**CHOVER NO MOLHADO** - Manoel Ferreira
Chover no molhado dá a luz à enxurrada, conforme o seu nível, levando
casas, árvores, tudo o que houver pela frente, o dilúvio. Nada de diluvio, nada
de tempestade, aquela chuvinha miúda; na madrugada, acordado, ouvindo-a,
olhando através das grades da janela, sentimentos gostosos, lembranças
sensíveis e leves, leves como a pluma, de momentos de alegria, prazer, voos por
todos os horizontes do mundo, recordações de carícias, toques, entrega. Chover
no molhado não cria a sensação de intensificar, sensibilizar mais?
E "chover no molhado" tem outro sentido bem diferente deste:
significa tudo já fora dito, nada mais a acrescentar, tudo o que tinha de ser
reconhecido já fora... Nada mais há a dizer. Fazê-lo pode ter como consequência
cair no ridículo, na mesmice, o que é, efetivamente, mui desagradável. Pode-se
ser considerado "puxa-saco", tem muitos interesses rolando com tantas
sedas rasgadas. O melhor é calar-se, silenciar, nada mais tendo a manifestar.
São etiquetas das mais preciosas, com elas evita-se muitos dissabore
Chega-se o momento de con-sentir com as etiquetas, é inevitável. É parte
constituinte do "manter a panca", "conservar o narizinho
empinado. É irritante: para cada momento, você tem de mostrar gestos e palavras
diferentes. Entrando num restaurante, tirando o chapéu para os não-conhecidos,
tirando-lhe e curvando-se para as personalidades presentes, os amigos íntimos
com quem vai jantar, segurando o chapéu na mão esquerda, dando aquela abraço,
batendo de leve o chapéu nas costas do amigo. Aí começam as etiquetas, os
trejeitos com o garfo e a faca, com o golinho da bebida. Discernir e bem a vida
pública e a vida íntima e particular. Jamais devem se confundir. E não é chover
no molhado a cada jantar com os amigos, criar e re-criar outros gestos e trejeitos,
antes o contrário, significa que a cada passo quer intensificar as relações.
Símbolo de finesse. Daí a estar envolvido até o último fio de cabelo com o
rebanho, é parte do rebanho, é um passo. Mais uma etiqueta se faz mister para
se livrar de ser oveilha, cercada de ovelhinhas no rebanho. Daí a rodar a
bengala na mão, quando o assunto que tratam todos é ridículo, fazendo barulho
com o solado do sapato, na meia volta para dar as costas, batendo a bengala no
chão de leve, seguindo de cabeça erguida, sem olhar para os lados. São
etiquetas de salão. Não é chover no molhado estar criando e re-criando
outras... Mesmo que nada mais há a mostrar da finesse estar realizada a
categoria e critério
Chover no molhado é caminho para a perfeição da finesse. Contudo, há uma
questiúncula nisto. Ser não é mostrar-se e mostrar-se não é ser. Nalguns
momentos, fases, processos da vida as etiquetas são imprescindíveis. Não seria
caminho para a absolutidade da hipocrisia. É gato e vive como lebre. É uma
tristeza triste para quem sabe que ser não é mostrar-se e mostrar-se não é ser.
De um lado sendo laureado, por outro sendo ainda mais intensas as gargalhadas e
risos, menosprezado in extremis pela falsidade.
Manoel Ferreira Neto.
(06 de janeiro de 2016)

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