**ESPERANÇA DE FÉ** - Manoel Ferreira
Julio Di Paula pediu-me fizesse o comentário do livro TANQUE CHEIO. O
livro não foi publicado. O comentário está feito. Quem sabe no futuro venha a
ser publicado.
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O "ser" se faz continuamente, a continuidade é também o
"ser". Significa que é no "tempo", através das
experiências, vivências, situações, circunstâncias, acompanhadas das dialéticas
e contradições, o encontro do "ser", a sua re-velação. No que tange
ao artista, escritor, poeta, dons e talentos habitam-lhe desde a eternidade à
eternidade, a partir da a-nunciação, quando sente, percebe, vê a presença
deles, começam as experiências, vivências com a arte das letras, com as letras
se tornando arte, no tempo a aquisição da linguagem, estilo, a autenticidade, o
des-envolvimento levando ao aprimoramento, este levando ao objetivo sine qua
non, a beleza, o belo, além disso as vozes do silêncio a-nunciando outros
horizontes e uni-versos para os homens.
No caminho das ciências, com as suas devidas características de
in-vestigação, o mesmo. São caminhos de in-vestigações, análises,
interpretações, no tempo o aprofundamento, outros horizontes e uni-versos se
re-velando, real-izando-se. A cada passo novas des-cobertas, des-velamentos,
caminhos sem fim, mas na continuidade das in-vestigações, pesquisas, o
"ser" se revelando.
Assim Júlio di Paula é a sua obra na dimensão da
"Espiritualidade", o desejo, a vontade, o sonho, a utopia, a
esperança de Deus, o encontro com a divin-idade, divin-itude, a fé.
Nosso objetivo no que concerne a tecer estes caminhos a partir de seu
novo livro é re-velar o crescimento, amadurecimento do autor, como se deu este
encontro de Deus na sua obra, na sua vida.
Mergulhar na espiritualidade é in-vestigar as sendas, veredas que
con-duzem aos horizontes da fé. Fé é a esperança do encontro eidético do
espírito, do ser divino, sentir Deus na vida, na existência, sentir não que
Deus é a salvação no sentido de nos tirar das ruas e avenidas do não, mas que
com a presença de Deus em nós, Deus nos habitando os interstícios da alma,
orientando-nos, somos quem nos tiramos das ruas e avenidas do não e nos
colocamos, andamos no silvestre dos campos, nosso universo existencial torna-se
a etern-itude da vida.
Sem antes sentir isto, torna-se superficial a leitura deste novo livro
de Júlio di Paula, DE TANQUE CHEIO, somente leitura e nada mais. Temos de
mergulhar no uni-verso do autor, sentir-lhe a profundidade da espiritualidade,
ser ele o porta-voz da espiritualidade, não é ele quem escreve a obra, a
espiritualidade revela Deus que nele habita, revela os caminhos de experiências
e vivências existenciais, angústias, tristezas, medos, depressões, vazio,
náuseas, o nada, a efemeridade, mas ao longo da jornada, através das reflexões
e meditações, olhando o mundo e as coisas do mundo com o lince dos olhos do
desejo do encontro com o OUTRO que são a transcendência, Deus, o ser-para a
espiritual-itude, as contingências da vida trans-bordam-se de alegrias,
felicidade, trans-bordam-se de desejos, sonhos, vontades, esperança,
trans-bordam-se do espírito da alma, as imanências da vida trans-bordam-se de
lutas, labutas, são a alma do espírito.
Nesta tangência do sentimento que me perpassou durante toda a leitura, é
que pude sentir e conhecer, a percuciência do entendimento, signo, símbolo,
metáfora do título, DE TANQUE CHEIO. O encontro eidético do Espírito da Fé,
experiência, vivência de Júlio di Paula, fá-lo trans-bordar-se de esperança,
fá-lo trans-bordar-se da Esperança da Fé, a verdade do Ser do Espírito, o
"tanque" está cheio da luz do Espírito, da Esperança, da Fé.
O homem é Ser-com Deus, Deus lhe habita. No tempo, des-vela-se o
"ser de Deus" - se é que podemos dizer assim, pois que Deus não é
"ser", não é "espírito" -, a espiritualidade se a-nuncia,
re-vela-se.
Nos seus livros anteriores, a in-vestigação dos caminhos do campo das
obras levava ao instante-limite, isto é, a "Alma do Espírito", eram
veredas do conhecimento espiritual, os conhecimentos adquiridos, a orientarem
para o silvestre das sendas espirituais, eram a vida contingente à busca da
transcendência, mas reflexões, meditações, estar diante da vida como ela é
fizeram a travessia, a difícil e complicada travessia da alma do espírito para
o espírito da alma, e Deus se revelou completamente ao Júlio de Paula. Agora
para compreender esta travessia é mister, condição sine qua non o "ser-da
esperança de fé", que nos habita desde a eternidade até a eternidade, para
o "ser-para a fé", que conduz à divin-idade, para a divin-itude. O
"tanque cheio" da fé conduz ao absoluto da Verdade de Deus, da
Verdade Divina.
Ao longo de nosso caminho de amizade, por algumas vezes encontrei Júlio
di Paula angustiado, triste, desconsolado, deprimido, e nestas algumas vezes
procurou-me ele para termos uma conversa, para aconselhá-lo, puxei-lhe as
orelhas, disse-lhe as coisas bem claras e transparentes, tinha de se libertar
das peias, amarras, correntes, algemas da contingência, mergulhar profundo no
seu ser. Era-lhe sine qua non vriar as costas à Igreja, Seitas, Templos
Religiosos, que são dogmas e preceitos - Jesus Cristo não fundou Igreja alguma
- e entregar-se sozinho à busca da espiritualidade. Há tempo para dizer as
coisas: desde as primeiras leituras de suas obras, senti o instante-limite, a
alma do espírito nas obras, não havia a transcendência, a travessia para o
espírito da alma. Mas agora com esta obra, o espírito da alma se revela
inteiro, completo, o tanque está cheio, transbordante.
Resta-lhe virar as costas para a Igreja, para as Seitas, para os Templos
Religiosos - isso não leva a lugar algum no que tange à Espiritualidade.
E surge essa obra colossal, obra prima da espiritualidade.
Manoel Ferreira.
(03-04-05 de fevereiro de 2015)

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