtase.
Ali, à face da montanha, vejo sumir-se, nos pingos dágua, expressando de
outro modo asco e náusea que me habitarão, enquanto for vivo, mesmo debaixo de
sete palmos, mesmo por toda a eternidade até a consumação dos tempos, e serão
sentidos por qualquer indivíduo, embora a sua sensibilidade seja apenas para
sobreviver no mundo, a mentalidade bem menor que o salário do egregíssimo Prof.
Raimundo, o milagre da obra humana, a magia das esperanças de algo ser
construído à luz da verdade e do amor.
Na minha voz tranquila, impérios ruíram, orgulhos e vaidades escusas
desmoronaram, ostentações de moral e ética indevassáveis quedaram sem direito a
único suspiro, até as letras, em princípio, uni-versais e eternas, conheceram o
nada e o vazio do nascimento da razão, uma luta de morte pré-cede todas as
mudanças, no sil-êncio da ordem uni-versal rigor da razão cobre o tempo novo, a
fé nova que nasceu, as velhas que se transformam, mudam de fisionomia, mudam as
faces. Esse cenário, se as câmaras cinematográficas filmassem em todo o
esplendor e magia, transcenderiam a contingência de oitava maravilha do mundo,
o mundo inteiro conheceria a divinidade do espírito e sensibilidade da imagem.
Continuo escrevendo para um mundo distante, para mentes longínquas, de
sermos nós, mas amplo de nossos pensamentos, mitos, ritos e história. E que
minhas escritas caem num lugar vazio, num abismo sem fundo, onde este vácuo
esteja imune da podridão, do odor fétido, muitas vezes ocupando a mente e a
alma... Pensando, orando, ou a cantar, encontro em mim uma libertação, prazer
que e-nuncia outros sentimentos e emoções, às vezes uma liberdade que esconde e
liberta com sua única arma de defesa: “O LAZER”.
Todo dia, faça chuva ou faça sol, há o jogo de luz e sombra, jejum
repleto de gula, o réptil subreptício com sua gosma de íntimo. Quem não sabe
dos buracos negros nas profundezas do poeta? Quem não conhece os vazios e nadas
nas pré-fundas do escritor? Se os homens e a humanidade, mesmo que nos olhares
de esguelha, não sentissem pena e comiseração de nós, o que seria de nossas
vidas? Em verdade, humilhe-nos e ofende-nos, somos todos dignos de dó. No
observatório do coração alucinado, perdido nas costelas das constelações, nas
costas das estrelas e da lua, de sonhos e atônitas realidades, o escritor, o
poeta são galileus no breu das inquisições, nas trevas da Idade Média.
Todo cair da tarde a toada de medo, de insegurança, poema ou prosa, o
morrer que começa feito cócegas nos dedos.
(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE JULHO DE 2017)

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