**PROFANOS ENTULHOS DIVINOS - REVISADO** - Manoel Ferreira


Espreito e escuto a mim, aliás, sinto que isto é sim um modo de ser o mais autêntico e verdadeiro com as coisas referentes a mim, devendo até salientar que isto me tem ajudado e muito na conquista de uma intimidade em harmonia, sin-tonia, sin-cronia com o que me é in-audito.
Isto nos instantes em que ouço ou descubro imagem nova para mim, nesta imagem há um mundo de sentidos que seria bem interessante considerar, espectros de sentimentos outros que requerem ser trans-cendidos. Talvez até me desagrade porque não se trata de algo que não gostaria de estar face a face com ele, algo desafiador e radical, algo que coloca em xeque os valores a que defendo a unhas e dentes afiadíssimos.
Contudo, penso comigo que, não espreitando bem no fundo destas coisas todas, não consiga enriquecer e elevar os procedimentos de mim para comigo próprio, não possa estar no "céu", con-templando a trans-cendência do Ser, aproximando-me da Verdde. E, inconscientemente, pergunto-me se não deveria colocar uma idéia absoluta oposta, como se diz misturando as coisas, como se mistura banana e maçã no coquetel o mais delicioso possível, embora não seja eu de modo algum devoto e seguidor da doçura. Se posso assim incluir, anexar, termo este que penso ser o mais adequado nesta situação, um “talvez”, e, claro, de acordo com o estilo que estiver contemplando, termino sendo cínico e irônico. Uso também “às vezes”, e aí acredito piamente que um espírito maligno adentra-me garganta a dentro, e posso até estar me referindo a uma pilhéria sem limiites. Até a palavrinha “provavelmente”, que nada suscita de esquisito e estranho, pois que é de norma para a conduta clássica e tradicional não criar uma obra usando termos assim, constituem pobreza de estilo. Contudo, a volúpia é imensa, e dela me não posso afastar ou postegar, e “provavelmente” me satisfaz sobremodo pois que rompe as hipocrisias e imbecilidades pessoalmente incômoda do duvidoso e vil.
Se num outro ângulo e ponto de vista esta imagem surge em forma suave e branda, tolerante e humilde, apesar de que no fundo dela a latência do estranho e esquisito está e muito presente, não posso me furtar ao prazer de satisfazer o íntimo em apresentar e com todas as pompas e empáfias do deplorável e de modo algum aceitável a alguém. Ao mesmo tempo que caio no colo mais aconchegante do paradoxo e da contradição, tento um outro exame minucioso da profanidade que reside em mim, e apresentando-a ao espelho, consigo perfeitamente contemplar a divindade, acaricia-la e nutri-la, dar força e plenitude, sim, verdade e até hipocrisias.
O grito de Isaías teve tanto a ver com a sua vida quanto o canto do rouxinol tem a ver com o aparecimento da lua, seja em que rincão do mundo esta lua apareça. Torna-se bem complexo e intrigante fazer algumas afirmações, pois há quem não possa entender o sentido, e aí apresentar uma interpretação desvirtuada, mas Cristo era, ao mesmo tempo, a negação e a afirmação da profecia. Para cada esperança que realizava, havia outra que destruía. Bacon dizia que “toda beleza tem sempre uma harmonia singular”. Falando naqueles gritos que germinam e nascem no espírito, isto é, naqueles que tal como ele são forças dinâmicas e práticas, Cristo diz que “são como o vento, que sopra onde lhe agrada e nenhum homem pode dizer quando vem, de onde vem e para onde vai”.
De meu peito, escapam suspiros roucos e profundos, como se o velho corpo não pudesse mais suportar os desejos, vontades e atividades de uma alma nova, se não prejudico a idéia dizendo de estar na idade da flor e dos lírios. De quando em vez, necessário estar muito atento e com uma interpretação das coisas bem aguçada no sentido de perceber, um tremor atravessa o meu corpo e obriga-me a um movimento aleatório, inconseqüente, em última e derradeira imagem involuntário, como estes sobressaltos que, ao fim de um dia de muita labuta ou durante uma noite muito agitada de insônia e as picuinhas incomodando bastante, precede o sono definitivo, que precede outra dimensão da vida, é-me desconhecida; tantas vezes tentei, todas em vão, no instante em que o sono toma-me por inteiro, sentir-lhe, viver-lhe, verbalizando-o. É-me desconhecido o sono, os sonhos por vezes, após acordar, tenho-os em mãos. De outros, nada me lembra.
Entendo mui bién o grito que apresentei aqui, se não não estaria aqui cuidando de esclarecer, ouço o meu clamar, e ensino-me sobretudo o amor que liberta, que perdoa, que ama, que compreende, que é paciente e benigno. Se não, quando e como atingiria eu a felicidade para que a Vida me fez.
Compreendo que sou homem sobremodo inconveniente, não tenho freios na língua, não carrego no meu alforje um desaforo, e, para reparar a falta, contra todas as regras e normas da etiqueta, ergo-me bruscamente. Recomponho-me, apercebo-me vagamente que de uma só vez cometi duas gafes, e ainda sendo mais elementar digo que abati dois coelhos com uma cajadada só, como se tem o costume de dizer. Não perco tempo. Cometo mais um, acrescento mais um disparate e tom galhofeiro para enfatizar ainda mais o dito anterior.
Tento desculpar-me, murmuro um comentário aqui, sussurro uma explicação ali, murmuro sorrindo algumas palavras, rubresço-me, atrapalho-me, deixo de falar, tomo um ar grave, torno a sentar-me, agora definitivamente, pois que necessito finalizar, e procuro sossegar-me lançando um olhar trigueiro e provocante cujo efeito é, segundo penso, se houver algo ainda mais profundo aproveito a oportunidade para amadurecer um pouco mais, reduzir a pó todos os comparsas e cúmplices, amigos e conhecidos. Este olhar também exprime os não menos nobres e doutos profanos entulhos divinos
Sou um homem de uma perfeita e sublime simplicidade e modéstia, não fui feito para brilhar, ser uma estrela solitária no universo imenso. Tenho muito gosto nisto. São estes os trunfos, pelo menos, estou bem convencido. Enfim, dirijo-me a todos com o coração nas mãos.
Com um olhar sobremodo duro e férreo, sei cumprir bem o caminho de maldito que estabeleci para mim, sem me deixar enganar pelo espírito maligno, por sinistros acompanhantes, mas sem esperança, sozinho com um cão à soleira da casa, olhando a rua e os transeuntes.
Um indivíduo que simplesmente odeia e discrimina a inteligência de que é dotado, as interpretações picantes e ferinas que fazem com as suas palavras, não mais é digno de ser representante deste valor insofismável e incólume de inteligente, o melhor seria que dependurasse atrás da porta de sua casa, qual uma ferradura, para que tenha sorte, o seu amuleto da sorte.



Manoel Ferreira Neto.
(07 de fevereiro de 2016)


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