ESCRITORA E POETISA Maria Isabel Cunha COMENTA O /**AFORISMO II: SERPENTES DEVORAM MORTAIS EXPULSOS DESTA TERRA MACULADA DE DEUSES**/
Quanta
serpente de língua bífida e mortal desliza por campinas floridas na espreita de
envenenar quem lhe passar pela frente ou lhe tirar o sol para aquecer o seu
sangue frio ou mesmo estrangular e engolir. Um abraço, escritor amigo.
Maria
Isabel Cunha
#AFORISMO
II - SERPENTES DEVORAM MORTAIS EXPULSOS DESTA TERRA MACULADA DE DEUSES#
Ao
amor regressa um fora-da-lei.
Hipocrisia,
ironia, cinismo, tudo suspenso na curvatura dos gestos, no soslaio do olhar. Há
um sítio de transparente branco e, nele, guarnece o gozo das confissões, o
vestuário discreto do olhar. Não compreende bem o que quer revelar. Confessa
que se sente exausto. Perde o fio dos pensamentos. Já não é senhor de clareza
do espírito. Nas vaidades pessoais, e mesmo impessoais. Reconhecendo-lhe à face
das crises esquálidas o som último das palavras. Vergaram-se as lágrimas.
Andava
pelas imediações de Serra das Águias, quando lá estava uma senhora, por volta
de seus sessenta e quatro anos, uma fisionomia estranha e esquisita,
enfileirando moedas de um real, havia umas quinze moedas enfileiradas, outras
tantas de um quarto de real, outras tantas de um décimo. Interrompeu a sua
caminhada por um instante, desejando aproximar-se, vendo como ela pegava as
moedas como o sustento de sua vida. Gritou-lhe logo, logo: “Vai embora. Vai
embora”. Afastou-se serenamente para não assustar a pobre e velha mendiga, não
era desejo, como entendera a atitude dela de lhe mandar embora, com medo de ele
tirar-lhe algumas moedas.
Murmúrios
facelados, cruzados.
Dramas
atormentaram-lhe. Que lhe direi? Assustadora a liberdade que se desencadeia na
posse falsa e medíocre do objeto de simulações, da propriedade mesquinha e
hipócrita do objeto de sublimações. Somente os ossos carnudos andando por entre
os homens. Cornos pontiagudos das relações familiares desestruturadas,
desequilibradas.
A
nostalgia gasta o acumulado pecúlio. Obtusa convulsão chapinha no cais
abandonado a toda miséria o evocar longínquo do eterno, o evolar próximo dos
projetos do infinito.
A
música, na qual o tema é absorvido pela forma de expressão e não pode ser
separado dela é um exemplo complexo – e uma flor ou uma criança é um exemplo
simples – do que está tentando dizer, mas o sofrimento é o exemplo fundamental,
tanto na arte quanto na vida.
Serpentes
devoram mortais expulsos desta terra maculada de deuses.
Por
limites, as águas apartam da morte olhos perspicazes não perturbados pela
angústia. Muitas vezes. Muita vez quando a luz se apaga sobre a sua insônia,
pergunta-se – fazia-o mais assiduamente – com os ossos entre(dedos): de onde
vem esta indiferença? De onde lhe vem este mal-estar que não lhe permite estar
em lugar algum? Deixa-se quieto a perguntar. Quieto e confortável em presença
de alguém? Costumava acordar no meio do sono, respondendo a perguntas não se
lembrar haver feito – sabe que, ás vezes, diz algo e não sabe o que diz,
minutos após, - ao menos articulado.
Por
trás da alegria e do riso pode esconder-se um temperamento áspero, grosseiro e
insensível. Mas por trás do sofrimento, há sempre mais sofrimentos. Diferente
do prazer, a dor não usa máscara. A verdade na arte não é a correspondência
entre a forma e a imagem, não é o grito que ecoa no vale entre as montanhas,
nem o poço de águas prateadas que refletem a imagem da lua para a lua, ou a
imagem de narciso para narciso. A verdade? As esperanças originais da filosofia
não foram realizadas porque a metafísica, a mais elevada das disciplinas
filosóficas, não dá mostras de ser capaz de alcançar a meta de conquistar a
verdade. Mesmo um ponto de vista negando que ec-sista algo como a verdade tem
de ser apresentado como verdade. O verdadeiro sentimento, o que re-colhe e
a-colhe em seu íntimo, importava-se lá entender ou compreender, o importante
era vivê-lo, o exterior reflete o interior, tornando-se a expressão do
interior, a alma re-vestida de forma humana, o corpo e seus instintos unidos ao
espírito. Por esta razão, não há verdade que se compare ao sofrimento. Só mesmo
uma mulher quem sente demasiado ambíguo, contraditório, excêntrico o seu corpo,
a sua sensualidade não cabendo nele, por os desejos serem perplexos e
eclipsados, podia saber o que é sentir o corpo e seus instintos unidos ao
espírito. Há momentos sim em que lhe parece ser a única verdade não haver
verdade que se compare ao sofrimento - mas é verdade que o "espírito"
é o "pensamento consciente"? Assim, se o for, o espírito do
sofrimento é o pensamento consciente da experiência da dor.
Outras
coisas podem ser ilusões dos olhos ou do apetite, feitas para cegar um e saciar
o outro, a visão do outro, mas é o sofrimento que tem construído os mundos, há
sempre dor no nascimento de uma criança ou de uma estrela.
(**RIO
DE JANEIRO**, 01 DE JULHO DE 2017)

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