**TIRANDO A BARRIGA DA MISÉRIA - REVISADO** - Manoel Ferreira


Peço-vos, egrégios e caríssimos amigos, senhores e capachos, a finesse acompanhada de excelência pelo obséquio de vossas atenções para tecer alguns comentários, ainda que às furtivas, pois que há pedras no meio do caminho até a minha residência, pensando eu ser de vossos interesses a percuciência delas.
Se, porventura, sem ventura alguma, encontrardes gafes no que tange às correções gramaticais, é que, sinceramente, mato pulgas aos beliscões com as exceções tantas para uma regra só, e no que concerne à oratória, é que estou muito distante da Grécia Antiga, quilômetros, léguas, milhas de longitude.
Em primeira instância, de tanto arrastardes nas sarjetas com falta de condições de sobrevivência, o salário é pouco, a aposentadoria menor ainda, só de pensardes nelas o medo vos levais ao cume do Pico Everest, como os gatos escaldados que têm medo de água fria, aconselho-vos a Gruta dos Hereges, onde podeis encontrar uma panela de pressão enorme, nela ides encontrar um sem-número de pedras de diamante; todos sabemos que nesta gruta há cascáveis até nas estalactites, mas, tocando uma flauta, podeis tripudiar as cobras e jamais precisar de dinheiro outra vez.
Em segunda instância, não há quem de vós que não aprecieis um pé de porco bem suculento, delicioso, bem apimentado, com jiló, mas também sabemos todos que fazer o pé de porco são outros dezessete e setecentos. Ninguém sabe cozinhar, tendo de comer porções em botequins copo sujo, tomando uma branquinha que arranca as prefundas da alma, os pelos eriçam, a medula sente o calafrio, a cabeça treme, o resultado sendo amigos levando para casa, a mulher armando o barraco com os amigos com as de excelência palavras da vulgaridade. Não sabendo cozinhar, comam cru o pé de porco. Ponham bastante pimenta no tempero para despistar aquele gostinho de sujeira dos porcos. Ainda antes, aconselho-vos a irdes ao dentista para cuidar dos dentes, pele de porco de granja é muita dura, e não vale a pena ficar com dentes quebrados na boca, para satisfazerdes as luxúrias do estômago, o resultado é a solidão inestimável porque as "gatinhas", "gatonas" gostam de homens com dentes cristalinos de brancura.
Em terceira instância, vós que tirais as vestes, pisais em cima em nome de uma verdade vossas, armais o maior barraco com as vossas opiniões, e por isto as mulheres de todo o mundo e fora dele afirmam categoricamente os homens somos jegues empacados à soleira do mata-burros, somos teimosos, aconselho-vos a serdes flexíveis, ouvirdes com carinho, ternura as exigências esquisitas de vossas mulheres, porque no momento do "bem-bão" vos alimentareis com o "leitinho dos deuses", verdadeiro néctar para as inspirações da vida obtusa.
Quarta instância, isto de encontrar com os amigos nas esquinas, praças públicas, no sentido de descreverdes as últimas do pasquim, é bastante agradável, alcovidades alimentam os interstícios do instinto, fazem rir e saltitar de alegria e felicidade, mas nisto há uma questão de excelência sensível e comprometedora: quem fofoca muito dá bom dia a cavalos, e pelo que sei os cavalos da trans-modernidade estão dando coices até por SEDEX.
Em quinta instância, dirigindo-me agora às digníssimas mulheres, elas que são o símbolo, signo, metáfora da vida, não acreditais que "amor de pica fica", porque o proscênio da entrega entre a primeira fila e o picadeiro, os demônios do paraíso celestial estarão tocando a gaita-Dylan do "blues", "Hey, Mr. Tambourine Man", e a pica é apenas o úbero das preguiças supremas do instinto trans-elevado aos dogmas do pecado que salvam o eterno de ser efêmero, vice-versa.
Obrigado a vocês de coração, alma, espírito, corpo, por me ouvirdes nesta reunião de domingo, hora do almoço, desta mais que egrégia e excelente instituição denominada Íntimos da Eternidade, como diz o povicho, Asilo de Velhos. A Receita Federal irá homenagear-nos no próximo sábado com um banquete de "dobradinha", regado a Absinto. Só espero que saibam bem limpar a dobradinha porque se não ficará na boca o gostinho desagradável da sujeira do boi, e não o gostinho de tirar a barriga da miséria.



Manoel Ferreira Neto.
(05 de janeiro de 2016)


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